Gleici Damasceno está no elenco de ’Noites Alienígenas’Foto: Wesley Barros
Publicado 12/04/2023 07:00
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Rio - Depois de vencer cinco categorias no 51° Festival de Cinema de Gramado, que aconteceu em agosto do ano passado, o longa-metragem "Noites Alienígenas" chega aos cinemas brasileiros desbravando a realidade da periferia de Rio Branco, no Acre, com a chegada das facções criminosas e do narcotráfico na região Norte do Brasil. O filme marca a estreia de Gleici Damasceno, campeã do "Big Brother Brasil 18", nas telonas. A jovem acreana de 28 anos comenta a experiência e os desafios de atuar em uma obra audiovisual produzida em sua terra natal. 
"Foi um grande desafio estar em contato com o set e a produção em geral. Primeiro, em acreditar na minha potência como atriz. A gente sempre acreditou que o filme tinha algo de especial. Hoje entendo que o que aconteceu ali foi algo muito lindo. Eu me sentia muito confiante por causa das pessoas que estavam comigo. O Sérgio que estava dirigindo, a Karla [Martins, produtora]. Então, me senti confiante e encarei como um aprendizado. Me gerou uma grande alegria e responsabilidade", revela. 
Gleici revela que o longa a reconecta com a sua história. "O 'Noite' retrata uma realidade minha: a jovem que cresceu na periferia de Rio Branco. Eu sempre vi muita potência no Acre e ver isso indo para fora do Brasil, as pessoas olhando da mesma forma que nós, só reforçou o meu olhar." A atriz ainda comenta as semelhanças com sua personagem, Sandra, uma jovem mãe solo. "Ela é uma menina muito sonhadora. A minha mãe criou três filhos sozinha, então eu me identifico com a personagem porque sei como é a luta. Eu vejo que essa história é parecida com a de muitas pessoas que cresceram comigo. Ser sonhadora é a maior característica da Sandra que eu me identifico." 
Adaptação Audiovisual
O projeto de baixo orçamento é baseado no livro homônimo do roteirista e diretor Sérgio de Carvalho. O escritor conta que concebeu a obra após a mudança do Rio de Janeiro para o Acre, onde mora há 20 anos. "Vim recém-formado [o roteirista cursou cinema no Rio de Janeiro], em busca da floresta, dos povos indígenas e tradicionais, com quem trabalhei bastante. Eu realmente me surpreendi quando cheguei, porque estava muito longe do meu imaginário enquanto pessoa que ainda não conhecia a região, com a quantidade de usuários de pasta base de cocaína, que é sobra da droga antes de ser mandada para o resto do país. Aqui, a gente vive numa região de fronteira de países produtores. Essa realidade da dependência química me tocou muito quando cheguei no Acre", conta.
A perda da identidade dos dependentes químicos é relatada no livro, mas o roteirista percebeu que com os avanços das facções criminosas seria necessário que o projeto escrito há mais de 10 anos sofresse uma atualização para que pudesse ser adaptado para o cinema. Sérgio de Carvalho teve a colaboração de Camilo Cavalcanti e Rodolfo Minari na produção do roteiro. "Aquela realidade estava completamente diferente porque o Norte foi impactado com muita violência pelas mudanças na rota do narcotráfico. Então, a gente viu o Acre ser tomado de uma maneira muito rápida, muito enérgica, e muito violenta pelo crime organizado. É uma realidade da Amazônia, sabemos que Manaus e Rondônia estão vivendo isso. Essa situação está chegando nas florestas e nos povos tradicionais. O Brasil fala muito pouco sobre o que tem acontecido aqui e quando fala disso é com uma certa distância", afirma.
Cultura Urbana
Imerso na realidade periférica, o longa mergulha na vida dos personagens jovens, interpretados por Gabriel Knox, Gleici Damasceno e Adalino Reis, e em suas relações com as manifestações artísticas, entre elas, o grafite e o hip-hop. "As culturas urbanas, como o próprio nome diz, são muito características das cidades. Porém, aqui no Acre as pessoas estão sempre trabalhando com elementos da floresta, da identidade amazônica. Acho muito interessante essa pulsão que a juventude das periferias mostra e que acaba fazendo um contraponto àquela realidade dura."
Veterano 
Entre um elenco recheado de novos talentos, o ator Chico Diaz, de 64 anos, destaca a importância de figuras mais experientes e exalta a possibilidade da nova geração de mergulhar em trabalhos com representatividade. "É muito bom ter uma referência de um passado. Podemos ver como a memória e o passado, frente ao que vem por aí, são doces. Na comparação com os tempos atuais, podemos ver a poética que havia, uma ingenuidade frente ao rolo compressor de um capitalismo voraz, que está trazendo tantas consequências, principalmente para as periferias. Pra mim, foi muito gratificante ver como este filme tomou corpo, essa força e essa potência. E acho que esses garotos estão com uma possibilidade interessante de registrar o nosso povo. Porque o mais importante a ser representado é o povo, com suas procuras, suas ambições, suas lutas e suas fibras."
Reportagem da estagiária Letícia Pessôa sob supervisão de Tábata Uchoa
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