Publicado 04/03/2026 09:35
A gente fala tanto de TPM, cólica, vontade de comer doce… mas quase nunca comenta sobre uma coisa que também pode aparecer nessa fase: o tal do mau hálito. Pois é. E não, isso não tem a ver só com escovação mal feita ou falta de cuidado. Os hormônios também entram nessa conversa.
PublicidadeEmbora o mau hálito, ou halitose, seja geralmente associado à higiene bucal e à saúde dos dentes e gengivas, pesquisas recentes e comentários de especialistas mostram que fatores hormonais podem influenciar fortemente como o hálito se manifesta ao longo do ciclo reprodutivo feminino, incluindo fases como a tensão pré-menstrual (TPM), a menstruação e outras alterações hormonais.
Um estudo recente chamado Association Between Menstrual Cycle-Related Hormonal Changes and Self-Perceived Oral Health Symptoms avaliou 264 mulheres para entender melhor essa relação entre hormônios e sintomas na boca. E olha só: 41% das participantes relataram pelo menos um sintoma oral durante o ciclo. Os mais comuns foram boca seca (30,3%) e halitose (23,1%). Esses sintomas apareceram mais na fase pré-menstrual (24,6%) e diminuíram depois da menstruação (9,5%). Mesmo muitas percebendo essa influência hormonal, poucas procuraram um dentista. Ou seja, a gente sente, percebe, mas nem sempre liga os pontos.
Segundo Bruna Conde, cirurgiã-dentista e especialista em saúde bucal e halitose, há uma explicação direta para essa ligação entre hormônios e mau hálito:
“As alterações hormonais durante a tensão pré-menstrual e na menstruação podem diminuir a produção de saliva, um fator conhecido como hipossalivação. A saliva tem papel crítico na limpeza natural da boca: quando está reduzida, há maior acúmulo de placa bacteriana e da chamada saburra lingual, que libera gases com odor forte, principalmente compostos de enxofre. Por isso, a importância também do teste salivar para verificarmos a quantidade e qualidade".
Ou seja, não é “coisa da sua cabeça”. Quando a saliva diminui, a boca perde parte dessa limpeza natural e as bactérias que causam odor aproveitam a oportunidade. E ela explica que essa queda na salivação está muito ligada ao desequilíbrio do sistema nervoso central provocado pelas variações hormonais. Não é só o ciclo em si, é o corpo inteiro reagindo. Até quem tem uma higiene impecável pode perceber diferença no hálito nessa fase.
E tem mais. Os hormônios influenciam a boca de várias formas. Menos saliva significa mais chance de acúmulo de bactérias produtoras de odor. Se durante a TPM bate aquela vontade incontrolável de doce e carboidrato, isso também pode alimentar essas bactérias. Fora as flutuações hormonais que mexem com a resposta inflamatória e com a microbiota oral, abrindo espaço para alterações que geram cheiro desagradável.
Para ajudar nesses dias, Bruna reforça:
"Algumas medidas ajudam a reduzir o mau hálito durante o ciclo: manter-se bem hidratada para estimular a saliva, cuidar da higiene oral com atenção extra, observar a alimentação evitando picos de açúcar e carboidratos simples, e consultar regularmente um dentista para identificar causas bucais ou hormonais da halitose".
No fim das contas, o mau hálito pode ser mais uma das manifestações naturais do nosso corpo durante o ciclo. Não é falta de cuidado, não é desleixo. Muitas vezes, é só hormônio fazendo o que ele faz de melhor: bagunçar tudo um pouquinho. Entender isso muda completamente a forma como a gente lida com o problema, com mais consciência, menos culpa e muito mais autocuidado.
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