João Vithor revisita texto do tio-avô Domingos Oliveira Divulgação / Felipe Roque
Publicado 27/08/2026 05:00
Rio - Um texto escrito pelo dramaturgo Domingos Oliveira (1936–2019) foi a ponte para que seu sobrinho-neto, João Vithor Oliveira, conectasse gerações e investigasse a própria trajetória artística. Deste achado afetivo nasceu o monólogo "Carta a um Jovem Ator", em cartaz no Teatro Municipal Domingos Oliveira, até domingo (30). Escrita e dirigida por Tiago Herz, a peça traz reflexões e dilemas pessoais que atravessam a vida de ambos os artistas.
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"Decidimos levá-la ao palco, em um formato de homenagem, ao perceber a importância dos pontos tratados e a grande identificação entre o que a carta propõe e os assuntos que nos atravessavam. Logo depois que ele faleceu percebi que existia uma distância entre nossas realidades e experiências, que me interessou descobrir no palco, escrever sobre e buscar me aproximar naquele espaço, usando a carta dele e as nossas vivências como inspiração para fazer o que o legado dele também deixa como ensinamento: Respeitar os desejos", relata.
Na leitura de João Vithor, as questões propostas por Domingos Oliveira ultrapassam o universo artístico. "Mais do que sobre arte, a carta trata sobre a vida e claro que essas duas coisas estão naturalmente muito relacionadas quando se escolhe viver disso. Se é que de fato foi uma escolha. Acho que o preço que se paga é uma vida de dores e prazeres, altos e baixos, dias bons e dias ruins. Como há de ser em toda profissão".
Para o artista, a relação com o legado do tio-avô não significa abandonar a própria identidade. "Eu busco ser honesto, quero estar no palco e contar uma história que aborda temas importantes pra mim e, inerentes a condição humana. Acho que assim já toco um pouco nesses dois pontos mesmo sem pensar tanto neles pra realizar", diz. 
Entre os aprendizados que João Vithor extraiu do texto estão reflexões que ultrapassam a profissão e dizem respeito à vida. "Um bom conselho é aquele que a gente não tem que seguir, diria o Domingos. Apesar disso, respeitar os desejos, sem dúvida é um deles. Amar a vida, incondicionalmente, buscar ter liberdade, viver cada dia como se fosse o último. Não necessariamente a profissão em si mas a vida", destaca. 
Formas de Atuação 
João Vithor Oliveira também integra o elenco de "Brasil 70: A Saga do Tri", série da Netflix que revisita a conquista brasileira na Copa do Mundo de 1970. Para o ator, que tem no futebol uma paixão desde a infância, participar da produção teve um significado especial.
"Pode aproximar o público dessa história, com uma equipe brilhante, estrutura enorme e profissionais tão qualificados, foi um grande presente. Com memórias e identidades de um tempo específico e vitorioso no futebol, apesar das dificuldades da época, em que tínhamos uma dura realidade política com uma ditadura militar instaurada. Muito bom poder conhecer melhor esse tempo e fazer parte dessa criação de memória do nosso país mundo a fora numa plataforma de tanto alcance", afirma. 
Da experiência em uma grande produção audiovisual, o ator leva a percepção sobre as diferenças entre atuar para a câmera e estar no palco. "É sempre desafiador usar o nosso corpo em prol de personagens e de histórias mas sem dúvida no teatro, é um outro tipo de desafio. Devido as dificuldades de acesso a investimento e patrocínio no nosso país, não podemos, na maioria das vezes, nos dar ao luxo de executar apenas uma função. Existe uma necessidade de se desenvolver e desdobrar em outras áreas para que aconteça". 
Em "Carta a um Jovem Ator", João Vithor experimenta funções que vão além do palco. "Quando se trata de um projeto autoral e autoficcional, nesse caso, tenho que me desdobrar e ser além de ator, produtor, dramaturgo, eventualmente técnico de luz, divulgar... enfim, fazer a coisa acontecer. Traz mais responsabilidade e nesse caso se torna também mais desafiador", analisa. 
A diferença entre teatro e audiovisual não está apenas no processo de criação, mas também na relação estabelecida com o público. "Claro que chegaremos às diferenças no ato da coisa, em que não se pode refazer, em que se tem uma resposta direta pelos olhos dos espectadores, pelas risadas ou choro do público diante da presença e o calor de uma plateia te olhando ávida, em suma a presença humana numa troca muito direta em que recebemos a resposta imediata, o que é muito diferente de outros veículos", opina.
Serviço

"Carta a um Jovem Ator"
Sexta-feira e sábado, às 20h; Domingo, às 19h
Local: Teatro Municipal Domingos de Oliveira
Endereço: Rua Padre Leonel Franca, 240 - Gávea
Ingresso: a partir de R$ 30 (meia-entrada)
Classificação: 12 anos 
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