Neguinho da Beija-Flor e Maria Augusta RodriguesReprodução / Instagram
Publicado 11/07/2025 17:25 | Atualizado 11/07/2025 17:45
Rio - Neguinho da Beija-Flor, porta-bandeiras, jornalistas e pesquisadores do samba lamentaram, nesta sexta-feira (11), a morte de Maria Augusta Rodrigues, aos 83 anos, vítima de complicações de um câncer na bexiga. Referência histórica do Carnaval carioca, a carnavalesca e ex-comentarista foi homenageada por sua atuação pioneira, pelo protagonismo feminino e pela contribuição intelectual à folia.
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"Recebi com muita tristeza a notícia do falecimento da minha grande amiga Maria Augusta. Uma mulher incrível, que deixou sua marca na história da Beija-Flor com carnavais inesquecíveis. Que Deus te receba em um plano de luz e conforte o coração de todos os familiares e amigos. Descanse em paz, minha amiga querida. Seu legado jamais será esquecido", disse Neguinho da Beija-Flor.
"Morreu aquela que eu chamo de a grande 'esfinge momesca'", afirmou o jornalista e escritor Fábio Fabato. "De conhecimentos profundos sobre o Carnaval, muitas vezes, de difíceis compreensão (como os sentimentos possibilitados pelo uso de cores), e que se firmou na posição de protagonista da arte foliã num ambiente amplamente dominado pelos homens. Maria Augusta perguntou como seria o amanhã em plena Ditadura, criou um estilo de leveza marcante nos anos de União da Ilha (escola que ajudou a transformar em grande), foi uma pensadora das escolas de samba, organismos tão importantes para a cultura popular, além da avenida. Possivelmente, a última romântica da festa."
Lucinha Nobre, porta-bandeira da Unidos da Tijuca, recordou uma viagem a Cabo Verde com a carnavalesca. "Foi um momento único de troca de conhecimento e lindas lembranças. Ela estava feliz." Em seguida, destacou: "Maria Augusta foi uma mulher forte, pioneira, culta, que conversava sobre todos os assuntos possíveis, para além de samba e carnaval. Guardo com carinho nossas ligações de quase sempre mais de uma hora de duração. Ela gostava da vida e viveu com amor e alegria."
Escritora e pesquisadora, Raquel Valença reforçou a dedicação de Maria Augusta aos bastidores da folia. "Frequentava as quadras, visitava os barracões, conversava não apenas com os carnavalescos, mas com todos os trabalhadores da infraestrutura do fazer carnavalesco: conhecia ferreiros, sabia quem trabalhava bem com vime, indicava costureiras. Ia à Sapucaí tarde da noite para aqueles ensaios secretos de baterias e casais de mestre-sala e porta-bandeira. [...] É um lindo exemplo de vida, pois a idade e a doença não a impediram de viver até o fim fazendo o que mais amava."
Rute, porta-bandeira da Viradouro, com 29 anos de carreira, relembrou a importância de Maria Augusta em sua trajetória. "Tenho a Maria Augusta como referência por esses 29 anos. Não me lembro de uma vez em que tenha me apresentado numa cabine de jurados e não tenha visto ela ali — analisando, observando, torcendo. Teve uma vez uma polêmica sobre um movimento da minha bandeira, e ela foi em minha defesa. Ter aquela voz por mim, numa época em que eu não tinha voz, foi marcante demais."
Leo Antan, pesquisador assistente do carnavalesco do Salgueiro, Jorge Silveira, e curador da exposição "Cartografias de Augusta", realizada em 2023, destacou o legado multifacetado da artista. "Tive o prazer de trabalhar com a Maria Augusta quando realizamos uma exposição que celebrou o legado artístico e a importância dela para o Carnaval, uma artista que surgiu ali na Revolução Salgueirense, teve passagens ainda na União da Ilha, no Tuiuti, na Beija-Flor, na Tradição, que inventou um novo jeito de fazer Carnaval. Foi uma mulher absolutamente pioneira no uso da cor, no uso da forma, do brilho. Era uma pessoa que dominava a linguagem de carnaval em todos os seus aspectos, entendia de enredo, de samba, de casal, de comissão de frente. Então, a gente perde um pouco de uma biblioteca, a gente perde ensinamentos e saberes ancestrais do carnaval desde a década de 1960, que infelizmente nos deixaram, mas que vão seguir eternos de alguma maneira."

Amigo pessoal da carnavalesca e ex-presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães fez uma reflexão sobre a atual fase do desfile das escolas de samba à luz da obra de Maria Augusta: "As qualidades e a importância da Maria Augusta para o Carnaval, principalmente para a inovação de enredos, eu tenho certeza que vão ser tratadas por muita gente. Eu gostaria de pegar uma outra questão, que acho importante nesse momento em que o desfile das escolas está em uma encruzilhada. Vemos uma nova geração tomar a direção das coisas, tentando buscar novos rumos, novas receitas para o Carnaval, e isso é fundamental. Mas o Carnaval também tem seus pesos e contrapesos. A Maria Augusta já revolucionou o Carnaval, e tinha muita preocupação com aspectos que estão sendo trazidos hoje. Ela se perguntava: isso vai ser bom ou ruim para o desfile? O tempo é que vai dizer. Mas essa dialética entre tradição e inovação ela compreendia profundamente. Essa é uma reflexão importante neste momento."
Maria Augusta Rodrigues morreu no Rio de Janeiro, devido a uma falência múltipla dos órgãos. Ela estava internada no CTI do Hospital São Lucas, em Copacabana, na Zona Sul da cidade. Ao longo de sua carreira, se tornou uma das primeiras mulheres a assumir protagonismo nos desfiles, sendo responsável por carnavais marcantes na União da Ilha, Salgueiro e Beija-Flor, além de atuar como comentarista na TV Globo e pensadora crítica da cultura carnavalesca.
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