Rafael Nogueira Divulgação
Publicado 17/06/2026 00:00
A Copa do Mundo começou desautorizando os entendidos. Em cinco dias e 16 jogos, foram oito empates. Na segunda-feira, os quatro terminaram empatados: Irã 2 x 2 Nova Zelândia, Bélgica 1 x 1 Egito, Arábia Saudita 1 x 1 Uruguai, Espanha 0 x 0 Cabo Verde. Foi o maior festival de empates num só dia de Copa desde 1958.

O ranking da FIFA é tipo certidão de nobreza, coisa que serve para muita coisa, menos para garantir vitórias antes da batalha. No início, a fila era Argentina, Espanha, França, Inglaterra, Portugal, Brasil, Marrocos. A Espanha, 2ª do ranking, enfrentou Cabo Verde, 67º, e não ganhou. Teve 74% de posse, rondou a área, insistiu, pressionou, e nada. Vozinha, goleiro de 40 anos, fez incríveis sete defesas. Cabo Verde fez só uma falta. O ataque mais moderno triangulava, mas o arquipélago fechava a porta.

Isso me remeteu ao Tratado de Tordesilhas, de 1494, que traçou uma linha a 370 léguas a oeste de Cabo Verde para dividir o mundo entre os reinos de Portugal e Castela, avó da Espanha. O acordo nasceu também da insatisfação portuguesa com uma divisão anterior, que favorecia demais os castelhanos. A partir daquele pedaço inicialmente modesto, Portugal formou o imenso território brasileiro, avançando, com o tempo, sobre áreas que a letra fria do tratado reservaria aos espanhóis. Séculos depois, o pequenino arquipélago, nação de pouca gente e livre há cinquenta anos, parece ter pregado nova peça nos espanhóis.

Brasil e Marrocos foi outra história. Aqui o espanto foi maior para nós, torcedores ansiosos pela volta daquela seleção que dava medo só de ver. O Brasil é o 6º do ranking; Marrocos, o 7º. Dez pontos e uns quebrados os separam, coisa de troco de padeiro. Deu 1 x 1: Saibari abriu aos 21 minutos; Vinícius Júnior empatou aos 32. A nossa vaidade queria um massacre, mas o ranking já avisava que não sairíamos a passeio.

Aos brasileiros, um conselho: convém respirar. Empatar com Marrocos foi ruim, mas não foi absurdo. Marrocos não é figurante. Foi semifinalista em 2022. Vale dizer que os marroquinos pertencem a um mundo muito antigo. A dinastia idríssida já governava por lá em 789. É terra de comércio, deserto e cidades antigas. Um país que aprendeu a suportar agruras de pé e a ferir na hora certa. No futebol, isso bastou para estragar a tarde de quem carrega cinco estrelas no peito.

Absurdo seria imaginar que o Brasil, por ser Brasil, tem direito adquirido ao espetáculo. Continuamos sendo a terra do talento individual que desequilibra. Mas há outras seleções boas, modernizadas, mais organizadas, mais coesas, com mais garra coletiva. E nós ainda aterrorizamos os nossos jogadores aumentando o peso da camisa mais pesada de todas.

Contou certa vez o professor Ricardo Roman Blanco, num livro sobre os bandeirantes, que a Reconquista opôs dois feitios. O cristão era feudal e disperso. O poder vinha da lealdade pessoal e da façanha de cada um, e isso fabricava heróis de fronteira, homens que guerreavam pela própria glória. Al-Andalus era mais urbano e centralizado, e amarrava o indivíduo ao todo, à comunidade dos fiéis, à disciplina da fé. Os dois lados tiveram seus heróis. Mas só de um se esperava que um homem só decidisse a batalha partindo sozinho para cima.

Não se vence Copa no primeiro jogo, mas também não se deve mentir sobre ele. Tomamos um susto. Houve confusão, bate-cabeça e gênio salvador. A cara do Brasil. Ancelotti precisará transformar essa ansiedade toda em resultado, confiando que Vini, Endrick, Neymar e os outros desequilibrem até o último jogo, enquanto o resto dá a vida pela retaguarda e pela assistência.

O Brasil é o cristão da Reconquista, herança que recebeu de Portugal. Todos ali importam, mas quem traz a vitória é sempre um herói ou outro. Os herdeiros remotos de Al-Andalus jogam em fileira, enquanto nós jogamos à espera do milagre.

E Copa é isso aí. O ranking inspira o mapa do apostador, mas o vento surpreende e fabrica uns quantos naufrágios. É por isso que ela irrita os administradores do previsível. E é por isso que ainda a vemos com tanto interesse.
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Rafael Nogueira é Historiador, Filósofo, Mestre em Direito e doutorando em Ciência Política
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