Ernesto Paglia se desliga da TV Globo após 43 anos: 'Foi um privilégio'

Jornalista, que não teve contrato renovado, deixa pronto um 'Globo Repórter' especial e também participará da produção de um documentário para o Globoplay

Ernesto Paglia deixa Globo após 43 anos na empresaReprodução / TV Globo
Publicado 26/12/2022 12:59
Rio - Ernesto Paglia deixa a TV Globo após 43 anos de trabalho na empresa. O jornalista, que não teve o contrato renovado, deixa pronto um "Globo Repórter" especial, que fará parte da comemoração de 50 anos do programa. A informação foi confirmada pela emissora ao DIA, na tarde desta segunda-feira.


"Quarenta e três anos e sete meses. Tempo demais numa única empresa, dizem hoje em dia. Quando comecei na Globo, em maio de 1979, um 'bom tempo de casa' era atestado de competência. O certo é que esse longo período permitiu colecionar um repertório profissional que me enche de orgulho. Uma lista imensa de satisfações", iniciou o jornalista na mensagem enviada aos colegas de trabalho.
"[...] Foi um privilégio ter sido repórter, na linha de frente da profissão, durante o riquíssimo período criativo dessas quatro décadas. Pude contar grandes, belas e importantes histórias ao lado de gente competentíssima. Ainda há muitas por contar. As novas tecnologias multiplicaram as telas. E acredito ainda ter muito a oferecer como jornalista, ofício que me dá enorme orgulho. Parafraseando um velho slogan, a gente se vê por aí", concluiu Paglia, que também seguirá participando da produção de um documentário para o Globoplay.


Leia a carta na íntegra
Quarenta e três anos e sete meses. Tempo demais numa única empresa, dizem hoje em dia.

Quando comecei na Globo, em maio de 1979, um “bom tempo de casa” era atestado de competência.

O certo é que esse longo período permitiu colecionar um repertório profissional que me enche de orgulho.

Uma lista imensa de satisfações.

Dá pra imaginar o peso dessa experiência na minha vida. Entrei na Globo com 20 anos recém completados, saio às vésperas de fazer 64.

No trabalho, dobrei minhas melhores expectativas. Em muitos casos, literalmente.

Fui correspondente em Londres por duas vezes.

Visitei Ártico e Antártida outras duas, cada.

Viajei por dezenas de países.

Fiz reportagens em todas as ilhas oceânicas brasileiras e em muitos dos seus parques nacionais.

Perdi a conta das missões complexas que ajudei a destrinchar.

Citando de memória…

A libertação de Nelson Mandela em 1990, na África do Sul.

No interior da Inglaterra, a primeira entrevista de Ayrton Senna como piloto da Fórmula 1. Dezessete anos depois, em Interlagos, a sua última participação numa matéria de TV.

Cobri todas as visitas de Papas ao Brasil e mais algumas fora do país.

Trabalhei em 8 copas e 4 olimpíadas.

Entrevistei Shimon Perez, Kofi Annan, Paul Krugman, Tim Berners-Lee. Tim Burton, Ney Matogrosso, Maria Rita, Cássia Eller, Cora Coralina, Gilberto Gil. Zubin Mehta, Maurice Bèjart, Placido Domingo. Gravei com Margareth Thatcher, Mikhail Gorbachev, Fidel Castro, François Mitterrand, Helmut Khol. Até de João Paulo II consegui arrancar algumas reações, num tempo em que Papa não falava com a imprensa.

Acompanhei o fim da ditadura militar, a luta pelas Diretas Já, o calvário de Tancredo, a volta da Democracia. As eleições e posses de José Sarney, Itamar Franco, Fernando Collor de Melo, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva, Dilma Roussef.

Fora do Brasil, Pepe Mujica e Hugo Chaves.

Fiz documentários com Luiz Gonzaga e Mário Juruna.

Tive o privilégio de realizar milhares de matérias de destaque para todos os telejornais da Globo.

Até o fim.

Escrevo esta despedida em Stanley, onde vim fazer ( de novo, a minha segunda ) matéria nas Ilhas Falklands/Malvinas. Um verdadeiro presente de despedida do Fantástico.

Sou grato à TV Globo por todas essas oportunidades de aprender e explorar a linguagem da TV. Tive a sorte de embarcar na então Central Globo de Jornalismo quando um grupo de brilhantes veteranos tarimbados da imprensa escrita começava a mudar o telejornalismo brasileiro. As conquistas desse período estão por trás da qualidade exibida até hoje.

Ajudei a formatar o “novo” Globo Repórter, quando o programa passou para a jurisdição do Jornalismo.

Criei programa para a nascente Globo News, participei do desenvolvimento do formato inovador inaugurado pelo Globo Mar.

Fiz a primeira entrada ao vivo da Antártida na TV brasileira!

As primeiras participações via internet para o JN no Paquistão, no pós-11 de Setembro.

A Rede Globo sempre me tratou com grande correção. O melhor exemplo foram os 13 meses em que a empresa me permitiu trabalhar em casa durante a pandemia.

Nesse último período, acredito ter correspondido à altura: segui colocando matérias no Fantástico, produzindo reportagens nacionais e internacionais em ritmo ainda mais frequente que o normal, trabalhando pela internet, gravando sozinho ou com ajuda da minha esposa. Sem sair de casa, fiz matérias que foram das explosões no porto de Beirute à entrevista com a ganhadora do prêmio Nobel da Paz de 2021, da pandemia da Covid à guerra da Ucrânia . Os últimos anos no Fantástico também foram a minha segunda passagem pelo programa. Tenho muito orgulho de ter feito parte dessa equipe brilhante.

Nesta despedida da Globo, não posso deixar de agradecer às companheiras e companheiros que tanto me ensinaram, jornalistas com quem compartilhei dias e noites de trabalho, nas redações de todos os programas para os quais produzi.

Obrigado aos colegas que estiveram ao meu lado em expedições inacreditáveis, que ficaram incomunicáveis por semanas angustiantes no Atol das Rocas, que desafiaram o frio em viagens de trenó pelo Ártico, encararam a tropa de choque nas grandes greves do ABC, engasgaram com os gases lacrimogêneos de tantas passeatas e manifestações pela Democracia, se perderam ao meu lado nas savanas do Quênia.

Meu eterno reconhecimento aos jornalistas e técnicos com quem cruzei o Brasil numa cobertura pré-eleitoral que dificilmente vai se repetir, voando de jato executivo para os quatro cantos do país em visitas-surpresa a municípios de todos os estados brasileiros.

Minha gratidão aos geniais profissionais que embarcaram comigo em inúmeras travessias pelo Globo Mar, mareando em jangadas, iates ou navios militares para contar as histórias que acontecem além da arrebentação.

Meu muito obrigado, também, a todos os especialistas de outras áreas, que viabilizaram todos esses trabalhos: editores de imagens, técnicos, motoristas, motoqueiros, pessoal administrativo. Televisão é trabalho de equipe, e tive a sorte de participar de algumas das melhores.

Foi um privilégio ter sido repórter, na linha de frente da profissão, durante o riquíssimo período criativo dessas quatro décadas.

Pude contar grandes, belas e importantes histórias ao lado de gente competentíssima.

Ainda há muitas por contar. As novas tecnologias multiplicaram as telas. E acredito ainda ter muito a oferecer como jornalista, ofício que me dá enorme orgulho. Parafraseando um velho slogan, a gente se vê por aí.

Ernesto Paglia
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Ernesto Paglia se desliga da TV Globo após 43 anos: 'Foi um privilégio' | Televisão | O Dia [an error occurred while processing the directive] [an error occurred while processing the directive] [an error occurred while processing the directive]

Ernesto Paglia se desliga da TV Globo após 43 anos: 'Foi um privilégio'

Jornalista, que não teve contrato renovado, deixa pronto um 'Globo Repórter' especial e também participará da produção de um documentário para o Globoplay

Ernesto Paglia deixa Globo após 43 anos na empresaReprodução / TV Globo
Publicado 26/12/2022 12:59
Rio - Ernesto Paglia deixa a TV Globo após 43 anos de trabalho na empresa. O jornalista, que não teve o contrato renovado, deixa pronto um "Globo Repórter" especial, que fará parte da comemoração de 50 anos do programa. A informação foi confirmada pela emissora ao DIA, na tarde desta segunda-feira.


"Quarenta e três anos e sete meses. Tempo demais numa única empresa, dizem hoje em dia. Quando comecei na Globo, em maio de 1979, um 'bom tempo de casa' era atestado de competência. O certo é que esse longo período permitiu colecionar um repertório profissional que me enche de orgulho. Uma lista imensa de satisfações", iniciou o jornalista na mensagem enviada aos colegas de trabalho.
"[...] Foi um privilégio ter sido repórter, na linha de frente da profissão, durante o riquíssimo período criativo dessas quatro décadas. Pude contar grandes, belas e importantes histórias ao lado de gente competentíssima. Ainda há muitas por contar. As novas tecnologias multiplicaram as telas. E acredito ainda ter muito a oferecer como jornalista, ofício que me dá enorme orgulho. Parafraseando um velho slogan, a gente se vê por aí", concluiu Paglia, que também seguirá participando da produção de um documentário para o Globoplay.


Leia a carta na íntegra
Quarenta e três anos e sete meses. Tempo demais numa única empresa, dizem hoje em dia.

Quando comecei na Globo, em maio de 1979, um “bom tempo de casa” era atestado de competência.

O certo é que esse longo período permitiu colecionar um repertório profissional que me enche de orgulho.

Uma lista imensa de satisfações.

Dá pra imaginar o peso dessa experiência na minha vida. Entrei na Globo com 20 anos recém completados, saio às vésperas de fazer 64.

No trabalho, dobrei minhas melhores expectativas. Em muitos casos, literalmente.

Fui correspondente em Londres por duas vezes.

Visitei Ártico e Antártida outras duas, cada.

Viajei por dezenas de países.

Fiz reportagens em todas as ilhas oceânicas brasileiras e em muitos dos seus parques nacionais.

Perdi a conta das missões complexas que ajudei a destrinchar.

Citando de memória…

A libertação de Nelson Mandela em 1990, na África do Sul.

No interior da Inglaterra, a primeira entrevista de Ayrton Senna como piloto da Fórmula 1. Dezessete anos depois, em Interlagos, a sua última participação numa matéria de TV.

Cobri todas as visitas de Papas ao Brasil e mais algumas fora do país.

Trabalhei em 8 copas e 4 olimpíadas.

Entrevistei Shimon Perez, Kofi Annan, Paul Krugman, Tim Berners-Lee. Tim Burton, Ney Matogrosso, Maria Rita, Cássia Eller, Cora Coralina, Gilberto Gil. Zubin Mehta, Maurice Bèjart, Placido Domingo. Gravei com Margareth Thatcher, Mikhail Gorbachev, Fidel Castro, François Mitterrand, Helmut Khol. Até de João Paulo II consegui arrancar algumas reações, num tempo em que Papa não falava com a imprensa.

Acompanhei o fim da ditadura militar, a luta pelas Diretas Já, o calvário de Tancredo, a volta da Democracia. As eleições e posses de José Sarney, Itamar Franco, Fernando Collor de Melo, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva, Dilma Roussef.

Fora do Brasil, Pepe Mujica e Hugo Chaves.

Fiz documentários com Luiz Gonzaga e Mário Juruna.

Tive o privilégio de realizar milhares de matérias de destaque para todos os telejornais da Globo.

Até o fim.

Escrevo esta despedida em Stanley, onde vim fazer ( de novo, a minha segunda ) matéria nas Ilhas Falklands/Malvinas. Um verdadeiro presente de despedida do Fantástico.

Sou grato à TV Globo por todas essas oportunidades de aprender e explorar a linguagem da TV. Tive a sorte de embarcar na então Central Globo de Jornalismo quando um grupo de brilhantes veteranos tarimbados da imprensa escrita começava a mudar o telejornalismo brasileiro. As conquistas desse período estão por trás da qualidade exibida até hoje.

Ajudei a formatar o “novo” Globo Repórter, quando o programa passou para a jurisdição do Jornalismo.

Criei programa para a nascente Globo News, participei do desenvolvimento do formato inovador inaugurado pelo Globo Mar.

Fiz a primeira entrada ao vivo da Antártida na TV brasileira!

As primeiras participações via internet para o JN no Paquistão, no pós-11 de Setembro.

A Rede Globo sempre me tratou com grande correção. O melhor exemplo foram os 13 meses em que a empresa me permitiu trabalhar em casa durante a pandemia.

Nesse último período, acredito ter correspondido à altura: segui colocando matérias no Fantástico, produzindo reportagens nacionais e internacionais em ritmo ainda mais frequente que o normal, trabalhando pela internet, gravando sozinho ou com ajuda da minha esposa. Sem sair de casa, fiz matérias que foram das explosões no porto de Beirute à entrevista com a ganhadora do prêmio Nobel da Paz de 2021, da pandemia da Covid à guerra da Ucrânia . Os últimos anos no Fantástico também foram a minha segunda passagem pelo programa. Tenho muito orgulho de ter feito parte dessa equipe brilhante.

Nesta despedida da Globo, não posso deixar de agradecer às companheiras e companheiros que tanto me ensinaram, jornalistas com quem compartilhei dias e noites de trabalho, nas redações de todos os programas para os quais produzi.

Obrigado aos colegas que estiveram ao meu lado em expedições inacreditáveis, que ficaram incomunicáveis por semanas angustiantes no Atol das Rocas, que desafiaram o frio em viagens de trenó pelo Ártico, encararam a tropa de choque nas grandes greves do ABC, engasgaram com os gases lacrimogêneos de tantas passeatas e manifestações pela Democracia, se perderam ao meu lado nas savanas do Quênia.

Meu eterno reconhecimento aos jornalistas e técnicos com quem cruzei o Brasil numa cobertura pré-eleitoral que dificilmente vai se repetir, voando de jato executivo para os quatro cantos do país em visitas-surpresa a municípios de todos os estados brasileiros.

Minha gratidão aos geniais profissionais que embarcaram comigo em inúmeras travessias pelo Globo Mar, mareando em jangadas, iates ou navios militares para contar as histórias que acontecem além da arrebentação.

Meu muito obrigado, também, a todos os especialistas de outras áreas, que viabilizaram todos esses trabalhos: editores de imagens, técnicos, motoristas, motoqueiros, pessoal administrativo. Televisão é trabalho de equipe, e tive a sorte de participar de algumas das melhores.

Foi um privilégio ter sido repórter, na linha de frente da profissão, durante o riquíssimo período criativo dessas quatro décadas.

Pude contar grandes, belas e importantes histórias ao lado de gente competentíssima.

Ainda há muitas por contar. As novas tecnologias multiplicaram as telas. E acredito ainda ter muito a oferecer como jornalista, ofício que me dá enorme orgulho. Parafraseando um velho slogan, a gente se vê por aí.

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