Publicado 21/03/2026 14:23 | Atualizado 21/03/2026 14:26
Rio - O ator e dramaturgo Juca de Oliveira, que morreu neste sábado (21), aos 91 anos, viveu exílio político na Bolívia durante a ditadura militar após sofrer perseguição por sua atuação no Teatro de Arena e por seu envolvimento com movimentos de esquerda.
PublicidadeNome marcante do teatro brasileiro, ele integrou o Arena, um dos principais polos de resistência cultural nos anos 1960. Ligado ao Partido Comunista Brasileiro e atuante no movimento sindical, passou a ser alvo do regime após o endurecimento da repressão.
Em entrevista ao projeto "Memória Globo", o ator relembrou o impacto da censura sobre o grupo, responsável por montagens como "Eles Não Usam Black-Tie". "Não foi por acaso que o Teatro de Arena foi brutalmente atingido pela ditadura militar. O teatro foi fechado, nós fomos perseguidos. Uma tragédia", afirmou.
A saída do Brasil ocorreu ao lado de Gianfrancesco Guarnieri. A viagem até a Bolívia incluiu trechos de carro e trem, até a chegada a Santa Cruz de La Sierra, onde os artistas deram aulas de teatro por dois meses. "Fiquei entusiasmadíssimo, porque Flávio Rangel, Boal e Guarnieri, homens tão importantes, estavam sendo procurados, e eu, que não era absolutamente ninguém, também. Por um lado, fiquei em pânico, mas por outro meu ego ficou insuflado. Paulo José falava assim para mim: 'Você não está sendo procurado por talento, é por política. Não fica alegrinho, não'. Aí baixei um pouco a bola".
Após cerca de seis meses fora do país, já em La Paz e com planos de seguir para a Itália, decidiu retornar ao Brasil após a prisão do pai de Guarnieri. "Essa notícia foi terrível, porque nos pegou de surpresa, mas arrasou completamente o Guarnieri... Ele disse: 'Eu vou voltar para o Brasil, não consigo ficar aqui. Preciso saber do meu pai'.. E eu fui com o Guarnieri, eu nunca vou abandonar meu amigo querido", disse, em entrevista ao apresentador Jô Soares.
De volta ao país, encontrou os teatros fechados e iniciou carreira na televisão, com trabalhos na TV Tupi, onde estreou na novela "Quando o Amor é Mais Forte", em 1964. "Chegamos até São Paulo, voltamos. Os teatros estavam fechados, o Arena estava fechado, as pessoas continuavam com medo, e aí começou a partir daí. Naquele momento, nós continuamos participando na famosa luta política para nós readquirirmos a democracia", contou.
Em 1968, assumiu a presidência do Sindicato dos Atores de São Paulo e liderou avanços como a regulamentação da profissão, limites de jornada e a exigência de liberação de textos com 72 horas de antecedência.
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