Mais do que uma campanha, um convite para escutar e apoiar quem precisaReprodução
Publicado 04/09/2025 09:39
Setembro chegou trazendo um convite à reflexão e, mais do que isso, à escuta e ao cuidado. O mês é marcado pelo Setembro Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre a prevenção do suicídio, um tema delicado, mas extremamente necessário de ser abordado com sensibilidade e acolhimento.

Para comentar sobre a importância desse mês para a nossa saúde mental, tive uma conversa muito útil e esclarecedora com o doutor Ervin Cotrik, psiquiatra formado pela UFRJ, que trouxe sua experiência profissional e olhar humano para nos ajudar a compreender melhor os sinais de alerta e, principalmente, como podemos apoiar quem precisa.

Porque falar de saúde mental não é apenas falar de dor, é também abrir caminhos para esperança, afeto e vida.
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Confira a entrevista abaixo:
O Setembro Amarelo abriu espaço para falar de saúde mental, mas ainda existe muito preconceito. Por que o estigma em torno da depressão e do suicídio persiste?
O estigma persiste porque é alimentado por desinformação, mitos culturais, medo do julgamento e pela dificuldade em diferenciar uma emoção normal de uma doença séria. A campanha Setembro Amarelo é um passo vital, mas a desconstrução desse preconceito exige um esforço contínuo (o ano todos) de toda a sociedade, pautado em educação, empatia e na disseminação de informações corretas e baseadas em evidências científicas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que falar sobre o suicídio de forma responsável e acolhedora não aumenta o risco, pelo contrário, é uma das ferramentas mais importantes de prevenção.
Quais são os principais sinais de alerta que podem indicar que alguém está em sofrimento e precisa de ajuda profissional?
Identificar sinais de alerta de sofrimento é essencial para prevenir o suicídio e encaminhar a pessoa a tratamento adequado. Eles não devem ser vistos isoladamente, mas como um conjunto de mudanças no comportamento e na comunicação. A ABP e o CFM elaboraram um material detalhado que os divide em três categorias: comunicação verbal, não verbal e sinais contextuais.

Comunicação verbal: frases de desesperança e desamparo, como “Eu não aguento mais”, “Eu queria sumir”, “Eu preferia estar morto”, “Os outros seriam mais felizes sem mim”, “Eu sou um peso para os outros” e “Não vejo saída para os meus problemas”. Essas falas são pedidos de ajuda e desmentem o mito de que “quem fala não faz”.

Comunicação não verbal (comportamentos): isolamento social; mudanças de humor (irritabilidade, apatia, ansiedade, pessimismo); queda no desempenho escolar ou profissional; comportamentos de risco (uso de álcool e drogas, direção perigosa, sexo sem proteção); atitudes de despedida (doar objetos, escrever cartas, organizar documentos); busca por meios letais (pesquisar métodos, comprar armas, acumular medicamentos).

Sinais contextuais: perdas recentes (morte, separação, desemprego); crises financeiras ou sociais (problemas econômicos, justiça, bullying); doenças crônicas ou incapacitantes; histórico de trauma (abuso físico, sexual ou psicológico).

A presença desses sinais não significa que a pessoa tentará suicídio, mas mostra que está em sofrimento e precisa de ajuda. A melhor forma de apoiar é conversar com empatia, sem julgamentos, e estimular a busca por um psicólogo ou psiquiatra
Muita gente ainda confunde tristeza com depressão. Como diferenciar os dois estados emocionais?
A tristeza é uma emoção, enquanto a depressão é uma doença.

Geralmente, a tristeza é uma reação a um evento específico e identificável: a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, a morte de um ente querido, uma decepção. É uma resposta proporcional ao acontecimento.

A depressão pode se instalar sem uma causa aparente. A pessoa pode ter uma vida aparentemente estável e, ainda assim, desenvolver a doença. Fatores genéticos, neuroquímicos e psicossociais complexos estão envolvidos. Quando há um gatilho, a reação emocional é desproporcionalmente intensa e duradoura.

Além disso, A tristeza pode afetar temporariamente a rotina, mas a pessoa geralmente consegue manter suas responsabilidades básicas, como trabalhar, estudar e cuidar de si mesma. Já na depressão, os sintomas causam um prejuízo significativo no funcionamento social, profissional e pessoal.
O suicídio costuma ser um tema evitado em conversas familiares ou sociais. Qual é a importância de falar sobre ele de forma clara e responsável?
O silêncio em torno do suicídio é um dos nossos maiores inimigos na luta pela prevenção. Durante muito tempo, acreditou-se no mito de que “falar sobre suicídio aumenta o risco” ou “dá ideia” para quem está em sofrimento. Hoje, graças a inúmeros estudos e às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), sabemos que o oposto é verdadeiro: falar sobre o suicídio de forma clara, responsável e acolhedora é uma das mais poderosas ferramentas de prevenção.

Como falar de forma responsável?

A OMS e a ABP recomendam algumas diretrizes importantes ao abordar o tema:

•Não romantize ou glamourize o suicídio;
•Não simplifique as causas. O suicídio é complexo e multifatorial;
•Não descreva métodos ou locais. Isso pode ser um gatilho para pessoas vulneráveis;
•Foque na prevenção, na esperança e na possibilidade de tratamento;
•Divulgue informações sobre onde buscar ajuda.
Quais fatores de risco mais influenciam no desenvolvimento de ideação suicida?
O suicídio resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais, não de um único motivo.

Fatores de risco principais:

Transtornos mentais – presentes em mais de 90% dos casos, segundo a ABP, muitas vezes sem diagnóstico ou tratamento adequado:

Depressão: sensação de desesperança e dor emocional profunda;

Transtorno bipolar: risco elevado nas fases depressivas ou mistas, pela impulsividade e intensidade do sofrimento;

Transtornos por uso de substâncias: álcool e drogas aumentam impulsividade, agravam sintomas e comprometem o julgamento;

Esquizofrenia: risco associado a alucinações, delírios, depressão e desesperança.

Tentativa prévia de suicídio – é o preditor isolado mais forte: quem já tentou tem 5 a 6 vezes mais chance de repetir. Deve ser tratada com máxima seriedade por familiares e profissionais.

Eventos de vida estressantes e traumas – atuam como gatilhos, especialmente em pessoas vulneráveis:

Histórico de abuso (físico, sexual ou emocional);

Perdas significativas (luto, separação, desemprego);

Crises financeiras e sociais (endividamento, falência, problemas com a justiça);

Bullying e cyberbullying, de forte impacto entre jovens.
Acesso a Meios Letais:

A disponibilidade de meios para cometer o suicídio (como armas de fogo, pesticidas ou acesso a medicamentos perigosos) aumenta a probabilidade de uma tentativa ser fatal. A restrição do acesso a esses meios é uma das estratégias de prevenção mais eficazes em nível populacional.

É crucial entender que a presença de um ou mais desses fatores não determina que uma pessoa irá desenvolver ideação suicida, mas aumenta sua vulnerabilidade. A prevenção eficaz passa por reconhecer esses riscos e oferecer uma rede de apoio e tratamento que possa mitigar seu impacto.
De que forma as redes sociais impactam a saúde mental — podem ser tanto gatilho quanto ferramenta de apoio?
As redes sociais são uma faca de dois gumes para a saúde mental. Estudos mostram forte relação entre uso excessivo e problemas emocionais. O “Panorama da Saúde Mental 2024” revelou que 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos estão ligados ao uso intensivo dessas plataformas.

Como podem ser gatilho:

Comparação social e pressão estética: ao exibir apenas versões ideais da vida, as redes geram comparação, baixa autoestima e insatisfação, além da pressão por corpo, sucesso e vida social perfeitos.

Dependência de validação externa: curtidas e comentários funcionam como recompensas, tornando 40% dos jovens dependentes de aprovação digital, o que fragiliza a autoconfiança.

Cyberbullying: atinge 27% dos jovens e pode causar isolamento, depressão, ansiedade e até ideação suicida, sendo mais invasivo que o bullying tradicional.

FOMO e sono prejudicado: o medo de ficar “por fora” leva ao uso compulsivo, inclusive à noite, piorando o sono e aumentando o risco de depressão e ansiedade.

Como podem ajudar:

Acesso à informação: campanhas como o Setembro Amarelo disseminam conteúdos de qualidade, desmistificam transtornos e divulgam canais de ajuda.

Comunidades e redes de apoio: grupos online fortalecem o sentimento de pertencimento, sobretudo para minorias e pessoas isoladas.

Redução do estigma: relatos de figuras públicas e usuários normalizam o sofrimento e encorajam quem enfrenta dificuldades.

Acesso a profissionais: psicólogos, psiquiatras e instituições utilizam as redes para orientar e facilitar o contato.

A palavra-chave é equilíbrio.
 
Muitas pessoas acreditam que procurar um psiquiatra significa “fraqueza” ou “loucura”. Como desconstruir essa visão?
A psiquiatria é uma especialidade médica como qualquer outra. O cérebro, o órgão mais complexo do corpo, também pode adoecer. Transtornos mentais têm bases biológicas, ligadas a desequilíbrios químicos, genética e alterações cerebrais — não são invenção nem falta de vontade.

Assim como quem tem diabetes procura um endocrinologista e quem fratura uma perna busca um ortopedista, quem sofre de transtornos mentais deve procurar um psiquiatra. Isso não é fraqueza, mas um ato de coragem e responsabilidade com a própria saúde.
Que estratégias simples do dia a dia podem ajudar a manter a saúde mental em equilíbrio?
Manter a saúde mental em equilíbrio é um processo contínuo que exige hábitos saudáveis. Embora não substituam tratamento profissional, essas práticas são fundamentais para prevenção e bem-estar. OPAS e OMS reforçam o estilo de vida saudável como pilar da saúde mental.

Estratégias do dia a dia:

Atividade física: libera endorfinas, melhora humor, sono e autoestima; caminhadas de 30 min, 3 a 5 vezes por semana já ajudam.

Alimentação equilibrada: frutas, vegetais, grãos integrais e proteínas magras favorecem energia e humor.

Sono de qualidade: dormir 7 a 9h por noite regula humor e memória; evite telas antes de deitar.

Relaxamento: meditação, mindfulness, respiração profunda e ioga reduzem ansiedade.

Lazer: hobbies como ler, ouvir música ou cozinhar aumentam prazer e reduzem estresse.

Convivência social: grupos, cursos ou voluntariado fortalecem conexões e pertencimento.

Rotina e metas: manter horários regulares traz estrutura; dividir grandes tarefas em etapas aumenta autoconfiança.

Uso de telas e notícias: pratique “detox digital” e limite redes sociais; selecione fontes confiáveis e evite excesso de notícias negativa.
Quais são os recursos mais importantes que a sociedade deveria oferecer para prevenir o suicídio de forma efetiva?
A prevenção do suicídio é uma responsabilidade coletiva e exige estratégias integradas em vários níveis da sociedade. Segundo a OMS, OPAS e Ministério da Saúde, os pilares principais são:

1. Acesso universal à saúde mental: mais de 90% dos casos estão ligados a transtornos mentais, tornando essencial garantir diagnóstico e tratamento acessíveis. Isso inclui integrar saúde mental na atenção primária, fortalecer os CAPS (com funcionamento 24h e equipes multidisciplinares) e reduzir filas e custos no SUS e planos de saúde.

2. Restrição de meios letais: dificultar o acesso a métodos comuns salva vidas, pois muitas tentativas são impulsivas. Medidas eficazes incluem controle rigoroso de armas, instalação de barreiras em locais de risco e restrição à venda de pesticidas e medicamentos em grandes quantidades.

3. Educação e conscientização: combater o estigma e informar corretamente a população. Isso envolve programas escolares sobre saúde mental, resiliência e inteligência emocional, além de campanhas de mídia responsáveis, como o Setembro Amarelo, sempre divulgando canais de ajuda.

4. Apoio a populações vulneráveis: direcionar ações a grupos de maior risco, como jovens (prevenção do bullying e apoio nas escolas), idosos (combate à solidão e acompanhamento de doenças), população LGBTQIA+ (ambientes seguros e inclusivos), indígenas (cuidados culturalmente adequados) e pessoas que já tentaram suicídio (acompanhamento intensivo após a alta hospitalar).
Se uma pessoa próxima demonstra sinais de que pensa em desistir da vida, qual deve ser o primeiro passo de quem está ao lado para ajudá-la?
Quando uma pessoa próxima demonstra sinais de que pensa em desistir da vida, o momento é de extrema delicadeza e urgência. O primeiro passo de quem está ao lado é o mais importante e pode ser decisivo para salvar uma vida. Esse passo pode ser resumido em uma palavra: acolhimento. E esse acolhimento se desdobra em três ações imediatas: conversar, ouvir e não deixar a pessoa sozinha.

1. Converse: Aborde o Assunto de Forma Direta e Empática

Não tenha medo de perguntar. O mito de que falar sobre suicídio pode induzir o ato já foi derrubado por especialistas do mundo todo. A abordagem deve ser calma, sem pânico e, acima de tudo, sem julgamento. Você pode começar a conversa expressando sua preocupação de forma genuína:

•“Eu tenho me preocupado com você ultimamente.”
•“Percebi que você não parece bem. Quer conversar sobre o que está acontecendo?”

Se a pessoa der aberturas, seja mais direto. Perguntar não machuca, o silêncio sim.

•“Você tem pensado em se machucar?”
•“Com toda essa dor que você está sentindo, você tem pensado em suicídio?”

Usar a palavra “suicídio” mostra que você não tem medo do assunto e que está disposto a ouvir sobre a profundidade da dor da pessoa. Isso pode ser um alívio imenso para quem está em sofrimento.

2. Ouça: Ofereça uma Escuta Ativa e Sem Julgamentos

Este é o momento de ouvir mais e falar menos. O objetivo não é dar conselhos, apresentar soluções fáceis ou dizer frases como “pense positivo” ou “isso vai passar”. Essas frases, embora bem-intencionadas, podem invalidar o sentimento da pessoa e fazê-la se sentir ainda mais incompreendida.

•Valide os sentimentos: Diga coisas como “Imagino que isso deva ser muito difícil” ou “Eu sinto muito que você esteja passando por isso”.
•Não julgue ou critique: Evite frases como “Você tem tudo para ser feliz” ou “Isso é egoísmo”. Lembre-se: a pessoa não quer morrer, ela quer acabar com a dor insuportável que está sentindo.
•Demonstre empatia: Tente se colocar no lugar da pessoa e entender a perspectiva dela, mesmo que você não concorde com ela.
•Leve a sério: Toda ameaça ou ideação suicida deve ser levada a sério. Nunca ignore ou minimize o que a pessoa está dizendo.

3. Não Deixe a Pessoa Sozinha: Busque Ajuda Profissional Imediatamente

Depois de conversar e ouvir, a ação mais importante é garantir que a pessoa não fique sozinha e que receba ajuda profissional o mais rápido possível. Você não precisa e não deve carregar essa responsabilidade sozinho.

•Se o risco for imediato: Se a pessoa tem um plano, meios e intenção de cometer o suicídio em breve, a situação é uma emergência médica. Você deve:
Ligar para o SAMU (192) ou para os bombeiros (193).
Levar a pessoa a um serviço de emergência psiquiátrica ou a um pronto-socorro.
Remover do ambiente qualquer meio que possa ser usado para a tentativa (armas, medicamentos, etc.).
•Se o risco não for imediato: Se a pessoa tem ideação suicida, mas não um plano iminente, você deve ajudá-la a procurar ajuda profissional.
Ofereça-se para marcar uma consulta com um psicólogo ou psiquiatra.
Acompanhe a pessoa à consulta, se ela se sentir mais confortável.
Ajude-a a encontrar os serviços de saúde mental da sua cidade, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial).

O primeiro passo, portanto, é uma combinação de conexão humana e ação prática. É mostrar que você se importa, que está ali para ouvir sem julgamentos e que vai fazer de tudo para que a pessoa receba o cuidado profissional de que necessita. Sua presença e sua atitude podem ser a ponte entre a desesperança e o início de um caminho de recuperação.

Canais de Ajuda:

•CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): Procure o CAPS mais próximo da sua residência. O serviço é gratuito e oferecido pelo SUS.
•SAMU (192) e Bombeiros (193): Para emergências.
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