Publicado 13/05/2026 00:00
Hoje é um dia muito especial. Não gosto do 13 na urna, mas também não acho que devamos deixar que nos roubem até os números, as cores e as palavras. Este 13 é, por exemplo, o dia de Nossa Senhora de Fátima.
Estive mês passado em Fátima, Portugal. A experiência de recordar as aparições aos pastorinhos e sua mensagem foi extraordinária. Mais ainda porque se uniu a um aspecto espiritual que raramente gosto de trazer a público, por se tratar de algo tão sério, tão delicado, tão nobre. Mas neste dia acho apropriado. Lá pude fazer uma das melhores confissões da minha vida e comungar logo em seguida, numa bela missa. E a comitiva que estava comigo fez o mesmo, sem que tivéssemos combinado nada.
A mensagem de Fátima ainda deve nos alarmar. Nossa Senhora pediu oração, conversão, penitência, reparação. Alertou contra guerras, fomes e perseguições. Pediu que se rezasse o terço todos os dias, e deixou aos pastorinhos uma frase que deveria atravessar o nosso comodismo como sino em madrugada fria: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o Inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.
Num 13 de maio nasceu também Dom João VI. Confesso desde logo que sou louco por Dom João e por sua mãe, Dona Maria I, nossa primeira rainha, do Brasil mesmo, no duro.
Dom João é desses personagens que a má caricatura quase venceu. O príncipe gordo, medroso, glutão, fugido, uma piada pronta. Só que a realidade foi muito maior do que o deboche. Dom João enganou Napoleão, transferiu a sede do Império português para o Rio de Janeiro, elevou o Brasil de colônia a centro político, abriu portos, criou instituições, deu corpo administrativo a uma unidade territorial que poderia ter se esfarelado em pedaços.
Ele inventou, antes de todos, o Brasil como peça unificada de uma monarquia. Lançou bases sem as quais dificilmente haveria país: a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, o Jardim Botânico, o Banco do Brasil, a vida cortesã, científica e administrativa no Rio de Janeiro.
Por fim, 13 de maio nos remete a um dos maiores dias da história brasileira: o dia em que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea.
A princesa ficou conhecida em seu tempo como a Redentora. Hoje, como não está na moda falar bem dela, fingem que sua assinatura foi irrelevante, protocolar, decorativa. Seu papel foi, sim, muito importante. Minha coluna não comporta toda a argumentação, mas registra ao menos uma lembrança.
Depois da Abolição, houve quem quisesse homenageá-la no alto do Corcovado. Seria Isabel, a Redentora, sobre o Rio. Ela teria respondido com grandeza que era melhor homenagear o Redentor de todos os homens. Essa cena, mesmo quando contada com prudência histórica, conserva uma beleza profunda: Isabel sabia que a palavra “redenção” era grande demais para qualquer criatura. Recebeu o título e apontou para Cristo.
A outra coisa que este dia me lembra é que o Brasil poderia ter se livrado muito antes dessa sangrenta nódoa histórica se tivesse ouvido seu Patriarca, José Bonifácio de Andrada e Silva. Em 1823, ele preparou para a Constituinte um libelo contra a escravatura. Não era conversa mole. Era política no sentido mais alto. Bonifácio queria atacar o tráfico, melhorar a condição dos escravos existentes e iniciar a emancipação gradual. Viu cedo o que o Brasil demoraria décadas para admitir: a independência política seria uma casca sonora se o país continuasse a comprar, vender e herdar homens.
Nas palavras dele: “Legisladores, não temaes os urros do sórdido interesse; cumpre progredir sem pavor na carreira da justiça e da regeneração política”.
A frase ainda morde.
Dom João deu forma política ao Brasil. Bonifácio percebeu a ferida moral que ameaçava essa construção. Isabel assinou, em 13 de maio, o gesto que encerrou juridicamente a escravidão. Uma nação pode ter território, Estado, instituições, leis, hinos, museus e bibliotecas; se perde a alma, porém, transforma tudo isso em cenário.
Rezemos a Nossa Senhora de Fátima para que interceda junto a Deus por nós: para que sejamos melhores, bem melhores, e para que o Brasil não demore tanto a fazer a coisa certa, ainda que custe dinheiro, ainda que custe eleições, ainda que custe um trono.
PublicidadeEstive mês passado em Fátima, Portugal. A experiência de recordar as aparições aos pastorinhos e sua mensagem foi extraordinária. Mais ainda porque se uniu a um aspecto espiritual que raramente gosto de trazer a público, por se tratar de algo tão sério, tão delicado, tão nobre. Mas neste dia acho apropriado. Lá pude fazer uma das melhores confissões da minha vida e comungar logo em seguida, numa bela missa. E a comitiva que estava comigo fez o mesmo, sem que tivéssemos combinado nada.
A mensagem de Fátima ainda deve nos alarmar. Nossa Senhora pediu oração, conversão, penitência, reparação. Alertou contra guerras, fomes e perseguições. Pediu que se rezasse o terço todos os dias, e deixou aos pastorinhos uma frase que deveria atravessar o nosso comodismo como sino em madrugada fria: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o Inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.
Num 13 de maio nasceu também Dom João VI. Confesso desde logo que sou louco por Dom João e por sua mãe, Dona Maria I, nossa primeira rainha, do Brasil mesmo, no duro.
Dom João é desses personagens que a má caricatura quase venceu. O príncipe gordo, medroso, glutão, fugido, uma piada pronta. Só que a realidade foi muito maior do que o deboche. Dom João enganou Napoleão, transferiu a sede do Império português para o Rio de Janeiro, elevou o Brasil de colônia a centro político, abriu portos, criou instituições, deu corpo administrativo a uma unidade territorial que poderia ter se esfarelado em pedaços.
Ele inventou, antes de todos, o Brasil como peça unificada de uma monarquia. Lançou bases sem as quais dificilmente haveria país: a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, o Jardim Botânico, o Banco do Brasil, a vida cortesã, científica e administrativa no Rio de Janeiro.
Por fim, 13 de maio nos remete a um dos maiores dias da história brasileira: o dia em que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea.
A princesa ficou conhecida em seu tempo como a Redentora. Hoje, como não está na moda falar bem dela, fingem que sua assinatura foi irrelevante, protocolar, decorativa. Seu papel foi, sim, muito importante. Minha coluna não comporta toda a argumentação, mas registra ao menos uma lembrança.
Depois da Abolição, houve quem quisesse homenageá-la no alto do Corcovado. Seria Isabel, a Redentora, sobre o Rio. Ela teria respondido com grandeza que era melhor homenagear o Redentor de todos os homens. Essa cena, mesmo quando contada com prudência histórica, conserva uma beleza profunda: Isabel sabia que a palavra “redenção” era grande demais para qualquer criatura. Recebeu o título e apontou para Cristo.
A outra coisa que este dia me lembra é que o Brasil poderia ter se livrado muito antes dessa sangrenta nódoa histórica se tivesse ouvido seu Patriarca, José Bonifácio de Andrada e Silva. Em 1823, ele preparou para a Constituinte um libelo contra a escravatura. Não era conversa mole. Era política no sentido mais alto. Bonifácio queria atacar o tráfico, melhorar a condição dos escravos existentes e iniciar a emancipação gradual. Viu cedo o que o Brasil demoraria décadas para admitir: a independência política seria uma casca sonora se o país continuasse a comprar, vender e herdar homens.
Nas palavras dele: “Legisladores, não temaes os urros do sórdido interesse; cumpre progredir sem pavor na carreira da justiça e da regeneração política”.
A frase ainda morde.
Dom João deu forma política ao Brasil. Bonifácio percebeu a ferida moral que ameaçava essa construção. Isabel assinou, em 13 de maio, o gesto que encerrou juridicamente a escravidão. Uma nação pode ter território, Estado, instituições, leis, hinos, museus e bibliotecas; se perde a alma, porém, transforma tudo isso em cenário.
Rezemos a Nossa Senhora de Fátima para que interceda junto a Deus por nós: para que sejamos melhores, bem melhores, e para que o Brasil não demore tanto a fazer a coisa certa, ainda que custe dinheiro, ainda que custe eleições, ainda que custe um trono.
Rafael Nogueira é Historiador, Filósofo, Mestre em Direito e doutorando em Ciência Política
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