Publicado 20/10/2026 07:00
Olá, meninas!
PublicidadeO diagnóstico de uma deficiência na infância pode trazer muitas dúvidas, medos e inseguranças para uma família. Mas os avanços da ciência e da fisioterapia neurofuncional mostram que cada criança tem suas particularidades e que o diagnóstico, sozinho, não determina tudo o que ela poderá desenvolver ao longo da vida.
Com pesquisas sobre neuroplasticidade, novas tecnologias e estratégias de reabilitação, especialistas buscam ampliar a mobilidade, a independência e a participação de crianças e adolescentes nas atividades do dia a dia.
Para falar sobre esse universo, conversei com a Luanda André Collange, especialista em Fisioterapia Neurofuncional na Criança e no Adolescente, que atua no Centro de Neuroestimulação Pediátrica (@cenepe.reab).

Com experiência clínica e atuação em pesquisa, ela compartilha os desafios da profissão, os avanços da neuroestimulação e histórias marcantes de superação, além de destacar a importância da participação das famílias nesse processo. Uma conversa sobre ciência, acolhimento e, principalmente, sobre como criar oportunidades para que cada criança desenvolva seu potencial e conquiste mais autonomia.
Confira abaixo:
Você se tornou uma referência internacional na fisioterapia neurofuncional infantil. O que despertou, lá no início da sua trajetória, o desejo de trabalhar com crianças com deficiência e dedicar sua carreira à busca por mais autonomia para elas?
Eu costumo dizer que o meu olhar para a deficiência começou muito antes de eu me tornar fisioterapeuta. Ele começou dentro da minha própria casa. Eu sou filha de um homem cego.
Meu pai tem deficiência visual desde que me conheço como pessoa. E ele, por sua vez, é filho de uma mulher extraordinariamente forte, minha avó, que sempre teve a capacidade de enxergar muito além das barreiras que a sociedade impõe.
Eu cresci nesse ambiente. Em uma família que nunca entendeu a deficiência como uma razão para deixar de viver, de experimentar, de participar ou de ocupar os espaços que nos pertencem.
Tenho lembranças muito bonitas da minha infância. Nós sempre fomos uma família apaixonada por cultura. Ir ao cinema, ao teatro, viver essas experiências com meu pai e minha avó fazia parte da nossa essência. E eu ia ao cinema com um homem cego muito antes de existirem os recursos de acessibilidade que conhecemos hoje.
Para nós, aquilo era absolutamente natural. Não havia nada de extraordinário em estarmos juntos nesses lugares. Meu pai era meu pai. Nós éramos uma família vivendo a vida, compartilhando experiências, histórias e emoções.
Mas havia algo que eu percebia desde muito pequena: os olhares das outras pessoas.
Muitas vezes, as barreiras não estavam em nós, mas no olhar da sociedade. Na dificuldade que as pessoas tinham de compreender que alguém com deficiência pudesse simplesmente estar ali, vivendo, participando, pertencendo.
E isso me ensinou algo que carrego até hoje: muitas das limitações que atribuímos às pessoas com deficiência não estão necessariamente nelas, mas nas barreiras que construímos ao redor delas.
Eu não cresci aprendendo a sentir pena da deficiência. Cresci aprendendo a respeitar as diferenças, a reconhecer capacidades e a compreender que todos nós temos o direito de participar plenamente da vida.
Então, quando decidi ser fisioterapeuta, foi muito natural levar esse olhar para a minha profissão.
Eu não olhava para uma criança com deficiência pensando primeiro naquilo que ela não conseguia fazer. Eu queria compreender o que ela poderia aprender, desenvolver, experimentar e conquistar. E, principalmente, o que nós, como profissionais, poderíamos fazer para ampliar essas possibilidades.
Foi essa inquietação que me aproximou cada vez mais da fisioterapia neurofuncional infantil, da neurociência e da pesquisa.
Porque eu também aprendi que acreditar nas possibilidades não significa ignorar os desafios reais de uma condição neurológica. Significa reconhecer esses desafios e buscar, com conhecimento científico, estratégias para enfrentá-los.
Acredito que essa é uma das maiores contribuições da ciência: transformar perguntas em conhecimento, conhecimento em oportunidades e oportunidades em mudanças reais na vida das pessoas.
Hoje, quando estou diante de uma criança com deficiência, existe ali a fisioterapeuta, a pesquisadora, a profissional que busca evidências e novas tecnologias. Mas também existe aquela menina que cresceu indo ao cinema e ao teatro com seu pai cego e sua avó, sem imaginar que aquela experiência pudesse ser considerada extraordinária.
E talvez seja essa a essência do meu trabalho.
Eu não quero que uma criança precise provar que é capaz para ter o direito de participar do mundo. Quero que ela encontre um mundo que reconheça suas capacidades, respeite suas diferenças e ofereça oportunidades para que possa desenvolver todo o seu potencial.
No fundo, minha trajetória profissional é uma continuidade dos valores que aprendi com a minha avó: não aceitar que as barreiras impostas pela sociedade determinem até onde uma pessoa pode chegar.
E, se hoje dedico minha vida à ciência e à reabilitação infantil, é porque acredito que podemos fazer mais do que ajudar crianças a desenvolver movimentos.
Podemos ajudá-las a conquistar possibilidades. E podemos, também, trabalhar para transformar o mundo em um lugar onde essas possibilidades sejam reconhecidas.
Quando falamos em paralisia cerebral, muitas famílias acabam ouvindo que determinadas conquistas seriam impossíveis. Como o seu trabalho ajuda a ampliar essas possibilidades e a mostrar que o diagnóstico não precisa determinar até onde uma criança pode chegar?
Quando falamos em paralisia cerebral, muitas famílias acabam ouvindo que determinadas conquistas seriam impossíveis. Como o seu trabalho ajuda a ampliar essas possibilidades e a mostrar que o diagnóstico não precisa determinar até onde uma criança pode chegar?
Eu acredito que uma das coisas mais importantes que podemos fazer por uma criança com paralisia cerebral é não permitir que o diagnóstico seja confundido com uma sentença sobre o seu futuro.
Quando uma família recebe esse diagnóstico, muitas vezes ela chega até nós carregando medos, dúvidas e, em alguns casos, uma série de previsões sobre tudo aquilo que a criança supostamente não conseguirá fazer.
E eu sempre penso: precisamos ter muito cuidado com o peso das palavras, especialmente quando estamos falando sobre o futuro de uma criança.
A paralisia cerebral é uma condição neurológica que pode trazer desafios importantes para o desenvolvimento motor, mas cada criança é única. Existem diferentes níveis de comprometimento, diferentes capacidades e, principalmente, diferentes trajetórias de desenvolvimento.
E é justamente aí que o meu trabalho começa.
Na prática clínica, procuro compreender quem é aquela criança para além do diagnóstico. Quais são suas capacidades? Quais são seus desafios? O que ela deseja fazer? O que é importante para sua família? Quais oportunidades podemos criar para favorecer sua aprendizagem e sua participação no mundo?
E essa busca não acontece apenas dentro de uma sala de atendimento.
Ao longo da minha trajetória, percebi que, para ampliar possibilidades, era necessário também produzir conhecimento. Foi isso que me levou a aprofundar meus estudos em neurociência, neuroplasticidade, aprendizagem motora e tecnologias aplicadas à reabilitação.
A pesquisa nos permite investigar como o sistema nervoso aprende, como podemos favorecer a aquisição de novas habilidades e quais intervenções realmente oferecem benefícios para diferentes perfis de crianças.
Mas existe algo que considero fundamental: a ciência não pode ficar restrita aos laboratórios ou às publicações científicas. Ela precisa chegar até a criança e transformar sua vida.
É no atendimento clínico que esse conhecimento encontra uma história, um corpo, uma família, uma realidade e objetivos concretos.
E é por isso que o envolvimento da família é tão importante.
Eu não vejo os pais apenas como acompanhantes do tratamento. Eles são parceiros fundamentais nesse processo. São eles que conhecem a criança em sua essência, que compreendem seus interesses, suas dificuldades e suas pequenas conquistas do cotidiano.
Quando conseguimos construir essa parceria entre conhecimento científico, experiência clínica e participação familiar, criamos oportunidades de aprendizagem que vão muito além das sessões de fisioterapia.
Porque uma criança não aprende e se desenvolve apenas durante o atendimento. Ela aprende brincando, explorando o ambiente, convivendo com outras pessoas, participando das atividades da família e experimentando o mundo.
E cada conquista precisa fazer sentido nessa vida real.
Às vezes, o grande objetivo é conseguir caminhar. Outras vezes, é sentar com mais independência, alcançar um brinquedo, utilizar um recurso de mobilidade, participar de uma brincadeira ou conseguir realizar uma atividade cotidiana com menos ajuda.
Todas essas conquistas têm valor, porque autonomia não é apenas a capacidade de andar. É a possibilidade de participar, escolher, explorar e ter mais protagonismo na própria vida.
É claro que precisamos reconhecer os limites biológicos e respeitar as particularidades de cada condição. A ciência não nos autoriza a prometer resultados iguais para todas as crianças.
Mas ela também nos ensina que o desenvolvimento é dinâmico, que a aprendizagem é possível e que o ambiente, as experiências e as oportunidades oferecidas fazem diferença.
Por isso, eu não trabalho com promessas. Trabalho com conhecimento, objetivos, possibilidades e compromisso.
O diagnóstico é fundamental para compreendermos a condição da criança. Mas ele não conta, sozinho, toda a sua história e não deve ser utilizado para antecipadamente fechar as portas do seu futuro.
E talvez seja esse o maior sentido do meu trabalho: unir ciência, prática clínica e família para que cada criança tenha oportunidades reais de desenvolver suas capacidades e viver com o máximo de autonomia, participação e qualidade de vida possível.
Você já acompanhou histórias muito marcantes, como a do Gui, que esteve lá no Vem com a Gente, da Band Rio, e a de uma menina com paralisia cerebral que conseguiu andar. Pode contar um pouco dessas histórias e o que esses casos representam para você, como profissional e como mulher?
Você já acompanhou histórias muito marcantes, como a do Gui, que esteve lá no Vem com a Gente, da Band Rio, e a de uma menina com paralisia cerebral que conseguiu andar. Pode contar um pouco dessas histórias e o que esses casos representam para você, como profissional e como mulher?
O Gui é uma criança com quem tive um contato muito breve, mas sua história nos lembra quantas possibilidades existem quando olhamos para além de um diagnóstico.
Mas existe uma história que transformou profundamente a minha vida: a da Lívia.
Conheci a Lívia em 2009, ainda bebê. Lembro até hoje do nosso primeiro encontro, especialmente do olhar dela. Era um olhar tão profundo que eu costumava dizer que era possível enxergar o infinito através daqueles olhos.
Sua condição neurológica era complexa e havia muitas dúvidas sobre suas possibilidades de desenvolvimento. Foram anos de desafios, de estudo, de reabilitação e de uma parceria extraordinária com sua família, especialmente com sua mãe, Cris.
Foi buscando caminhos para a Lívia que aprofundei meus estudos sobre treinamento de marcha, que se tornou o tema do meu mestrado. Mais tarde, associamos ao treinamento uma técnica de estimulação cerebral não invasiva. E, no sexto dia desse novo protocolo, depois de anos de trabalho, a Lívia começou a caminhar de forma independente.
Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Mas aquela conquista não aconteceu em seis dias. Ela foi construída ao longo de anos, com ciência, dedicação, persistência e uma família que caminhou conosco.
A Lívia mudou os rumos da minha carreira, inspirou meu mestrado e meu doutorado. Mas ela não foi a única.
As crianças e suas famílias mudaram e continuam mudando a minha vida. São elas que direcionam meus passos, iluminam meus caminhos e dão sentido à minha busca pelo conhecimento. São minha motivação para continuar estudando, pesquisando e encontrando forças mesmo nos dias mais difíceis.
E essa transformação vai muito além da profissional que sou.
Com essas famílias, aprendo diariamente sobre a mãe que sou e que tento ser para o meu filho, Lucca. Sobre o amor, a parceria e a mulher que me sinto realizada em ser ao lado do meu marido, André. E sobre tantas outras dimensões da minha vida: filha, neta, irmã, tia, amiga, fisioterapeuta... Ou, como minha afilhada carinhosamente me chama, fisioteraTIA.
No fundo, todas essas mulheres vivem dentro de mim e são transformadas pelas histórias que tenho o privilégio de acompanhar.
Costumo dizer que dediquei minha vida a ajudar crianças a dar seus primeiros passos. Mas foram elas e suas famílias que me ensinaram a caminhar, que iluminaram minha estrada e que continuam mostrando a direção dos meus próprios passos.
Seu trabalho também envolve pesquisa, tecnologia e métodos de neuroestimulação. O que existe hoje de mais promissor para ajudar crianças e adolescentes com deficiência a desenvolverem mobilidade, independência e autonomia?
Seu trabalho também envolve pesquisa, tecnologia e métodos de neuroestimulação. O que existe hoje de mais promissor para ajudar crianças e adolescentes com deficiência a desenvolverem mobilidade, independência e autonomia?
Eu acredito que estamos vivendo um momento muito promissor na reabilitação infantil. Hoje, compreendemos cada vez melhor a capacidade que o cérebro tem de aprender, adaptar-se e reorganizar suas conexões. É o que chamamos de neuroplasticidade.
E grande parte da minha trajetória como pesquisadora tem sido dedicada justamente a investigar como podemos favorecer essa capacidade em crianças e adolescentes com alterações neurológicas.
Uma das áreas que mais me fascinam é a neuromodulação não invasiva, especialmente duas técnicas: a estimulação transcraniana por corrente contínua, conhecida como tDCS, e a estimulação magnética transcraniana repetitiva, chamada rTMS.
De maneira simples, a tDCS utiliza uma corrente elétrica de baixa intensidade, aplicada por meio de eletrodos posicionados sobre a cabeça, para modular a atividade cerebral. Já a rTMS utiliza pulsos magnéticos para estimular regiões e redes do cérebro envolvidas, por exemplo, no controle dos movimentos.
São tecnologias diferentes, mas que compartilham um objetivo importante: investigar como podemos favorecer a capacidade de adaptação e aprendizagem do sistema nervoso.
Essa área da ciência também me proporcionou uma das experiências mais marcantes da minha trajetória profissional. Fui convidada para realizar um fellowship no Spaulding Rehabilitation Hospital, Harvard Medical School, nos Estados Unidos.
E existe algo muito especial nessa história: a criança que participou daquele trabalho pioneiro foi justamente a Lívia, de quem falei anteriormente. Durante essa experiência, tive a oportunidade de contribuir para o avanço das pesquisas em neuromodulação infantil, sendo responsável pela publicação do primeiro relato de caso de uma criança submetida ao tratamento com tDCS.
Para mim, essa conquista tem um significado que vai muito além de uma publicação científica ou de uma experiência internacional. A Lívia, que tanto me ensinou e inspirou minha trajetória como pesquisadora, também passou a fazer parte de um capítulo importante da investigação científica sobre neuromodulação na reabilitação infantil.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da minha profissão: perceber que uma história que começa no encontro entre uma fisioterapeuta, uma criança e sua família pode atravessar fronteiras, contribuir para o avanço da ciência e abrir caminhos para tantas outras crianças.
Mas existe um princípio que sempre orientou minhas pesquisas: não basta estimular o cérebro. Precisamos associar essa estimulação a experiências reais de aprendizagem.
Por isso, investigamos a combinação dessas técnicas com intervenções como o treinamento de marcha, exercícios de equilíbrio e outras atividades motoras funcionais. É como se buscássemos criar condições para que o cérebro aproveite melhor as oportunidades de aprendizagem oferecidas durante a reabilitação.
Os resultados das pesquisas são encorajadores, mas ainda temos muito a compreender. Precisamos identificar quais crianças podem se beneficiar dessas intervenções, quais protocolos são mais eficazes e como garantir segurança e benefícios duradouros. Especialmente na população infantil, essas tecnologias exigem avaliação criteriosa, responsabilidade científica e protocolos adequados.
Também estamos acompanhando avanços importantes na robótica, na realidade virtual e nas tecnologias assistivas, que podem ampliar as oportunidades de movimento, exploração e participação das crianças nas atividades do cotidiano.
Mas, para mim, a maior inovação não está em um equipamento ou em uma tecnologia isolada. Está na capacidade de integrar ciência, tecnologia, treinamento funcional e participação da família.
Porque, no final, nosso objetivo não é simplesmente modificar a atividade cerebral ou melhorar um resultado em uma avaliação. É fazer com que esse conhecimento se traduza em conquistas que tenham significado na vida de uma criança.
Queremos que ela possa se movimentar melhor, brincar, explorar o ambiente, participar das atividades da família, fazer escolhas e conquistar cada vez mais autonomia.
E talvez seja isso que mais me emocione na minha trajetória como pesquisadora: saber que um conhecimento desenvolvido dentro de um laboratório pode, um dia, fazer diferença na vida de uma criança e de toda a sua família.
Porque, para mim, a ciência só encontra seu verdadeiro sentido quando consegue ultrapassar as paredes dos laboratórios e se transformar em possibilidades reais de vida.
Depois de tantos anos acompanhando crianças e famílias, o que você aprendeu sobre esperança, limites e possibilidades? E o que gostaria que toda família que recebe o diagnóstico de uma deficiência em uma criança soubesse naquele primeiro momento?
Depois de tantos anos acompanhando crianças e famílias, o que você aprendeu sobre esperança, limites e possibilidades? E o que gostaria que toda família que recebe o diagnóstico de uma deficiência em uma criança soubesse naquele primeiro momento?
Depois de tantos anos, eu aprendi que esperança não é acreditar que tudo será possível, mas compreender que sempre podemos buscar caminhos, aprender e construir novas possibilidades.
Aprendi também que precisamos ter muito cuidado com a palavra "limite". Existem desafios reais, que precisam ser compreendidos e respeitados, mas também existem muitas barreiras impostas pela sociedade, pela falta de oportunidades e, às vezes, pela nossa própria dificuldade de enxergar além de um diagnóstico.
Ao longo dessa caminhada, tive o privilégio de viver experiências e receber reconhecimentos que me emocionaram profundamente. Em 2026, recebi uma menção honrosa do Estado de São Paulo, em reconhecimento ao meu trabalho e à minha trajetória entre profissionais da saúde que se destacam por transformar vidas e valorizar a profissão.
Foi um momento muito especial, que me fez olhar para trás e recordar tantas histórias, desafios e conquistas compartilhadas com crianças e famílias ao longo dos anos.
Mas, para mim, o significado dessa homenagem vai muito além do reconhecimento profissional. Ela representa cada criança que conquistou uma nova habilidade, cada família que encontrou esperança em meio às dificuldades e cada pessoa que confiou no meu trabalho.
Porque nenhuma conquista é construída sozinha. Minha trajetória foi e continua sendo escrita por muitas mãos. E, se hoje recebo esse reconhecimento, é porque tive o privilégio de caminhar ao lado de crianças e famílias que me ensinaram tanto sobre coragem, persistência, amor e possibilidades.
E talvez seja justamente esse o maior aprendizado da minha profissão: nós entramos na vida dessas famílias com o propósito de ajudá-las, mas são elas que, muitas vezes, transformam profundamente a nossa própria vida.
E, se eu pudesse dizer algo a cada família que acaba de receber o diagnóstico de uma deficiência em uma criança, seria: vocês não estão sozinhos.
Eu sei que esse momento pode trazer medo, insegurança e muitas perguntas. E vocês não precisam ter todas as respostas agora.
Existem profissionais, cientistas, pesquisadores e tantas pessoas que dedicam suas vidas a estudar, cuidar, desenvolver tecnologias e buscar novas possibilidades.
Estamos com vocês e trabalhamos por vocês e por seus filhos.
Mas eu também gostaria de dizer algo que considero fundamental: antes de qualquer diagnóstico, existe uma criança.
Uma criança que precisa brincar, aprender, amar, ser amada, conviver, descobrir o mundo e viver experiências no seu próprio tempo.
Não deixem que o medo do futuro roube a beleza e as descobertas do presente.
E, acima de tudo, não percam de vista quem é o seu filho para além da deficiência. Olhem para suas capacidades, seus interesses, sua personalidade, seus sonhos e para tudo aquilo que faz dele uma criança única.
Porque, no final, o nosso maior objetivo não é apenas conquistar movimentos ou habilidades. É ajudar a construir uma vida com mais autonomia, participação, dignidade e felicidade.
E essa é uma caminhada que ninguém precisa fazer sozinho. Estamos juntos, aprendendo, buscando respostas e construindo possibilidades, todos os dias.
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