Pedro DuarteFoto Divulgação
Publicado 13/05/2025 00:00
Basta andar por qualquer bairro do Rio de Janeiro para constatar: nossos viadutos estão, em sua maioria, degradados, sujos, mal iluminados e pouco vigiados. Assim, espaços amplos e com enorme potencial urbano acabam associados ao abandono, à insegurança e, muitas vezes, ao medo para quem transita por ali. Mas não precisa ser assim. E, em muitos lugares, já não é.
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Estive, recentemente, em Buenos Aires, na Argentina, e me chamou a atenção o projeto Via Viva, que transformou o espaço sob os trilhos do trem Mitre em um polo vibrante de gastronomia e comércio. O que antes era um vão desativado recebe agora mais de 28 mil pessoas nos finais de semana, criando convivência e gerando desenvolvimento local. A ideia é simples: onde circulam pessoas, afasta-se o medo.
O Rio de Janeiro já tem exemplos que comprovam o funcionamento dessa lógica. O Viaduto Negrão de Lima, em Madureira, é símbolo disso: o Baile Charme, a pista de skate, a quadra de basquete e a sede da CUFA compõem ali um centro pulsante de cultura, lazer e encontro. O mesmo acontece no Viaduto Jornalista Aloysio Fialho Gomes, em Realengo, com atividades esportivas e eventos comunitários. Esses modelos cariocas comprovam que não estamos falando de algo distante, mas sim de oportunidades à nossa volta — esperando para serem replicadas.
Outras cidades do mundo também têm apresentado caminhos a seguir. Em Toronto, o Bentway reinventou o espaço sob a rodovia Gardiner com arte, paisagismo, segurança e sustentabilidade. Em Miami, o parque linear Underline, de 16 km de extensão, está sendo erguido sob a linha do metrô como corredor de mobilidade e convivência. Em Tóquio e Yokohama, os japoneses misturam moradia, lojas, bibliotecas e centros culturais nos vãos urbanos. Já na Holanda, o projeto A8erna transformou uma estrada elevada em espaço para esportes, cultura e comércio, devolvendo vida a uma comunidade até então dividida.
No Brasil, as cidades de São Paulo e Porto Alegre já testam modelos de concessão e parcerias para revitalizar os baixos dos viadutos. O objetivo? Justamente ocupar o vazio urbano com lógica, segurança e criatividade. No Rio, não faltam espaços com esse potencial: o Viaduto João XXIII, na Penha Circular; o Jardel Filho, em Laranjeiras; ou até mesmo o elevado Paulo de Frontin, no Rio Comprido, são apenas alguns exemplos.
O conceito por trás dessa ideia é o que chamamos de “ocupação inteligente do espaço público”. É quando se entende que o espaço urbano precisa ser vivido, acessado, utilizado em diferentes horários e por diferentes públicos. É colocar fim às “fronteiras desertas”, como já alertava a urbanista Jane Jacobs. Viadutos não podem ser barreiras entre bairros, mas sim pontos de conexão.
E mais: não precisamos fazer tudo sozinhos. A iniciativa privada pode ser parceira valiosa nesse processo — como já tem sido em outras cidades —, desde que respeitando regras claras, garantindo a função pública desse espaço e assegurando benefícios para o entorno.
O Rio de Janeiro não precisa reinventar a roda. Basta abrir os olhos para o que já fazemos bem e aprender com quem faz melhor. O que falta é planejamento urbano e ousadia para dar novo significado ao que hoje simboliza abandono da nossa cidade. Também pode nascer cidade debaixo dos viadutos!
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