Publicado 26/08/2025 00:00
Existe um termômetro para medir o cuidado mais apurado que uma cidade deveria ter com seus habitantes: as calçadas. No Rio, esse indicativo aponta um quadro preocupante há décadas. Caminhar pelas ruas cariocas virou exercício de obstáculos. Trata-se de um problema estrutural de gestão urbana que afeta milhões de pessoas diariamente.
PublicidadeAo que parece, o problema se estende às demais cidades do estado do Rio. Segundo dados do IBGE, apenas 19% da população fluminense vive em ruas com calçadas sem obstáculos, enquanto 12% têm acesso a rampas adequadas para pessoas com mobilidade reduzida. Embora 79,4% das vias tenham algum tipo de passeio, a qualidade está muito aquém do necessário. A média nacional de ruas com calçadas é de 84%.
Os dados traduzem uma realidade que todos nós, cariocas, conhecemos: buracos que viram armadilhas, desníveis, postes plantados no meio do caminho, raízes que estilhaçam o piso, além de ausência de rampas de acessibilidade. O resultado? Quedas evitáveis que lotam prontos-socorros, isolamento social de idosos e pessoas com deficiência; e uma cidade que, na prática, expulsa o pedestre das ruas.
O problema não é apenas técnico; é de prioridade política e de coordenação. Enquanto grandes obras viárias consomem orçamentos milionários, a infraestrutura mais básica e democrática permanece esquecida. O pedestre, que deveria ser o protagonista do espaço urbano, segue relegado a um papel secundário, como se caminhar fosse um luxo e não um direito.
A legislação municipal determina que os proprietários dos imóveis são responsáveis pela manutenção das calçadas, mas, na prática, essa regra funciona como uma terceirização da responsabilidade pública. Sem fiscalização, sem padronização técnica e sem apoio à população para custear as obras, o resultado é um mosaico urbano caótico: cada metro de calçada tem uma solução diferente, quando tem alguma solução.
Experiências em outras cidades mostram que é possível mudar esse cenário. São Paulo implantou um Plano Emergencial de Calçadas, priorizando regiões de grande circulação e áreas próximas a escolas, hospitais e estações de transporte público. Medellín, na Colômbia, promoveu verdadeiras transformações urbanas em bairros periféricos com projetos integrados que colocaram o pedestre no centro do planejamento.
O debate sobre calçadas vai muito além da engenharia urbana. Está ligado ao conceito de cidadania: o direito de ir e vir com dignidade e segurança. Uma criança deveria poder caminhar até a escola sem riscos. Uma pessoa idosa não pode ficar prisioneira em casa porque as ruas são intransitáveis. Uma mãe com carrinho de bebê merece autonomia para circular. Ou seja: melhorar nossas calçadas é investimento, não gasto. Pedestres circulando movimentam a economia local, fortalecem o comércio de bairro e reduzem custos de saúde pública por acidentes.
O Rio tem vocação turística, beleza natural e uma população resiliente. Mas uma cidade só se torna verdadeiramente grande quando cuida de todos os seus habitantes. Nossas calçadas denunciam que ainda há muito trabalho pela frente nesse aspecto fundamental da vida urbana. A boa notícia é que soluções existem.
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