Publicado 12/04/2022 09:48
Rio - Lázaro Ramos falou sobre as declarações do ex-secretário de Cultura Mário Frias e do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, aliados do presidente Jair Bolsonaro, contra ele e sua esposa, Taís Araújo, durante o programa 'Roda Viva', da TV Cultura, na noite desta segunda-feira.
Tudo começou quando a atriz desabafou durante a entrevista da pré-estreia do filme 'Medida Provisória' e disse "que os últimos quatro anos (de governo Bolsonaro) não foram só difíceis, foram infernais, um pesadelo, em que a gente andou pra trás a galope". Em seguida, nas redes sociais, Frias afirmou que “os dois artistas não fazem nada pelo país” e Sérgio declarou que Taís é “mimizenta”.
O ator, então, rebateu os comentários: "Isso é campanha política que estão fazendo em cima de nós, que temos relevância, temos público, tirando foco dos problemas do governo. É uma cortina de fumaça. Isso não tem nada a ver com a gente. É pras pessoas não debaterem sobre o preço da gasolina, dos alimentos. É para as pessoas não debaterem a crueldade e a falta de valor à vida com a que a pandemia foi tratada. É pra isso. Isso é uma tentativa que eles fazem há muito tempo. Mas cada um luta com as armas que tem. Eu acredito muito nas armas que a gente está lutando, que é ser ético, correto, respeitoso, trabalhador. É isso que a gente tem a oferecer pro mundo. Quem vai atrás deles, só lamento".
No programa, o ator ainda falou sobre falta de oportunidade dos jovens negros, se emocionou ao relembrar sua infância, mencionou um boicote ao filme Medida Provisória, que estreia nesta quinta-feira, e mais. Confira abaixo!
Boicote ao 'Medida Provisória'
Lázaro explicou o motivo do atraso do lançamento do filme 'Medida Provisória' e revelou que um membro do governo puxou um boicote ao longa. "O filme está pronto desde 2019, em 2020 nós estrearíamos e mesmo assim não conseguimos a assinatura da Ancine [Agência Nacional do Cinema] pra trocar a distribuidora [que distribuiria o longa no Brasil e no exterior]. O que se sabe é que teve um membro do governo puxou boicote ao filme, sem ter assistido, dizendo que o filme foi feito para falar mal do tal Messias (o presidente Jair Messias Bolsonaro). Depois disso, a assinatura não vinha, depois de solicitações recorrentes. A assinatura chegou depois de a gente adiar a estreia do filme por quatro vezes, a gente depois não tinha mais desculpas pra dar porquê o filme não estava estreando. A gente teve que relatar a imprensa o que estava acontecendo. A imprensa começou a falar sobre censura através da burocracia. A assinatura chegou somente após que isso foi noticiado", disse ele, que refletiu: "Talvez, pelo medo de acontecer o que aconteceu com Marighella, de Wagner, que quando a notícia da censura chegou, acabou divulgando mais o filme e foi muito bem-sucedido nos cinemas."
Representatividade na televisão
Durante o bate-papo com os jornalistas, ator opinou sobre a representatividade do negro na televisão. "Ainda tem muito pouco, Principalmente, pelo potencial que a gente tem, as qualidades e os talentos que a gente tem. Gosto muito de falar desse ponto de vista, porque as vezes parece que é uma demanda social e não uma demanda de mercado. O público quer isso e mostra isso”, disse ele, que citou um momento marcante: "Um dos maiores exemplos de alegria que eu tive na minha carreira foi o Mr.Brau, na Globo. Durante quatro anos, a gente contou essa história com extremo sucesso. As pessoas se sentiam representadas por aquela obra. Vivi isso em Lado a Lado, como Foguinho, em novela. Foi uma trajetória linda", disse.
Em seguida, ele falou sobre sua saída da TV Globo para fazer parte da Amazon Prime. "A minha troca de trabalho se deu ao fato que eu virei outra coisa. Eu trabalho há tanto tempo com isso, sempre quis ser ator. Só que desde 2015/ 2016 comecei a perceber que tem outro ponto de vista sobre a maneira de contar histórias com negros que não estava sendo explorada. E que, muitas vezes, isso era visto como uma cobrança e não uma potência criativa".
Infância e poucas oportunidades
Lázaro Ramos chorou ao relembrar seu passado e ao citar as poucas oportunidades que os jovens negros têm no país. Ao ser questionado sobre o que falaria para o Lázaro do passado, ator disse que pediria para ele acreditar em seus sonhos. “Parece uma coisa simples, mas não é. Durante muito tempo da minha vida, eu não sabia que podia sonhar. Não sabia que tinha uma perspectiva para além da ilha [sua terra natal]. Eu comecei a estudar teatro e nunca tinha visto uma peça”, afirmou ele, que quando começou a atuar não tinha nenhuma referência e lamentou o fato dos jovens atualmente também não terem. "Muitos jovens não sabem que podem sonhar, que podem ter perspectivas para além daquilo que vivenciam em suas casas ou em seus bairros. Aí a gente vai perdendo os jovens para… várias coisas que não são para juventude. Então, o estímulo a utopia, não chore não pois vou chorar também, é a meta”, disse, aos prantos.
Tapa de Will Smith durante o Oscar
Na atração, Lázaro também comentou o tapa que Will Smith deu em Chris Rock durante a última cerimônia do Oscar, que aconteceu no final de março. “Tudo vai ser revisto, não tem jeito. A gente ainda vai falar muito sobre o assunto, quando se dá uma punição dessa para o Will Smith, as pessoas vão buscar o histórico de pessoas que têm atitudes reprováveis e que não tiveram punição. O debate vai acontecer, isso é inevitável. O debate vai rolar por muito tempo. Eu fiquei muito triste, me abalou mesmo. A gente repreende toda violência. Me deu um sentimento de tristeza, eu não queria ver aquela cena na televisão”, ressaltou.
Leia mais
