Detalhes da vida e carreira de Arlindo Cruz são contados em ’O Sambista Perfeito’Reprodução
Publicado 30/08/2025 05:00
Rio - Arlindo Cruz morreu aos 66 anos, no dia 8 de agosto, deixando um enorme legado no cenário musical. Na biografia "O Sambista Perfeito", o escritor Marcos Salles retrata a trajetória do cantor e compositor, considerado um dos maiores nomes do gênero, trazendo à tona não apenas a carreira, mas também a vida pessoal e os desafios enfrentados por ele ao longo dos anos.
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Para o autor, existe um interesse renovado de conhecer a história de Arlindo após a grande comoção entre fãs e artistas devido ao falecimento do cantor. "Querem saber mais desse cara que popularizou o banjo, instrumento que veio pro samba pelas mãos do Almir Guineto. Fico feliz por estar estimulando a leitura a muitos que não tinham o livro como primeira opção. E agora que ele se foi, muitos querem se informar. É um livro para se pensar e ter lições com este mestre chamado Arlindo Cruz", afirma.
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido pelo artista em 2017, que gerou sequelas, é o ponto de partida do livro de 462 páginas. "Achei importante na trajetória dele, interrompida por este AVC, contar a última semana e o que ele deixou de fazer por conta do AVC. Foi uma parada brusca numa carreira de sucessos. E foi minha única opção de abrir o livro. Confiei", explica o autor.
Marcos Salles já conhecia a história de Arlindo desde 1981, quando os dois se encontraram pela primeira vez, além de ser o responsável pela biografia do grupo Fundo de Quintal, que o sambista integrou por mais de uma década. Com o apoio da família, parceiros, músicos e amigos, o escritor foi capaz de organizar a narrativa de maneira única, trazendo ao livro um tom íntimo.
"Na minha forma de contar essa história fui me aprofundando no que sabia e descobrindo o que ainda não sabia. Aí foi só organizar e contar como se estivesse conversando sobre Arlindo. No livro sou eu mesmo contando a trajetória dele e abrindo espaço para muitos falarem", diz.
Mesmo com a intimidade que tinha com o artista e o samba carioca, alguns detalhes da trajetória de Arlindo pegaram Salles de surpresa durante o processo de escrita. "Não faço pesquisas para os livros que tenho escrito desta geração do Cacique de Ramos justamente por estar com eles desde 1981. Mas com Arlindo, o fato dele ter sido um portelense, por exemplo, me surpreendeu. E também não conhecia a história da vó Flora. Outra boa foi a da fixação por querer batizar todo mundo", conta.
Compositor de mais de 500 músicas ao longo da carreira, Arlindo se sobressaiu não só pelo dom musical, mas também por sua generosidade na prática artística. Esse aspecto é revelado no trecho do livro em que ele destaca a importância de seus parceiros de composição, mesmo com aquele que, segundo ele "não vem muito na música" durante a criação das canções. 
"Ele abraçava a todos. E, por mais que fosse um compositor genial, fazia novas parcerias sempre. É a tão falada generosidade dele, apontada por muitos. Enxergava sempre o lado bom deste possível novo parceiro, que podia não ser bom de letra, mas fazia boas melodias. Então, fazia com ele."
A influência do sambista Candeia (1935-1978), compositor de clássicos como "Sou mais o samba", "Expressão do teu olhar" e "Vem, menina moça", na carreira de Arlindo se mostrou fundamental, não apenas como mentor, mas guia nos princípios e valores que moldaram sua personalidade e arte. Uma das figuras mais respeitadas do samba, o artista foi um verdadeiro padrinho para Arlindo.
"Foi com Candeia que Arlindo gravou pela primeira vez, no disco 'Samba do Roda', em 1974. Com ele aprendeu a manha e os caminhos do partido-alto. E também muito sobre a negritude. Das raízes ao preconceito", recorda.
Essa referência se estendeu para além da música, moldando a forma como o sambista se posicionava no cenário artístico, especialmente frente a discriminação presente na sociedade brasileira. "Desde o repertório no Fundo de Quintal até como se portar, sendo um artista negro num país onde existe o preconceito. Muitas vezes de forma velada, mas existe".
A relação de Arlindo e sua mulher, Babi Cruz, também é abordada no livro. Ao contar os episódios que envolvem o casal, o autor buscou equilíbrio entre o respeito pela privacidade e a importância dessas histórias íntimas. "É fundamental saber abordar temas tão particulares. Creio que consegui, num tom verdadeiro sem usar o sensacionalismo. Fui fiel a cada detalhe contado por ela", relata. 
Em um dos capítulos finais de "O Sambista Perfeito", Salles reúne depoimentos de figuras como Zeca Pagodinho, amigo de longa data de Arlindo, Maria Rita, Marcelo D2 e Hélio de La Pena, sobre o legado do artista. "Sua marca está em cada resposta. E vem da sua generosidade e do jeito que conduzia sua vida e sua relação com amigos e familiares. Sinceramente? É um cara inesquecível".
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