No encontro da semana passada, o colegiado manteve a taxa básica de juros da economia em 15% ao anoRafa Neddermeyer/Agência Brasil
Publicado 05/08/2025 10:09 | Atualizado 05/08/2025 10:10
O Comitê de Política Monetária (Copom) disse, na ata da sua última reunião, que o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil tem "impactos setoriais relevantes e impactos agregados ainda incertos, a depender de como se encaminharão os próximos passos da negociação e a percepção de risco inerente ao processo". No encontro da semana passada, o colegiado manteve a taxa básica de juros da economia em 15% ao ano. O documento foi divulgado nesta terça-feira (5).
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De acordo com a ata, o cenário externo está mais adverso e incerto do que antes. "Se, de um lado, a aprovação de alguns acordos comerciais, assim como os dados recentes de inflação e atividade da economia norte-americana poderiam sugerir uma situação de redução da incerteza global, de outro, a política fiscal e, em particular para o Brasil, a política comercial norte-americanas tornam o cenário mais incerto e mais adverso", considerou o colegiado.
"O Comitê acompanha com atenção os possíveis impactos sobre a economia real e sobre os ativos financeiros. A avaliação predominante no Comitê é de que há maior incerteza no cenário externo e, consequentemente, o Copom deve preservar uma postura de cautela", informou o BC.
O decreto assinado na última quarta-feira (30) por Trump elevou para 50% a alíquota sobre produtos brasileiros, mas também trouxe uma lista de 694 exceções que beneficiam segmentos estratégicos como o aeronáutico, o energético e parte do agronegócio. A medida entra em vigor nesta quarta-feira (6).
Como usual, o Comitê informa que focará nos mecanismos de transmissão da conjuntura externa sobre a dinâmica de inflação interna e seu impacto sobre o cenário prospectivo.
Ata do Copom repete que antecipa 'continuação na interrupção' do ciclo de alta dos juros
O comitê repetiu que antecipa uma "continuação na interrupção no ciclo de alta dos juros". O objetivo é avaliar se a manutenção da taxa Selic no nível atual por período "bastante prolongado" é suficiente para fazer a inflação convergir à meta, de 3%. 

O colegiado voltou a mencionar que a elevada incerteza no cenário demanda cautela na condução da política monetária, e reforçou a disposição para reagir, se necessário.
"O Comitê enfatiza que seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado", diz a ata, repetindo um trecho do comunicado.

Segundo o Copom, a desancoragem das expectativas exige uma política monetária significativamente contracionista por período bastante prolongado para assegurar a convergência da inflação à meta. Além da desancoragem, o cenário também é marcado por projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho, disse o Comitê.

O colegiado repetiu as suas projeções de inflação acumulada em 12 meses para 2025 (4,9%), 2026 (3,6%) e o primeiro trimestre de 2027 (3,4%), que é o horizonte relevante da política monetária. Todas as estimativas estão acima do centro da meta, de 3%. A trajetória leva em conta uma desaceleração dos preços livres, de 5,1% este ano para 3,3% no horizonte relevante. Os preços administrados devem passar de 4,4% para 3,9% nesse mesmo período.

Todas as projeções partem do cenário de referência, com trajetória de juros extraída do relatório Focus e bandeira verde de energia elétrica em dezembro de 2025 e 2026. A taxa de câmbio começa em R$ 5,55 e evolui conforme a paridade do poder de compra (PPC). Os preços do petróleo seguem aproximadamente a curva futura por seis meses e, depois, sobem 2% ao ano.
"O Comitê avalia que, após um ciclo rápido e firme de elevação de juros, antecipa-se, como estratégia de condução de política monetária, continuar a interrupção do ciclo de alta para observar os efeitos do ciclo empreendido", trouxe o parágrafo 22 do documento.
"A desancoragem das expectativas de inflação é um fator de desconforto comum a todos os membros do Comitê e deve ser combatida", acrescentou.
O colegiado reconheceu uma queda nas expectativas de inflação para horizontes mais curtos. No entanto, destacou que não houve mudanças relevantes nas projeções para prazos mais longos, ainda que as medidas de inflação implícita tenham caído.

"Na discussão sobre esse tema, a principal conclusão obtida e compartilhada por todos os membros do Comitê foi de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado", apontou a ata.

Falando sobre os dados correntes, o comitê destacou que a inflação vem surpreendendo para baixo, mas continua acima da meta. Os bens industrializados têm arrefecido, e os preços de alimentos mostram uma dinâmica mais fraca que o esperado, disse o colegiado. Mas a inflação de serviços continua acima de um nível compatível com a meta, diante do hiato do produto positivo.

"Para além das variações dos itens, ou mesmo das oscilações de curto prazo, os núcleos de inflação têm se mantido acima do valor compatível com o atingimento da meta há meses, corroborando a interpretação de uma inflação pressionada pela demanda e que requer uma política monetária contracionista por um período bastante prolongado", afirmou o Copom.
Sinais vindos da demanda e da atividade são compatíveis com política monetária
"De modo geral, observa-se uma certa moderação de crescimento, corroborando o cenário delineado pelo comitê. Tal moderação, necessária para a abertura de hiato e a convergência da inflação à meta, se coaduna com uma política monetária contracionista", disse a ata.

Por um lado, o comitê menciona uma moderação "mais nítida" do mercado de crédito. Programas como o novo consignado privado têm mostrado menor impacto que o esperado por alguns analistas do mercado. Além disso, há uma queda nas concessões e aumento nos juros e inadimplência do crédito livre, afirmou.

"Tendo em vista o calendário de implementação nesta linha de crédito, bem como o efeito em outras modalidades da introdução e retirada de impostos, o comitê avalia que deve acompanhar atentamente as próximas divulgações dos dados de crédito", observou o Copom.

Na outra ponta, o mercado de trabalho continua dinâmico tanto do ponto de vista da renda, como do emprego, com queda da taxa de desocupação a níveis historicamente baixos. Esse setor mantém um suporte ao consumo e à renda, afirmou o comitê.

"Em momentos de inflexão no ciclo econômico, é natural que se observem sinais mistos advindos de indicadores econômicos, alguns antecedentes, outros defasados, como também de comparações entre mercados, por exemplo, os mercados de crédito e de trabalho", apontou o Copom.
*Com informações do Estadão Conteúdo
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