Publicado 24/03/2026 00:00
O episódio ocorrido, na semana passada, entre o Detro e a Prefeitura do Rio em torno do BRT Metropolitano escancarou um problema que vai muito além de uma disputa entre esferas de governo: a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, da qual a cidade do Rio faz parte, não tem uma política de integração de transportes à altura da sua complexidade.
PublicidadeNa segunda-feira (16), poucas horas depois de inaugurado o Terminal BRT Metropolitano no Trevo das Margaridas, em Irajá, o DETRO rebocou um ônibus da Mobi-Rio que operava a linha 77, entre o terminal e Mesquita. Dois outros veículos foram autuados. O argumento do estado: transporte intermunicipal é competência estadual. A Prefeitura defendeu que a linha representava um avanço na conexão entre a capital e a Baixada, com tarifa mais acessível e trajeto mais rápido.
Não está em discussão aqui quem tem razão, se o estado ou a prefeitura. Além da questão jurídica, o episódio revela uma lacuna e um problema grave: a ausência de uma governança metropolitana funcional para o transporte público. O fato atinge principalmente quem transita entre a cidade do Rio e os municípios do entorno todos os dias, seja para trabalhar, seja para estudar ou mesmo por outro motivo qualquer.
A Região Metropolitana do Rio é a segunda maior do país. As tarifas intermunicipais cobradas hoje passam dos R$20 por viagem, em muitos casos, valores insustentáveis para os trabalhadores. E, quando o custo do deslocamento consome uma fatia desproporcional da renda, o problema deixa de ser apenas logístico e passa a ser social também.
Outros números mostram o tamanho do problema. Segundo dados do IBGE, os três municípios com pior tempo de deslocamento para o trabalho no país ficam na Baixada Fluminense. Em Queimados, quase 40% dos trabalhadores gastam mais de uma hora para chegar ao emprego. E 60% dos moradores da Baixada trabalham diariamente na capital. Essa é uma população que depende de integração metropolitana não como conveniência, mas como condição para participar da vida econômica urbana.
Integração metropolitana do Rio não pode permanecer nesse limbo. Cidades que enfrentaram desafios semelhantes apostaram em autoridades metropolitanas de transporte, com governança própria e capacidade de planejar rotas, tarifas e integração entre modais. Em Curitiba, a rede integrada de transporte conecta a capital a dezenas de municípios da região metropolitana com tarifa única. O passageiro embarca em qualquer terminal, faz quantas conexões precisar e paga uma vez só. O modelo começou a ser implementado nos anos 1980, funciona e é reconhecido internacionalmente.
Em São Paulo, o Bilhete Único permite até quatro embarques em três horas com uma tarifa, integrando ônibus, metrô e trem. São soluções diferentes em escala e desenho, mas que partem do mesmo princípio: o transporte metropolitano precisa ser planejado como sistema, não como colcha de retalhos.
Como se pode ver, os bons exemplos existem por aí. Precisamos agora definir objetivos e colocar mãos à obra. O Rio e a Baixada são, na prática, uma mesma realidade urbana. Exatamente por isso, a integração metropolitana não é um favor. É uma obrigação do poder público para melhorar a qualidade de vida da população.
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