Publicado 02/05/2026 12:59
Duque de Caxias – O artista plástico João Teodoro realizou, no último 1º de maio, Dia do Trabalho, a performance Rebococó, em que percorreu 2,5 km, carregando 50kg de cimento nas costas, pelas ruas do Centro de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, até a casa de sua família, no bairro 25 de Agosto. A primeira ação do GRO, iniciativa cultural e política do Rio de Janeiro conecta arte contemporânea e democracia, foi marcada por intenso esforço físico e forte carga simbólica, relacionando o retorno à origem e a reflexão sobre trabalho e descanso. A performance despertou a curiosidade de quem o via ao longo do trajeto e culminou em um encontro afetivo no espaço doméstico, ponto de chegada transformado em território de celebração.
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Desde a partida da Rua General Gurjão, o artista, descalço, teve a companhia do seu amigo Édson Brito, que não saiu do seu lado. Além do esforço físico, João também se utilizou do ato político para questionar a visibilidade de corpos negros. Em dado momento da travessia, o artista deixou o saco de cimento no chão, e se deitou, tal qual um morador em situação de rua, na porta de entrada de uma agência bancária. Mais do que metáfora, a ação se afirmou como presença concreta no espaço urbano, tensionando debates contemporâneos sobre trabalho, especialmente no contexto das discussões nacionais sobre a escala 6x1 e o direito ao descanso.
“O planejado é uma coisa, outra é a realidade. E isso dialoga muito com a realidade da pessoa que trabalha e que não tem tempo para descansar, e o tempo que ela tem para isso é atravessado por diversas outras coisas. Poder sentir, refletir e passar isso para as pessoas que me acompanharam foi muito gratificante”, explicou João Teodoro, cofundador do do GRO.
Na chegada, a performance seguiu para sua segunda parte, de caráter íntimo. Na casa da sua avó, onde foi criado, João Teodoro cobriu com cimento uma fotografia familiar fixada no muro. O gesto, longe de representar apagamento, propôs uma reinscrição da memória — preservada sob novas camadas. Em seguida, a ação foi encerrada com uma festa entre familiares e convidados, reafirmando o quintal como espaço de afeto, cuidado e convivência.
“Essa fotografia foi escolhida porque fiz uma manipulação digital, onde eu juntei o meu avô, minha tia, minha mãe e a minha avó (Amaro Teodoro do nascimento, Nely Teodoro do nascimento, Nancy Teodoro Nascimento, Maxiana Baptista do Nascimento.). E formou essa única foto com os quatro juntos que a gente tem. Eu uni a família que criou a casa 490. Muito se diz que as pessoas são crias de tal lugar. E, se puder dizer que eu sou cria de algum lugar, eu sou a cria do 490, construído por essas quatro pessoas”, conta ele, que, em sua chegada, muito emocionado, foi recebido pelo abraço carinhoso de sua avó Maxiana Baptista do Nascimento, de 93 anos.
Após a realização, o artista destacou o caráter emocional e transformador da experiência:
“Foi diferente. Foi a primeira vez que chorei fazendo uma performance. Já tinha feito outras, mas nessa, sou o corpo que está produzindo a obra. Estava mais sentimental, consciente do que eu estava produzindo, sentindo muito mais”.
Criada a partir de investigações sobre trabalho, corpo e memória, Rebococó dialoga diretamente com a realidade de trabalhadores brasileiros e articula elementos da arte contemporânea com experiências sociais e familiares, propondo uma leitura sensível sobre o esforço físico e os atravessamentos do cotidiano. A performance reforça o papel da arte como ferramenta de reflexão crítica e construção de novas narrativas sobre trabalho, pertencimento e afetividade.
Sobre o GRO
O GRO é uma iniciativa cultural e política sediada no Rio de Janeiro que atua por meio da comunicação, da pesquisa e da criação artística. Em diálogo com artistas e pensadores populares, desenvolve projetos voltados à ampliação do imaginário democrático brasileiro.
O GRO é uma iniciativa cultural e política sediada no Rio de Janeiro que atua por meio da comunicação, da pesquisa e da criação artística. Em diálogo com artistas e pensadores populares, desenvolve projetos voltados à ampliação do imaginário democrático brasileiro.
Sobre o título
Rebococó nasce da junção entre "reboco" e "rococó". O reboco remete ao trabalho manual, presente no gesto de carregar cimento. O rococó, historicamente associado ao ornamento, é deslocado para operar como linguagem de complexidade e sobreposição simbólica. A junção propõe uma estética da sobreposição entre corpo, matéria e memória.
Rebococó nasce da junção entre "reboco" e "rococó". O reboco remete ao trabalho manual, presente no gesto de carregar cimento. O rococó, historicamente associado ao ornamento, é deslocado para operar como linguagem de complexidade e sobreposição simbólica. A junção propõe uma estética da sobreposição entre corpo, matéria e memória.
Por que 1° de maio
O Dia do Trabalho é a data em que o Brasil celebra o trabalho, mas raramente celebra os trabalhadores que mais carregam. Caminhar com um saco de cimento pelas ruas do Rio nesse dia é um gesto que coloca o corpo negro no centro de uma celebração que historicamente o ignora.
O Dia do Trabalho é a data em que o Brasil celebra o trabalho, mas raramente celebra os trabalhadores que mais carregam. Caminhar com um saco de cimento pelas ruas do Rio nesse dia é um gesto que coloca o corpo negro no centro de uma celebração que historicamente o ignora.
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