Alok e o grupo Urban TheoryReprodução / Instagram
Publicado 28/06/2025 05:00
Rio - Reconhecido como um dos maiores DJs do mundo, Alok vive hoje uma crise que vai além da fama e dos palcos lotados. Depois de uma apresentação histórica no Coachella, um dos festivais mais prestigiados, o artista de 33 anos transformou a inquietação com os rumos da tecnologia em manifesto: defender a permanência da arte nas mãos humanas.
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Em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, ele expõe uma angústia de não se tornar irrelevante em um mundo onde até a criatividade corre o risco de ser automatizada. "A gente é condicionado a pensar que o sucesso é definido por bens materiais, popularidade... No momento que tinha tudo isso, senti um vazio existencial enorme, não tinha mais sentido a vida e fui em busca de um", revela o artista, em um momento de vulnerabilidade.

Essa virada interna impulsionou Alok a repensar não apenas a carreira, mas o papel que deseja desempenhar como artista. "Entendi que só faz sentido ter essa popularidade se tiver fazendo coisas que importam. É preciso entender que o sucesso é subjetivo. Tudo que faço hoje tem um propósito e uma mensagem", explica.

Entre as principais inquietações do DJ está o avanço da inteligência artificial. Embora não se posicione contra a tecnologia em si, ele faz um alerta: "Não sou contra a IA, mas contra o modo como ela está sendo desenvolvida — sem segurança, sem regulação, sem debate público", frisa. 

Com olhos atentos às mudanças no cenário criativo, ele observa que a arte está se tornando um dos campos mais ameaçados. "A maior dificuldade, hoje, é convencer as pessoas de que fazer arte com alma humana ainda é importante. Em pouquíssimo tempo, criar vai ser um ato de resistência", projeta.

Essa percepção o levou a criar o lema que norteia sua nova fase: "Keep Art Human" — mantenha a arte humana. Para ele, em tempos de imagens geradas por máquina e músicas compostas por algoritmos, proteger a essência da criação se tornou prioridade.

"Precisamos estar conectados neste momento de transformação e entender que, sim, a tecnologia nos beneficia de muitas formas, mas também de que os humanos não podem ser substituídos, que há coisas que precisam de alma humana. Em um mundo cada vez mais automatizado, a criatividade ainda pertence às mãos, corações e almas humanas", diz. "A gente usa muito inteligência artificial. Há um ano todo mundo estava animado para usar, superou as nossas expectativas, as pessoas não sabem mais diferenciar o que é real", acrescenta. 

Inovar, para ele, não é obrigação, mas missão. "Sinto essa responsabilidade, não é pressão, mas gosto de buscar sempre inovação. Toda vez que estou inovando, trago questões importantes, como preservar a nossa cultura, nossa arte e nossa humanidade".

Legado, filhos e o futuro

Pai de dois filhos pequenos, Ravi, de 5 anos, e Raika, de 4, frutos do casamento com Romana Novais, Alok enxerga nas próximas gerações o ponto de virada. "Entendemos que a IA pode ser prejudicial, mas do que adianta se às novas gerações não se importam com isso? Falamos sobre qual mundo estamos deixando para nossos filhos, mas precisamos também perguntar: quais filhos estamos deixando para o nosso mundo?". 

Segundo ele, a educação emocional, a valorização da cultura e o senso de responsabilidade coletiva são pilares fundamentais. "Entender que a tecnologia pode ser ferramenta, mas não substituição. Que a conexão humana tem um valor que máquina nenhuma replica".

Essa reflexão motivou o DJ a fundar projetos sociais e ambientais, como o Instituto Alok e o Floresta Áurea — voltado ao reflorestamento de áreas degradadas em diferentes regiões do Brasil. "Sempre que você planta uma árvore, você coloca esperança no futuro."

Turnê ÁUREA: show como manifestação cultural

Toda essa filosofia se materializa no espetáculo "ÁUREA", que Alok traz neste sábado (28) à Arena Mercado Livre Pacaembu, em São Paulo. A apresentação, já aclamada no festival americano Coachella, vai além do entretenimento: é um manifesto visual, sonoro e espiritual pela valorização da cultura humana.

Com 600 drones, 4 mil placas de LED, 50 dançarinos e performances sincronizadas com coreografias do grupo Urban Theory, o show será transmitido pelo Multishow e Globoplay  e reforça a capacidade humana de criar experiências memoráveis — mesmo em uma era em que o artificial muitas vezes parece indistinguível do real.

"Teve gente que achou que os dançarinos eram computação gráfica. Meu filho ficou impressionado quando levei ele para o ensaio e falei que era possível porque eles treinam muito. Hoje em dia, a gente parte da premissa de que o ser humano não é capaz de fazer as coisas — e eu provo que a gente faz coisas mais legais", diz Alok.

Segundo o artista, esse tipo de desconfiança escancara o espírito do tempo. "A maior dificuldade é convencer as pessoas de que fazer arte através da alma humana também é importante. Em pouquíssimo tempo, a arte vai ser um ato de resistência."

A apresentação também marca uma nova parceria com Gilberto Gil, convidado especial da turnê e colaborador em um EP de releituras da MPB que será lançado em julho. "Ter o Gil como participação especial da Áurea Tour é uma honra imensa. Ele representa a força e a profundidade da nossa cultura. Essa parceria — tanto no palco quanto no estúdio — reforça a mensagem que queremos transmitir: a arte que conecta e que transforma", ressalta.

Outro destaque do espetáculo é o bloco Futuro Ancestral, com a participação de artistas indígenas que representam a conexão entre cultura originária, música pop e tecnologia. "Gravamos 115 músicas tradicionais. A preservação da floresta é a preservação da espécie humana como um todo", afirma.

Para além do palco, o projeto Floresta Áurea prevê o reflorestamento de áreas nativas em cada cidade por onde passa a turnê, sempre respeitando o bioma local — em São Paulo, será a Mata Atlântica. Já foram plantadas mais de 300 mil mudas com uso de drones para acessar regiões remotas. "Em Brasília será o cerrado. Uma área que reflorestamos no Acre após uma queimada hoje é monitorada com satélites para evitar novos incêndios", relata.

Apesar de frequentemente ser associado a causas indígenas e amazônicas, Alok faz questão de esclarecer seu papel. "Eu não me vejo como porta-voz, de forma alguma, porque eles já têm a voz. Eu me vejo como uma pessoa que potencializa as vozes deles como uma plataforma."
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