Lorrayne Mavromatis e sua filha em vídeo postado no feed do InstagramReprodução / Instagram
Publicado 24/04/2026 13:03 | Atualizado 24/04/2026 13:34
Rio - Lorrayne Mavromatis, brasileira que trabalhou na Beast Industries, empresa fundada por Jimmy Donaldson, o MrBeast, publicou um vídeo em que relata assédio, discriminação de gênero e retaliação durante o período em que atuou em nível de diretoria executiva na empresa do youtuber. As declarações vieram a público no mesmo contexto em que ela entrou com uma ação judicial nos Estados Unidos contra a companhia.
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No depoimento, Lorrayne diz que decidiu falar publicamente depois de se tornar mãe. "Eu nunca pensei que teria que fazer um vídeo como este, mas me tornar mãe e ter uma filha mudou completamente sobre o que estou disposta a me calar", afirmou. Em seguida, ela se apresentou como uma profissional brasileira dedicada há cerca de dez anos ao estudo e à criação de estratégias para redes sociais, trajetória que, segundo ela, a levou ao trabalho com MrBeast.
De acordo com o relato, ela foi entrevistada pelo então CEO James Warren e pelo próprio Jimmy Donaldson, sendo contratada no mesmo dia. Lorrayne afirma que passou a liderar equipes, supervisionar criação e operações em várias plataformas e acompanhar de perto o funcionamento interno da empresa. Segundo ela, porém, o ambiente se revelou tóxico pouco tempo depois.
No vídeo, a brasileira discorre: "Fui gritada, xingada, fui até chamada de burra na frente de toda a minha equipe depois de dar uma ideia de negócio, apenas para um homem dar exatamente a mesma ideia um minuto depois e ser elogiado". 
Ela também afirma que era submetida a situações diferentes das vividas pelos colegas homens, como buscar cerveja para Donaldson antes das gravações. Na ação judicial, obtida pela revista "People", ela ainda alega que chegou a ser retirada de reuniões masculinas e que foi tratada de forma desigual por causa do sexo.
Outro ponto central do depoimento envolve o ex-CEO James Warren, primo de MrBeast e que deixou o cargo no fim de 2023, segundo a imprensa americana. Lorrayne afirma que foi obrigada a participar de reuniões individuais na casa dele, sozinha, e que ouviu comentários sobre sua aparência.
Na ação, ela sustenta que esse comportamento fez parte de um padrão de assédio sexual e de constrangimento no ambiente de trabalho. "Fui obrigada a participar de reuniões individuais na casa do CEO, sozinha, em um quarto no andar de cima iluminado apenas por um abajur lateral. O CEO também me disse que Jimmy, o MrBeast, fica muito sem graça perto de mulheres atraentes, e cito: 'Lorrayne, digamos que quando você está por perto e ele precisa ir ao banheiro, ele não está realmente usando o banheiro'". 
A repercussão dessa parte do relato também apareceu no X, antigo Twitter. "Isso acontece muito mais do que vocês imaginam com mulheres no trabalho ainda mais lá fora", escreveu uma internauta. Outra afirmou: "Até que seja provado o contrário, eu sempre vou estar do lado da mulher". Também houve reações mais cautelosas, como a de um usuário que comentou: "Depois da Amber Heard prefiro não dar nenhuma opinião até porque não conheço essa influenciadora e não sigo o MrBeast".
A ex-funcionária também relaciona a deterioração do ambiente ao que descreve como uma cultura dominada por homens. No vídeo, cita um manual interno chamado "How to Succeed In MrBeast Production", em português "Como ter Sucesso dentro da MrBeastProduction", com orientações que, segundo ela, naturalizavam comportamentos infantis e sexistas, tal como 'se um talento quiser desenhar um pênis na parede, deixe-o'.
A Beast Industries contesta essa versão e afirma que possuía manual de funcionário formal, com prova de recebimento assinada por Lorrayne em março de 2025. O advogado dela respondeu à "People" dizendo que a defesa está disposta a analisar qualquer documento apresentado pela empresa.
O relato ainda destaca o período da gravidez e do pós-parto. Lorrayne afirma que tinha licença-maternidade aprovada, mas que, na prática, continuou envolvida em reuniões até o trabalho de parto, voltou ao trabalho uma semana após dar à luz e, com menos de um mês de pós-parto, precisou viajar para uma gravação internacional do canal principal, deixando o bebê recém-nascido. Depois disso, segundo ela, foi demitida duas semanas após retornar do que deveria ser sua licença. Na ação, sustenta que ouviu da empresa que era "de um calibre alto demais" para o cargo e que a empresa precisa de "alguém inferior".
A Beast Industries, por sua vez, afirma que houve uma reestruturação organizacional durante a licença médica dela e que o cargo foi eliminado junto com outras funções, ocupadas tanto por homens, quanto por mulheres.
Em resposta à revista "People", um porta-voz da empresa negou as acusações e classificou a ação como cheia de "deturpações deliberadas" e "afirmações categoricamente falsas". A companhia também disse ter provas, incluindo mensagens, documentos internos e testemunhos, para contestar a versão apresentada pela ex-funcionária. Entre os comentários sobre o caso, um usuário escreveu: "Até que seja provado, não aconteceu nada, segue o jogo".
O caso surge em meio a questionamentos anteriores sobre a cultura corporativa da Beast Industries. Em 2024, a empresa já havia demitido funcionários após uma investigação sobre episódios de assédio e má conduta, e informou ter feito mudanças em liderança, treinamento e políticas internas. Agora, com a nova ação, a atenção pública passa a se concentrar nas denúncias feitas por Lorrayne sobre o período em que ocupou cargo de liderança na empresa de MrBeast.
Ao final do relato, Lorrayne clarifica suas intenções ao vir a público. "Então, hoje, estou tomando medidas legais, não apenas pelo que aconteceu no final, mas por tudo o que aconteceu ao longo do caminho e pela cultura tóxica que tornou tudo isso possível. Eles tentaram me silenciar o suficiente, mas basta. E deixarei o processo legal falar por si agora. Obrigada."
A influenciadora começou a postar conteúdos no youtube em 2016. Porém, ficou mais conhecida na internet em 2017, quando mostrou nas redes a destruição causada pelo furacão Irma na ilha de Saint Martin, no Caribe, onde morava na época. A cobertura pessoal da tragédia acabou repercutindo no Brasil e ajudou a ampliar o alcance dela em suas redes sociais.
*Reportagem da estagiária Carolina Irigoyen, sob supervisão de Isabelle Rosa
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