Maria Galant como Germina em ’Virtuosas’Divulgação/Olhar Filmes
Publicado 07/10/2026 05:00
Para Maria Galant, existe um antes e depois de "Virtuosas" em sua trajetória artística. No longa dirigido por Cíntia Domit Bittar, ela interpreta Germina, personagem que atravessa um universo marcado pelo conservadorismo e pela submissão feminina. O trabalho também representou um desafio particular para atriz, que vinha de quase dois anos sem conseguir aprovação em testes e diz ter encontrado na personagem uma nova confiança para arriscar em cena.
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“Eu acho que é um trabalho que me deixou muito mais segura com o meu trabalho de atriz, me deixou muito mais confiante com o que eu faço, muito mais confiante das minhas decisões em cena e eu acho que isso foi uma coisa que veio da Germina para mim, assim, de arriscar mais”, afirma.
Segundo Maria, a experiência lhe deu ferramentas que ainda não sabia acessar e a levou a lugares mais extremos dentro da atuação. “Eu realmente acho que meu trabalho como atriz é uma coisa antes do 'Virtuosas' e depois (...). Então, acho que foi muito bom pra mim também, pra minha carreira”, conta.
Em cartaz nos cinemas desde 24 de setembro, "Virtuosas" acompanha mulheres que participam de um retiro voltado à chamada “feminilidade cristã”. A produção combina humor ácido e terror para abordar questões sociais e comportamentais contemporâneas. Antes de chegar ao circuito comercial, o filme passou por festivais e venceu o Goes to Cannes Award no Marché du Film de 2025, além do Prêmio Netflix na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
 

Mergulho em um 'pântano'

 
Maria descreve a preparação para o filme como um mergulho em um pântano. “Eu acho que tem, quando eu falo mergulhar num pântano, é porque eu acho que tem essa coisa de a gente vai entrando num ambiente cada vez mais denso, e a personagem não consegue mais sair”, explica. Para a atriz, a metáfora também representa o processo de uma personagem que tenta entender o que está acontecendo enquanto vê que fica cada vez mais difícil encontrar uma saída. 
A preparação ainda envolveu a convivência com o elenco e uma pesquisa sobre o universo abordado pelo longa. Maria conta que entrou em contato com as tradwives brasileiras, com o contexto ultraconservador relacionado à religião, comportamento e política e também com casos reais de crimes ocorridos em retiros espirituais.  

Quando o terror encontra a realidade


A pesquisa para Germina também aproximou Maria de questões políticas que ela conhecia apenas parcialmente. A atriz conta que já tinha familiaridade com o termo tradwife por acompanhar a internet, mas não havia associado inicialmente o fenômeno às dimensões religiosa e política. Durante a preparação, passou a enxergar uma discussão que, para ela, ultrapassa a decisão individual de uma mulher deixar o trabalho para cuidar dos filhos.
“Tem muito mais a ver com uma política de comportamento, com uma dinâmica de limitar do que com uma decisão individual. Então, assim, eu sou filha de uma mulher que parou de trabalhar quando eu nasci, minha mãe é do lar até hoje, e eu não acho que isso diminua ela enquanto mulher ou enquanto ser humano capaz de qualquer coisa, mas eu acho que o problema é quando se trata isso como a única opção”, afirma. 
Maria também afirma que já tinha mais contato com as discussões políticas relacionadas ao movimento antivacina e diz ter se assustado com a atualidade do filme. A primeira versão da história, segundo ela, foi escrita em 2020, seis anos antes da chegada do longa aos cinemas.
Para a atriz, essa distância entre a criação e o lançamento acabou reforçando uma das características do filme. “É um filme que está super atual e que está trazendo muitas discussões”, afirma. Ela observa que a produção combina situações que provocam riso inicialmente com uma sensação de peso à medida que a história avança.
“A gente está dando risada de algumas coisas que parecem meio absurdas, mas daqui a pouco essas coisas absurdas vão entrar na nossa vida e não vai ter mais volta”, diz. Para ela, a mistura de humor e terror funciona como uma forma de refletir sobre o momento social brasileiro.
A própria Germina também ganhou novas nuances para Maria ao longo do processo. Inicialmente, a atriz enxergava a personagem como a “mocinha” da história. Depois das filmagens, percebeu que ela também estava disposta a colocar seus próprios objetivos acima das necessidades de outras pessoas. Essa percepção fez Maria questionar a tendência de subestimar quem pensa de maneira diferente.
“Eu acho que a Germina não é uma mocinha tão mocinha”, resume. A atriz vê uma espécie de espelho distorcido entre sua personagem e Virgínia, interpretada por Bruna Linzmeyer: embora tenham objetivos diferentes, ambas estão dispostas a fazer o necessário para chegar onde querem.
Assista ao trailer:
 

Um filme feito com pouco, mas que foi longe

 
A trajetória de "Virtuosas" também chama a atenção de Maria pelo caminho percorrido até chegar ao público. A produção foi viabilizada por recursos do Prêmio Catarinense de Cinema, da Lei Paulo Gustavo e do Fundo Setorial do Audiovisual.
Para a atriz, porém, é preciso ter cuidado ao transformar o orçamento reduzido em uma espécie de prova de que o cinema pode ser feito sem recursos. Segundo ela, a equipe conseguiu realizar o projeto porque contou com algum financiamento público e porque muitas pessoas envolvidas já trabalhavam juntas e fizeram concessões para que o filme acontecesse.
“Eu acho que é muito complicado quando a gente fica pensando: ‘olha, com tão pouco dinheiro, a gente chegou tão longe’, porque eu acho que isso acaba reforçando do lado contrário, que é: não precisa de dinheiro para fazer filme”, afirma. Para Maria, o reconhecimento alcançado pela produção também evidencia quantos outros projetos podem não sair do papel ou chegar ao público por falta de recursos.
Já em cartaz, o filme vem provocando reações diferentes entre os espectadores, segundo a atriz. Maria conta que recebeu mensagens antes mesmo da chegada aos cinemas, a partir do trailer, e que a produção divide opiniões. Para ela, porém, mesmo quem não gosta do longa pode ser levado a refletir sobre os assuntos apresentados.
“Eu acho que é um filme que incomoda, que faz pensar, e eu acho que o cinema também é feito para a gente se incomodar e para a gente pensar sobre assuntos que estão fora da nossa bolha”, afirma.
Para Maria, essa talvez seja uma das principais contribuições de "Virtuosas": provocar menos certezas e mais disposição para observar quem pensa de maneira diferente. “Eu gostaria muito que o que ficasse do filme para o público, o que ficasse da Germina para o público, é essa noção de que a gente não pode subestimar as pessoas que pensam diferente da gente”, diz.
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