Publicado 05/08/2025 05:00
Rio - Em 2025, Nany People chegou aos 60 anos com energia de sobra, celebrando também cinco décadas de uma carreira marcada por irreverência e quebra de barreiras. Ícone da comédia e referência na luta por representatividade, a artista compartilha histórias de vida e episódios que ajudaram a moldar sua trajetória, muitos deles inéditos para o público, na biografia "Ser Mulher Não é Para Qualquer Um – A Saga Continua".
Publicidade"Sempre vai ter causos que não podem ser publicados, né? A gente publica o que dá para publicar, e desde que não gere nomes, quando cita nomes, você macula a situação. Então, você tem que ter muito cuidado em contar os fatos, sem ficar expondo os personagens, os autores das falcatruas, da situação. Mas sempre tem aquela situação que não pode publicar", diz.
O evento de lançamento, que aconteceu em junho em São Paulo, contou com uma exposição inédita. Entre figurinos marcantes e objetos pessoais, Nany revela o item mais simbólico. "Tem um vestido que eu usei para cantar para a Ivete Sangalo na Hebe, com o peito todo de pedra e a saia toda de pluma. Fiz uma paródia da música 'Festa', mas era uma festa de drag. Tem também um sapato preto lindo do Fernando Pires de quando eu fui fazer uma entrevista com a Hebe. Tem um sapato de strass em forma de bola que foi para a Copa do Mundo", lista.
A artista já enfrentou recusas e portas fechadas, mas escolheu não se vitimizar. Na obra, ela relata a maneira em que lidou com os momentos injustos da carreira. "A gente vai fazer as coisas na vida, não por garantia de certeza, você vai fazendo as coisas e reagindo aos contratempos com a intuição, com a necessidade, com a vontade...Eu nunca parei para pensar: 'estou sendo injustiçada, estou sendo olhada'", conta, mencionando que as negativas foram o ponto de partida de sua vida.
"O não sempre foi a primeira coisa que apareceu, a partir disso a minha proposta foi fazer o sim acontecer. Então, todas as vezes que um não aconteceu, pra mim já era normal, o pressuposto. No livro, eu falo uma coisa engraçada: ‘Eu desafio o mundo desde que eu saí da barriga da minha mãe’. Então, como é que alguém vai querer me dizer agora, nessa altura do campeonato, que nessa idade não fica bem fazer isso, que não é de bom tom fazer aquilo?", indaga.
A atriz estreou um novo espetáculo, que promete humor e emoção, baseado na biografia dela para públicos de todas as regiões do país. Além do projeto, ela segue viajando com outras cinco apresentações solos. "Eu descobri há muito tempo, que se tivesse uma companhia de repertório, eu teria muito mais funcionabilidade profissional, técnica e financeira. Portanto, veio daí a ideia de começar a fazer um solo a cada ano. Agora, estrear um novo solo é muito bom! As pessoas podem esperar uma peça divertida, uma peça interativa, uma peça que eu faço uma autoanálise da minha vida. Que seja, além de uma excelente companhia para o público, uma grande terapia!".
Nascida em Machado e criada em Poços de Caldas, Nany saiu do interior de Minas Gerais com o desejo de viver da arte - algo que, segundo ela, não era visto como profissão em sua região. "No interior do Brasil, infelizmente, não se assiste teatro, não se vê o teatro como profissão. Sempre procurei responder com trabalho. Muitas vezes eu não pude fazer alguma coisa, não fui convidada ou aprovada para alguma coisa, o mundo girou e eu encontrei a mesma pessoa depois lá na frente, eu estou num trabalho muito melhor, numa posição muito melhor. Eu não contabilizo o débito. Eu sempre contabilizei crédito. E assim foi, e assim eu procuro fazer", explica.
Entre os momentos mais marcantes revelados na nova biografia está a conquista da adequação de nome. O processo teve impacto profundo na vida dela, e não apenas nos documentos. "A pessoa ser chamada pelo nome que ela se apresenta ao mundo, pela forma como ela se sente, é uma bênção. É uma questão de cidadania. É você perder aquele constrangimento ao se levantar para uma consulta quando alguém anuncia o seu nome de batismo. Você levantava causando aquele estranhamento. Agora isso acabou. Foi uma bênção para mim. Me emocionei de um jeito, é como se eu tivesse literalmente nascido de novo".
Nany acredita que a vida ganha novos contornos a partir dos 50 anos. Aos 60, com uma trajetória cheia de marcos e superações, ela reflete sobre o que já encontrou equilíbrio e o que ainda deseja transformar nessa caminhada. "Acho que o espírito está muito bem, eu estou muito bem com o meu físico e muito bem com agenda do que eu tenho feito. Agora, o que precisa mudar? Aprender a fazer exercícios, coisa que eu não consigo fazer de jeito nenhum. E ser mais perseverante em ter paciência com as pessoas. Eu não fico mais arrastando grandes causas, sabe? Eu quero resolver a coisa logo. Não gosto de perder tempo, de carregar cruz, gente, situação ou relações pesadas. Sou muito resolutiva, estou na fase das resoluções", afirma.
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