Com a alta da Selic, o parcelamento de uma compra pode vir acompanhado de juros, aumentando o preço final Reprodução
Publicado 17/02/2025 05:00
A cada 45 dias, a taxa Selic rende manchetes nos jornais depois das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). No mundo real, os termos e os números apresentados acabam dificultando o entendimento do quão prejudicial ou não a diferença de percentual pode ser. O último reajuste, feito no dia 29 de janeiro, aumentou a tarifa básica para 13,25%, subindo em um ponto. Com esse “choque de juros”, é necessário ter atenção redobrada para não perder o controle sobre as dívidas e os investimentos.

O nome Selic se origina da sigla para Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, uma estrutura do mercado financeiro administrada pelo Banco Central (BC). O professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ronaldo Fiani, explica que a Selic registra as compras e vendas de títulos públicos e as taxas de juros dessas operações.

“Ela influencia os empréstimos entre bancos, conhecidos como ‘operações compromissadas’. Nesses empréstimos, um banco que precisa de dinheiro pega recursos de outro banco, oferecendo títulos públicos como garantia. Ou seja, ele vende os títulos com o compromisso de recomprá-los no dia seguinte, pagando juros”, comenta.

Fiani detalha que o Copom define uma meta para a taxa Selic. Se ela sobe além da estimativa, o Banco Central injeta dinheiro no mercado comprando títulos públicos, o que reduz os juros. Ficando abaixo da meta, ele vende títulos, retirando dinheiro do mercado e elevando os juros até alcançar a meta.
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Como a taxa Selic afeta o dia a dia?
Caso a atividade econômica esteja intensa, com muitas pessoas consumindo e as empresas investindo, a demanda por bens e serviços aumenta, e com isso os preços sobem e a inflação acelera. De acordo com Fiani, isso faz o Banco Central querer desestimular a atividade econômica, porque avalia que a inflação está elevada, ou acredita que há um risco significativo de aceleração inflacionária em breve. Assim, o Copom eleva a meta da taxa.

A Selic estabelece um piso para as tarifas de juros: quando ela sobe, as demais aumentam. Isto significa que os empréstimos, financiamentos e até a rolagem do cartão de crédito ficam mais caros. Se um consumidor pensa duas vezes antes de parcelar uma compra, ele já está sentindo na prática o efeito da alta.

“Penso nela como a ‘maior influenciadora’ das taxas de juros – tudo no mercado segue o ritmo dela”, afirma Karla Freitas, especialista em investimentos e fundadora do do projeto Sua BFF Rica. o impacto mais visível é o aumento das tarifas cobradas pelos cartões de crédito. Outra consequência são os empréstimos, que, mesmo com juros pré-fixados, podem pesar mais no bolso com a alta da Selic. Ou seja, financiar um carro, um imóvel ou até parcelar aquela compra dos sonhos pode sair bem mais “salgado”.
Conforme dados do levantamento do Serasa, são 73 milhões de pessoas endividadas no Brasil - Reprodução
Conforme dados do levantamento do Serasa, são 73 milhões de pessoas endividadas no BrasilReprodução


O universitário Mathias Oliveira, de 20 anos, conta que o aumento da Selic o prejudicou ao elevar o custo de sua dívida. O jovem abriu um MEI para prestar serviços como técnico em eletrônica, mas faz tempo que não realiza nenhum trabalho nessa área. Com o passar dos meses, as mensalidades obrigatórias do Documento de Arrecadação do Simples Nacional foram se acumulando, gerando uma dívida devido ao não pagamento dessas taxas. “Infelizmente, eu estou sem ter como pagar. Tudo virou uma bola de neve.”

Conforme dados do levantamento do Serasa, feito em outubro de 2024, são 73 milhões de pessoas endividadas no Brasil. A pesquisa mostra que os brasileiros entre 41 e 60 anos são a maioria com nome restrito (35,1%). Em seguida, estão as idades de 26 a 40 anos (34,0%), acima dos 60 (19,2%) e os jovens entre 18 e 25 anos (11,8%).

A funcionária pública Joana Alves, de 59 anos, comenta que se sente frustrada e preocupada com a dívida criada: “Está cada vez mais difícil com os juros e impostos altos. Minhas duas filhas e meus netos precisam de mim, e sou só”.

Ela relata que a situação começou com a compra de um apartamento, cuja prestação é “muito” alta. Depois, uma das filhas precisou de um carro para trabalhar. A fim de ajudar a família, Alves pegou um empréstimo para dar entrada. Devido aos compromissos financeiros tanto pessoais quanto familiares, ela diz que fica “apertada”, devendo o cartão. “Por isso, eu pego o empréstimo. É para dar um alívio.”
Dicas para não criar uma ‘bola de neve’
Com a alta da Selic, uma compra parcelada em dez vezes, que antes parecia inofensiva, pode agora vir acompanhada de juros, deixando o preço final maior. O segredo disso tudo, segundo Freitas, é o planejamento. “No final das contas, a alta da Selic nos obriga a repensar nossos hábitos de consumo.”

Confira as dicas sugeridas pelos especialistas escutados pelo O DIA:

- Evite parcelamentos longos e sempre confira se há juros embutidos;
- Se não puder pagar a fatura inteira, negocie antes de entrar no rotativo;
- Vale mais a pena esperar um pouco e juntar dinheiro para fazer compras não essenciais;
- Evite utilizar o cartão de crédito para bancar as despesas do dia a dia.

Fiani explica que crédito e consumo estão diretamente ligados. Quando os empréstimos e financiamentos ficam mais caros, o consumo diminui, pois o custo de produtos e serviços também sobe. Por isso, um aumento na Selic tende a reduzir as compras e a busca por financiamentos de carros e imóveis.

“Os juros dos empréstimos vão aumentar, acompanhando a alta da Selic, o que pode comprometer o orçamento doméstico. Da mesma forma, juros elevados arriscam tornar dívidas em cartões de crédito verdadeiras bolas de neve”, esclarece.

Caso o uso do cartão de crédito seja recorrente, Freitas alerta sobre os parcelamentos: “O rotativo já era um vilão, mas com os juros ainda mais altos, virou praticamente uma armadilha financeira”.

Investimentos em cenário de alta
Para quem é do mundo dos investimentos, um momento de alta da Selic pode significar ganho de rendimento. A fundadora do do projeto Sua BFF Rica afirma que as aplicações em renda fixa são as “grandes vencedoras”.
Freitas comenta que, diferente da renda fixa, a Bolsa de Valores tende a sofrer no curto prazo com a alta da SelicArquivo pessoal
Veja abaixo quais são as melhores opções para aproveitar esse cenário, de acordo com Freitas:
O Tesouro Selic é um dos investimentos mais beneficiados pela alta da taxa de juros. Como ele acompanha diretamente a Selic, quanto maior for a taxa, maior será a rentabilidade. Além disso, é um dos investimentos mais seguros do país, pois tem garantia do governo. Outra vantagem é a liquidez diária, permitindo o resgate do dinheiro sempre que necessário.
Certificados de Depósito Bancário (CDB) é emitido pelos bancos para captar recursos dos investidores. Muitos deles pagam um percentual do CDI, que acompanha de perto a Selic. Com a alta da taxa, os CDBs que oferecem 100% do CDI ou mais tornam-se ainda mais vantajosos para quem busca rentabilidade na renda fixa.
Para quem deseja aproveitar a alta da Selic sem pagar imposto de renda, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) são excelentes opções. Assim como os CDBs, elas acompanham o CDI, oferecendo retornos atrativos em períodos de juros elevados. A grande vantagem é a isenção de imposto de renda para pessoas físicas.
Os fundos DI e os fundos de renda fixa atrelados à Selic ou ao CDI aplicam a maior parte dos recursos em títulos públicos e privados que seguem a Selic, proporcionando bons retornos em momentos de juros elevados.
Freitas comenta que, diferente da renda fixa, a Bolsa de Valores tende a sofrer no curto prazo com a alta da Selic. Isso acontece porque, com investimentos seguros pagando mais, muitos investidores migram da renda variável para a renda fixa. No entanto, essa queda pode gerar boas oportunidades para quem investe pensando no longo prazo. A desvalorização de algumas ações pode ser uma chance de comprar empresas sólidas a preços mais atrativos.
Em resumo, quando a Selic sobe, os investimentos em renda fixa ganham força, enquanto a Bolsa pode enfrentar oscilações. O segredo é entender o momento do mercado e escolher as melhores opções conforme a estratégia financeira.
Copom prevê aumento para 14,25%
Neste mês, a Selic completou três anos acima de dois dígitos. Na última reunião, em janeiro, o Copom indicou um novo aumento de um ponto percentual, para 14,25%, a ser decidido no encontro marcado para 19 de março.
Segundo o relatório Focus, a previsão é de mais uma alta, para a estimativa intermediária de 15,25%. Caso as taxas continuem subindo, Joana Alves diz que irá acontecer o pior. “Ficarei inadimplente. Isso mexeria muito com a minha cabeça.” Ela comenta que está em tratamento com psiquiatra e toma medicação para acalmar e não ter um “treco”, por conta das dívidas.
Mathias Oliveira também espera o cenário com pessimismo: “Eu estou com bastante medo do que vai acontecer nos próximos meses. A dívida no meu nome deve aumentar e a situação financeira da minha casa deve apertar ainda mais”.
*Matéria da estagiária Aline Fernandes, sob supervisão de Marlucio Luna
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