Publicado 17/06/2026 05:00
Rio - Aos 28 anos, Gabi Melim apresenta o projeto audiovisual "Escapismo", em que revisita ritmos como baião, afoxé, ijexá, reggae, samba e samba de gafieira, depois de uma trajetória na música que começou ainda na adolescência, passou pelo sucesso nacional da banda Melim e encontrou, na carreira solo, um espaço para aprofundar as próprias referências. No novo trabalho, a cantora reúne artistas como Mestrinho, Luísa Sonza, Maria Gadú e mais.
PublicidadeO nome do trabalho parte de uma ideia que reflete o funcionamento atual do mundo. "Acho que a gente vive a era do escapismo. E sinto que, ao mesmo tempo que as fugas às vezes são necessárias, senão a vida fica inconcebível, a gente não pode escapar da gente", analisa Gabi.
Na vida dela, esse assunto aparece ligado ao excesso de trabalho. Durante a trajetória da Melim, banda formada por Gabi e os irmãos, Diogo e Rodrigo, que pausou as atividades em 2023, a artista diz que o trio chegou a fazer uma média de 25 shows por mês, além de compromissos com televisão, publicidade, ensaios fotográficos, composição e gravação de álbuns. "Era uma rotina muito louca, que eu não conseguia olhar tanto para as minhas necessidades básicas, às vezes, de descansar, me alimentar", relata.
A cantora conta que, em 2020, quase perdeu a voz por excesso de trabalho. Também passou por depressão e distúrbio alimentar. Ao lembrar desse período, ela relaciona a uma cobrança de produtividade que, muitas vezes, força o descanso a ser secundário. "O capitalismo faz a gente acreditar que a gente precisa trabalhar excessivamente, mas é muito importante a gente olhar para dentro, se respeitar como pessoa e botar nossa saúde em primeiro lugar."
Essa percepção atravessa "Escapismo". Para Gabi, se esquivar pode ser uma forma de respirar. "A gente não pode deixar com que relações ou trocas, em momentos que a gente está vulnerável, façam a gente colocar toda a nossa expectativa no outro a ponto de escapar da gente, de querer tanto a aceitação do outro a ponto de se perder", acredita.
A relação entre corpo, trabalho e criação aparece na faixa "Roda Gigante", que abre o audiovisual. A música nasceu depois de um episódio de paralisia facial que Gabi teve há pouco mais de um ano, causada por estresse e ansiedade. "Tinha acabado de lançar (o álbum) "Gabriela", as pessoas estavam se identificando, várias mensagens lindas, aí (a paralisia) veio com a turnê. Foi tudo muito rápido".
A cantora conta que, em 2020, quase perdeu a voz por excesso de trabalho. Também passou por depressão e distúrbio alimentar. Ao lembrar desse período, ela relaciona a uma cobrança de produtividade que, muitas vezes, força o descanso a ser secundário. "O capitalismo faz a gente acreditar que a gente precisa trabalhar excessivamente, mas é muito importante a gente olhar para dentro, se respeitar como pessoa e botar nossa saúde em primeiro lugar."
Essa percepção atravessa "Escapismo". Para Gabi, se esquivar pode ser uma forma de respirar. "A gente não pode deixar com que relações ou trocas, em momentos que a gente está vulnerável, façam a gente colocar toda a nossa expectativa no outro a ponto de escapar da gente, de querer tanto a aceitação do outro a ponto de se perder", acredita.
A relação entre corpo, trabalho e criação aparece na faixa "Roda Gigante", que abre o audiovisual. A música nasceu depois de um episódio de paralisia facial que Gabi teve há pouco mais de um ano, causada por estresse e ansiedade. "Tinha acabado de lançar (o álbum) "Gabriela", as pessoas estavam se identificando, várias mensagens lindas, aí (a paralisia) veio com a turnê. Foi tudo muito rápido".
Os shows, na época, precisaram ser adiados. Gabi diz que aquele momento fez com que ela olhasse para a própria saúde antes de seguir com os compromissos profissionais. Em "Roda Gigante", ela levou essa experiência para a letra ao falar sobre medo, futuro e ansiedade. "O medo nunca está no presente. O medo está em coisas que podem, ou não, acontecer. Então, é um convite para a gente revisitar o presente."
Mesmo quando fala de esperança, a artista diz que tem cuidado com discursos que cobram bem-estar o tempo inteiro, especialmente por entender que as pessoas vivem realidades diferentes. "Tenho muito cuidado com a positividade tóxica, essa coisa de você ter que estar sempre feliz. De fato não acredito nisso."
Mesmo quando fala de esperança, a artista diz que tem cuidado com discursos que cobram bem-estar o tempo inteiro, especialmente por entender que as pessoas vivem realidades diferentes. "Tenho muito cuidado com a positividade tóxica, essa coisa de você ter que estar sempre feliz. De fato não acredito nisso."
Já as canções "Onça Selvagem" e "Tu Me Olha" passam pelo samba de gafieira. Gabi também aborda o universo feminino ligado à autoestima, ao desejo, à força e à liberdade no novo álbum. "É muito bom poder estar bem, me sentir livre, potente, mulher e também poder falar muito sobre isso", acredita. "Eu não quero fazer música de coitada. Eu quero fazer uma música que empodere", complementa.
Participações especiais e referências
"Escapismo", composição solo de Gabi, que também dá nome ao álbum, ganhou participação de Luísa Sonza. "Ela conseguiu trazer ainda mais a verdade para a composição. Ela interpretando junto conseguiu trazer ainda mais essa força da mulher potente, que enfrenta, não tem medo". O audiovisual, ainda, reúne participações de Mestrinho, Maria Gadú, Duda Beat e Ana Gabriela.
"Escapismo", composição solo de Gabi, que também dá nome ao álbum, ganhou participação de Luísa Sonza. "Ela conseguiu trazer ainda mais a verdade para a composição. Ela interpretando junto conseguiu trazer ainda mais essa força da mulher potente, que enfrenta, não tem medo". O audiovisual, ainda, reúne participações de Mestrinho, Maria Gadú, Duda Beat e Ana Gabriela.
As referências brasileiras estão presentes neste trabalho. Gabi cita Djavan como uma presença constante em sua escuta e brinca que é 'Djafã'. Além dele, a cantora menciona Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Alcione, Clara Nunes, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e Gilberto Gil como nomes importantes em sua formação musical. Ao mesmo tempo, diz que não se fecha em um repertório específico. "Sou muito aberta musicalmente. Eu ouço funk, ouço tudo. Gosto de música e todo movimento artístico que é verdadeiro".
Essa escuta ampla aparece em "Sou Brasileiro", faixa que encerra o álbum. Na canção, Gabi fala do país a partir de imagens ligadas à comida, ao trabalho e à sobrevivência. A música também passa por uma leitura da experiência latino-americana. "A gente trabalha muito. Se você olhar no mundo inteiro, tem latino trabalhando, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos."
Para a cantora, nada no projeto aparece por acaso. "Tudo tem uma mensagem, tem uma conexão com alguma coisa. Cada um vai interpretar de um jeito, mas tudo tem uma mensagem."
'Eu abraço a minha história'
Apesar da carreira solo abrir um novo espaço, Gabi não fala da Melim como algo a ser deixado para trás. Pelo contrário. No audiovisual, ela revisita composições da banda e entende esse movimento como parte da própria identidade artística. "Eu abraço a minha história, eu amo a Melim, tinha um trabalho lindo."
Para a cantora, a nova fase não precisa negar o passado para existir. "Escapismo" reúne a menina que começou no samba, a artista que viveu o estouro da Melim, a compositora de "Gabriela" e a mulher que precisou adiar uma turnê para cuidar da saúde. Agora, o desafio parece ser seguir criando sem repetir o mesmo ritmo a qualquer custo. "Uma carreira não é construída só de acertos. Ela é feita de acertos, de falhas, de recalcular a rota".
Apesar da carreira solo abrir um novo espaço, Gabi não fala da Melim como algo a ser deixado para trás. Pelo contrário. No audiovisual, ela revisita composições da banda e entende esse movimento como parte da própria identidade artística. "Eu abraço a minha história, eu amo a Melim, tinha um trabalho lindo."
Para a cantora, a nova fase não precisa negar o passado para existir. "Escapismo" reúne a menina que começou no samba, a artista que viveu o estouro da Melim, a compositora de "Gabriela" e a mulher que precisou adiar uma turnê para cuidar da saúde. Agora, o desafio parece ser seguir criando sem repetir o mesmo ritmo a qualquer custo. "Uma carreira não é construída só de acertos. Ela é feita de acertos, de falhas, de recalcular a rota".
*Reportagem da estagiária Carolina Irigoyen, sob supervisão de Isabelle Rosa
Leia mais
