Publicado 10/03/2026 00:00
A Praça Onze é berço do samba e território de memória viva. Mas é também, há décadas, um dos exemplos mais gritantes de como o Rio pode concentrar potencial e desperdiçá-lo na mesma medida, muito em função da falta de políticas públicas adequadas. Felizmente, o Projeto ‘Praça Onze Maravilha’, anunciado pela Prefeitura em novembro, é um ponto de inflexão nesse movimento tão atrofiante para a cidade.
PublicidadeO pacote merece apoio: derrubar o Viaduto 31 de Março, requalificar entorno do Sambódromo, construir a Biblioteca dos Saberes e atrair novos moradores para a região. Eu mesmo, na Câmara, defendo há anos o adensamento urbano qualificado do Centro - por meio de iniciativas como o Reviver Centro - e nunca tive dificuldade em reconhecer quando o Executivo acerta. Mas há uma pergunta que precisa ser feita: por que locais como da Praça Onze e da Cidade Nova chegaram a 2025 do jeito que estão?
Essas regiões concentram uma série de grandes instituições. A sede da CEDAE fica ali. A Vibra Energia, grandes veículos de comunicação, os Correios, o Centro de Operações da Prefeitura, a sede administrativa municipal e, em breve, o novo Consulado Americano. E, ainda assim, o comércio não floresceu. A rua não ganhou vida. Os indicadores sociais do entorno seguem entre os piores da cidade. Uma das respostas pode estar nos muros (físicos e simbólicos).
Cada uma dessas sedes foi construída voltando-se para dentro. Grades, portões, pátios internos, guaritas. Edifícios que existem na Cidade Nova mas não lhe pertencem. Bolhas fechadas que geram fluxo de carros durante expediente e esvaziam o espaço público nas demais horas. Não houve exigência de uso misto no térreo, não houve integração com pedestre, não houve política pública que tornasse aquela chegada institucional alavanca real para desenvolvimento local.
O resultado é visível: os cortiços do entorno seguem sem perspectiva, a violência não recuou, o comércio de bairro não se instalou. A cidade construiu uma vitrine e esqueceu de abrir a porta. O projeto ‘Praça Onze Maravilha ‘tem a chance de corrigir esse erro histórico, mas só se encarar o problema de frente. Não basta remodelar calçadas e inaugurar equipamentos culturais se as novas edificações continuarem sendo estruturas desconectadas do espaço público e impermeáveis à vida urbana do entorno.
A região tem tudo para funcionar: as estações de metrô da Praça Onze, do Estácio e da Central do Brasil estão a poucos minutos a pé. Falta ativar esse potencial com calçadas qualificadas, bicicletários e elementos de micromobilidade que conectem os acessos do metrô à vida do bairro e que façam o passageiro virar pedestre, e o pedestre virar morador.
A Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) que será votada na Câmara precisa impor exigências claras: térreos ativos, usos mistos, fachadas permeáveis. E os prédios institucionais já instalados na região precisam ser chamados a fazer parte da solução.
A Praça Onze foi destruída para dar lugar a uma avenida. O samba sobreviveu. Agora, a cidade tem oportunidade de devolver ao território não apenas beleza, mas a escala humana que lhe foi roubada. Para isso, é preciso ter coragem de dizer que obras bonitas não bastam. O que transforma uma região é a rua funcionar.
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