Rafael Nogueira Divulgação
Publicado 24/06/2026 00:00
A memória futebolística brasileira sofre de um mal: envelhece as derrotas como tragédias inevitáveis e rejuvenesce as vitórias como destinos naturais. Depois que ganhamos, todo mundo sempre soube. Antes do apito, quase ninguém sabia nada. O Brasil que hoje relembra 1994 como se tivesse entrado nos Estados Unidos montado num cavalo branco chegou àquela Copa com a alma mais para fila de cirurgia do que para cortejo imperial.

Lembro do que se dizia naquele tempo de infância: “Se a gente não ganhar contra esse monte de seleções fracas, não ganhamos mais.” Esperança e desespero andavam juntos, como quase tudo no nosso futebol. O time de 1994 parecia funcional, esforçado, competitivo, mas sem o esplendor das seleções que a imaginação consagrou como medida eterna. Havia Romário, e Romário era um monarca dentro da área; mas havia também desconfiança, resmungo e implicância: com a presunção do craque, com a “enceradeira” do meio-campo, com o goleiro do “queimou o filme em La Paz!”, com a falsa truculência do Dunga propalada pela imprensa. E, no entanto, fomos tetra.

Aquela Copa ensinou o que o brasileiro desaprende a cada 4 anos: seleção campeã nem sempre entra em campo parecendo campeã. Às vezes, entra parecendo problema, remendo, improviso. Mas acaba como uma reunião de condomínio que, por milagre, termina em epopeia.

Em 1998, voltamos à final com o Ronaldo Fenômeno, melhor do mundo no ano anterior, e ainda com a sensação de não pertencer ao altar de 1958, 1970 ou 1982. Contra a França, o pesadelo de Zidane subindo, a bola entrando, o Brasil passando mal e saindo de si mesmo.

Em 2002 já estávamos acostumados a chegar à final. E o Brasil ia muito bem, obrigado. Veio o penta, e veio com uma alegria danada: Ronaldo renascido, Rivaldo jogando bola demais, Marcos fechando o gol como quem foi chamado para uma enchente e acabou salvando uma comunidade inteira. Mesmo assim, não foi aquela marcha romana anunciada por trombetas.

A sensação de hegemonia daquelas décadas que foram de Pelé a Zico só voltou depois, na Copa das Confederações de 2005. Fez 3 a 2 nos donos da casa e 4 a 1 na Argentina, com Adriano nas pontas dos cascos. Adriano, naquele momento, era matador. Apesar da displicência de 2006 e da má sorte contra a Holanda em 2010, a hegemonia durou até 2013, quando, no Maracanã, contra a invencível Espanha do tiki-taka, o Brasil fez 3 a 0.

Então veio 2014. Antes do 7 a 1 houve o Chile, jogo que foi aviso. A bola na trave, no último minuto, foi a mão fria da história passando pelo nosso pescoço. Passamos nos pênaltis como sobreviventes de naufrágio. Depois veio a Alemanha. A bigorna caiu. Talvez algo parecido nunca mais se repita, embora o Brasil capriche ao inovar no vexame.

Em 2018, poderíamos ter ido adiante: a derrota para a Bélgica lembrou a da França em 1986. Em 2022, Deus não quis. Talvez tenha se irritado com a nossa tagarelice a cinco minutos do fim.

Eis por que 2026 não deve ser lido com a arrogância dos que já sabem nem com o desespero dos que já desistiram. O Brasil pode cair nos dezesseis-avos. Pode ser campeão. Pode repetir 2002, quando entramos desconfiados e saímos com a taça, ou as Copas em que nos convencemos de que o destino nos devia algo e descobrimos, tarde demais, que destino é segredo que nos escapa.

Eu tenho para mim que o Brasil ganha Copa quando descobre, no meio da confusão, uma forma de ser time, e respeita e valoriza os seus gênios e suas manias.

O Brasil de 2026 pode não ser grande. Mas em Copa do Mundo, o Brasil é também o peso das camisas antigas, a cobrança dos mortos, a saudade dos gênios, a corneta dos bares, a fé irresponsável das crianças e a suspeita, sempre presente, de que ainda podemos ganhar.
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Rafael Nogueira é Historiador, Filósofo, Mestre em Direito e doutorando em Ciência Política
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