Café registrou aumento expressivo de preços nos últimos 18 mesesSaulo Junior / Agência O Dia
Publicado 13/10/2025 05:00 | Atualizado 13/10/2025 18:47
Como começa o seu dia? Bom, se esta mesma pergunta for feita para milhões de brasileiros, muitos dirão que é com um cafezinho, para dar aquela energia para o trabalho. Mas como o aumento no preço do produto afetou a forma de consumi-lo?
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O café é uma commodity, produto elaborado em larga escala que funciona como matéria-prima, negociada nas bolsas de Nova York, Londres e São Paulo. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apontou que, nos 18 meses entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025, o preço do produto chegou a uma elevação de 99,46%. Ou seja, praticamente dobrou de preço neste período.
E, para o desespero de muitos, deve subir ainda mais. Foi isso que alertou o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Pavel Cardoso, em entrevista coletiva no último dia 24.
Cardoso informou que é possível que haja um acréscimo entre 10% e 15% nos preços do produto a serem repassados aos supermercados, já que os custos com a compra da matéria-prima foram alavancados. Mas por que houve este aumento tão brusco?
Protagonismo do Brasil e Clima
Segundo Daniel Santos Kosinski, professor do Departamento de Evolução Econômica da Uerj, "a principal razão para o aumento do preço é que as safras dos últimos anos vêm apresentando perdas consideráveis em função de eventos climáticos".
No ano passado, a produção mundial de café foi de 176,2 milhões de sacas. O Brasil, maior produtor global, costuma responder por cerca de um terço do total. A expectativa era de quase 59 milhões, mas, devido a intercorrências climáticas, a produção ficou abaixo do previsto, fechando em 54 milhões.
No Vietnã, segundo maior produtor global, a situação não foi muito diferente, problemas com o clima também impactaram as lavouras, reduzindo a safra em 10%.
"Há uma tendência de aumento das temperaturas em diferentes regiões cafeeiras importantes, como o sul de MG, atrapalhando a produção em áreas tradicionais", destaca Kosinski.
Tarifaço
Para Kosinski, o tarifaço de Trump não é um fator determinante para o aumento do café. Ele destacou que o café brasileiro, neste caso, "fica mais caro para o americanos" e que os "produtores brasileiros podem procurar outros mercados internacionais para a venda com o intuito de seguir recebendo em dólar".
 
Café faz parte do dia a dia de milhões de brasileiros - Saulo Junior / Agência O Dia
Café faz parte do dia a dia de milhões de brasileirosSaulo Junior / Agência O Dia
Mudança no consumo
A Abic encomendou uma pesquisa ao Instituto Axxus, divulgada no fim de setembro, que nos apontou uma transformação nos hábitos de consumo. O impacto do preço do café aparece na forma de comprar e consumir a bebida.
Quase quatro em cada dez consumidores (39%) afirmaram optar por uma marca mais barata, mais que o dobro de 2023 (16%). A fidelidade às marcas cede lugar à busca pelo menor valor.
Nas cafeterias, o movimento é semelhante: a frequência caiu de 51% em 2023, para 39% em 2025. O levantamento mostra que os principais motivos para a queda são preços elevados, mau atendimento e qualidade inconsistente da bebida. 
"Esse recuo está diretamente associado ao encarecimento da bebida. Nos últimos dois anos, o café figurou entre os alimentos que mais subiram no IPCA, com altas superiores a 70%, segundo o IBGE", destaca Pavel, em entrevista ao DIA. Por fim, ele deixou uma mensagem aos consumidores brasileiros:
"Junto aos consumidores, estimulamos cada vez mais o consumo consciente, sem desperdícios, ou seja, preparar apenas o que será consumido. Também estimulamos a transparência e a comunicação entre indústria e consumidor sobre os preços e tendências. O fundamental é mantermos a qualidade e pureza certificada do café que é uma paixão nacional".
Bebida do dia a dia
Cristiane Carvalho, corretora de seguros, de 50 anos, não vive sem seu café matinal e também uma dose vespertina. Por ser uma prioridade em sua vida, ela, que mora no Recreio, na Zona Sudoeste do Rio, acaba "encarando" este aumento.
"Senti bastante o aumento do preço do café, mas a verdade é que a paixão pelo cafezinho como 'bom dia' e no meio da tarde falaram mais alto", explica. Cristiane acredita que o produto pode baixar de preço: "Como todo bom brasileiro, nos adequamos".
Cristiane Carvalho 'encarou' o aumento por priorizar o café no cotiadianoArquivo Pessoal
Já Clara Lino, de 22 anos, precisou mudar os hábitos. Ela, que é formada em Sistema de Informação e mora com os pais na Região Oceânica de Niterói, passou a consumir a bebida apenas uma vez ao dia.
"É algo que você vê que não pode desperdiçar, você passa a valorizar mais. O que eu tento fazer é colocar certinho a quantidade que eu vou consumir para evitar jogar fora sem necessidade", diz. Ela também reparou uma piora dos produtos no consumo fora de casa.
Clara Mattos mudou os hábitos do consumo de caféSaulo Junior / Agência O Dia
"As vezes eu tomo um cafezinho na rua para dar um levante, mas percebi duas coisas.: ou está mais caro ou o café é péssimo", reclama.
Pedro Chamberlain, de 26 anos, vai na mesma linha de Cristiane. O desenvolvedor de software, que mora na Tijuca, apontou que "tem sido um disparo absurdo". No entanto, ele segue consumindo o produto.
"Comecei a tomar café mais por uma questão social, no trabalho, do que pelo sabor em si. Com o tempo, fui aprendendo a apreciar. Hoje é um momento especial do dia pra mim. É algo que faz parte do meu dia a dia e que eu valorizo muito. Não sou uma pessoa de muitos luxos, então preferi investir um pouco mais em cafés de qualidade", conta.
"Acredito que os preços diminuam com o reabastecimento das safras, mas dificilmente voltarão ao patamar de antes por conta do agravamento da crise climática", opina.
Pedro Chamberlain acredita que o preço do café não voltará ao patamar anteriorArquivo Pessoal
Trocas de marcas
Segundo a Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj), a substituição por marcas de qualidade inferior não é somente de estabelecimentos comerciais, como citado por Clara. A entidade observou este comportamento também entre consumidores domésticos.
"O atual cenário apresenta um consumidor que, apesar de ter reduzido a quantidade diária, permanece fiel ao hábito. Há uma migração de parte do público para marcas mais acessíveis ou embalagens menores. Porém, essa é outra questão que depende de outros fatores, como localidade de lojas. Certas unidades mantém um nível de vendas regulares de marcas tradicionais. Mas, de uma forma geral, há uma percepção de uma tendência de consumidores de migrarem para itens com valores mais em conta", destaca em entidade por meio de nota.
Em resposta ao DIA, o presidente da Asserj, Fábio Queiróz, reforça que "o café é um produto profundamente enraizado na rotina e na cultura do Brasil, e o Rio de Janeiro não foge à regra desse hábito quase ritualístico". "Por isso, qualquer oscilação no preço é sentida diretamente pelo consumidor e pelo varejo supermercadista, que é, sem dúvidas, o principal canal de compra da categoria", ressalta.
"Mesmo com o aumento de preço, o consumidor mantém seu hábito, talvez tomando um pouco menos, mas não abre mão do café de todo dia", completa.
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