Publicado 05/10/2025 05:00
Rio - Em comemoração às seis décadas de carreira, Zezé Motta estrela o primeiro monólogo "Vou Fazer de Mim Um Mundo" no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Centro, que encerra a temporada carioca neste domingo (5). O espetáculo é uma adaptação do best-seller "Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola" da escritora norte-americana Maya Angelou (1928-2014).
PublicidadeEstrear o primeiro solo da carreira aos 81 anos foi um desafio para Zezé Motta, que levou dois anos para aceitar o convite. "É uma responsabilidade muito grande. A história da Maya é intensa e dura, ela foi uma mulher que sofreu abusos na infância, tinha problemas com aceitação de quem ela era, é uma história difícil, mexeu muito comigo e fiquei com muitas dúvidas se iria dar conta de fazer ou não", admite.
Em cidades como Brasília e Belo Horizonte, os ingressos esgotaram rapidamente. "No final o público ama, me agradece, sai chorando... É que as histórias das mulheres, principalmente das mulheres negras, seja ela da Europa, da América, sem exceção, são parecidas umas com as outras, então todo mundo se sente um pouco naquele lugar."
A história apresenta um tocante retrato da comunidade negra dos Estados Unidos durante a segregação dos anos 1930 e 1940. "O que mais me tocou é a perseverança dela, a dor que ela passou, e ainda assim ter se levantado e persistido", conta a atriz ao falar sobre o impacto da obra.
Para Zezé, o título do monólogo reflete a própria história, marcada por luta e perseverança, assim como Maya Angelou fez ao longo de sua vida. "Eu fiz de mim um mundo, né? Quando eu olho a minha trajetória, o que eu conquistei, chegar até aqui...Faz total sentido".
A pluralidade artística de Maya Angelou encontrou eco na trajetória da artista, que reflete sobre as semelhanças que unem as experiências de mulheres negras ao redor do mundo. "Todas sofremos abusos, preconceitos, é uma barra pesada mesmo. Eu sempre digo que quando as coisas começaram a dar certo para mim, quando estourei no mundo fazendo o filme 'Xica da Silva' (1976), eu percebi que tinha alguma coisa errada, eu não tinha um discurso articulado, eu não conhecia a nossa história", recorda.
Foi através do curso de cultura negra da ativista e filósofa Lélia Gonzalez (1935-1994) que a atriz despertou para necessidade de usar sua visibilidade como ferramenta de transformação. "Acho que a Maya fez a mesma coisa. Eu por exemplo, comecei a cobrar dos autores, dos diretores, o porquê dessa quase invisibilidade do artista negro e deu certo. Você olha a televisão hoje e vê quanta gente negra em cena. Isso foi uma luta que começou lá atrás."
Em "Vou Fazer de Mim um Mundo", Zezé Motta transita com naturalidade entre as facetas de atriz e cantora. A trilha sonora do espetáculo mistura o blues norte-americano com clássicos da música brasileira de Luiz Melodia, Milton Nascimento, Dorival Caymmi e Seu Jorge.
"A música te traz liberdade, você circula no palco, fecha os olhos, se entrega para ela, sente o barulho e o som dos instrumentos, vive aquela melodia...Como a peça é pesada, fala de assuntos delicados, a gente colocou algumas canções nessa adaptação, então no palco, tenho dois músicos, o Pedro Leal David e a Mila Moura, que me acompanham nas canções. A ideia foi realmente trazer o meu repertório", explica.
Legado
Umas das fundadoras do Movimento Negro Unificado, Zezé Motta carrega no corpo e na voz uma trajetória entrelaçada com as lutas por igualdade e representatividade. Ao longo das décadas, viu o debate sobre a presença de artistas negros nas artes ganhar força, mas percebe o quanto ainda é preciso avançar.
"Toda vez que me convidam para um evento com esse tema, eu sempre reflito e questiono: 'até quando, sabe?' Mas não podemos desistir", afirma.
O trabalho como diretora é conhecido nos bastidores, apesar de pouco divulgado. Zezé Motta já esteve à frente de espetáculos de nomes como Jamelão, Leci Brandão e Ana Carolina. Com mais de 100 personagens interpretados ao longo de 60 anos de carreira, a atriz ainda guarda sonhos que movimentam sua arte. "Como atriz, talvez uma vilã. Como cantora, gravar algumas músicas que sempre cantei, mas nunca registrei. E juntando essas duas faces, gostaria de dirigir mais, shows intimistas", revela.
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