Publicado 27/02/2025 06:00
Rio - Com 40 anos ininterruptos atuando nos desfiles das escolas de samba, seja no Grupo Especial, na Série Ouro ou em São Paulo, o carnavalesco Mauro Quintaes, de 58 anos, não pensa em parar tão cedo. "Continuo com a mesma vontade de quando comecei. Não fico estagnado, vejo as tendências do Carnaval, mudo, sou contemporâneo, mas é claro que não posso perder a minha personalidade artística", diz ele, às vésperas do desfile da Unidos do Porto da Pedra, de São Gonçalo, que se apresenta no sábado (1º).
Publicidade"Nesse tempo eu nunca fiquei sem fazer carnaval. Vou comemorar esses anos todos de carnaval trabalhando. Fiquei fazendo sete anos em São Paulo na Tom Maior e Gaviões da Fiel. Até para o Canadá levei a nossa arte. Havia o 'Brasil Ball', era um baile em que pegávamos o que sobrava do carnaval daqui e fazíamos adereços e pequenas alegorias. Durou quatro anos", recorda Mauro, que no Rio passou por escolas como Salgueiro, Viradouro, Mocidade Independente, Mangueira, Unidos da Tijuca e outras.
O profissional espera que o feito de 1995, quando também defendia a Vermelha e Branco de São Gonçalo se repita. "Naquele ano a escola subiu e voltamos para o Desfile das Campeãs. Foi um belíssimo trabalho. A Série Ouro é muito sacrificada. Vamos ver se com a Cidade do Samba 2, prometida pelo prefeito Eduardo Paes, tudo melhore’’, diz ele semo pinião formada sobre o fato de o desfile das escolas do Especial serem realizados em três noites. "Te confesso que não sei como irá ficar, mas acho que poderiam ser cinco escolas por noite, três delas da Série Ouro", afirma.
Saga na Amazônia
O enredo da Porto da Pedra é "A História que a Borracha do Tempo Não Apagou", sobre a saga de Henry Ford de tentar de construir uma cidade industrial na Amazônia, conhecida como Fordlândia, na década de 1920. Para Quintaes, esse é um dos papeis do Carnaval: contar uma história que faz parte da construção do nosso Brasil, mas que poucos conhecem.
"O que nos norteia na criação de este enredo é mais uma vez nos posicionarmos na luta pela defesa da Amazônia, dos povos originários e dos caboclos que habitam a sua imensidão. É uma história real, que será narrada por vozes reais encontradas neste lugar. Em todos os meus desfiles existe um cunho político. Neste ano, colocaremos a faixa: 'a Floresta Vence'. A ideia é que não aconteça com a nossa floresta o mesmo que houve com o café e a borracha", pontua.
De acordo com o carnavalesco, nos livros de história, Fordlândia é um capítulo esquecido. Daí a ideia de transformá-la num enredo: "Mas, alguém lembrou de nós e, se temos voz, queremos ser ouvidos! Irmanados aos nossos parentes Apiaká, Borari, Maytapu, Avá-Canoeiro, Arapium e Arara Vermelha. Tupinambá, Cumaruara, Jaraqui, Tapajó e Tupaio. Por nossa gente do Tapajós, por nossas terras, por nossos lugares".
Mauro, que estava em 2024 na escola quando ela foi rebaixada do Grupo Especial, conta que os trabalhos na escola começaram um pouco mais tarde por causa de recursos, mas que agora tudo está na reta final, etapa que ele faz questão de acompanhar tanto na quadra como no barracão. "É o tempo todo. Olho as fantasias e as alegorias de perto. Não abro mão do relacionamento com os meus pares. O enredista, Diego Araújo, historiador e museólogo, tem um olhar acadêmico para a Fordlândia".
O carnavalesco não se esquece de duas pessoas que o ajudaram muito quando ele chegou no samba: Max Lopes e Joãosinho Trinta. "Mas o meu ídolo mesmo e grande amigo é o Renato Lage. Para mim, ele é um espelho".
Programa de entrevistas
Antenado com os talentos que fazem o maior espetáculo da Terra, o carnavalesco quis dar oportunidade para que as pessoas menos conhecidas tivessem também protagonismo. Assim, criou no Youtube o "Quinta com Quintaes", com sete temporadas realizadas como produção independente. Atualmente, o programa é exibido na TV Alerj, também às quintas-feiras, às 20h30.
"O programa tem foco total no carnaval e visa apresentar profissionais que não são muito vistos durante o carnaval como aderecistas, costureiras, projetistas, figurinistas e outras profissões, mas é claro que também já entrevistei Neguinho da Beija-Flor, Wantuir, entre outros. Não quis ir para podcast. A entrevistas podem ser acessadas pelo @quintascomquintaes ou no youtube da TV Alerj".
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