Entre os principais desafios econômicos para 2026 estão Selic, dívida pública e cenário externoMarcelo Casal Jr / Agencia Brasil
Publicado 30/12/2025 05:00 | Atualizado 30/12/2025 07:21
Inflação, mercado de trabalho, isenção do Imposto de Renda e preço dos alimentos são temas que pesam diretamente no bolso dos brasileiros e devem continuar no centro do debate em 2026. Para entender as perspectivas econômicas para o próximo ano, o jornal O DIA ouviu especialistas que explicam como o cenário econômico pode influenciar o orçamento familiar.
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No quadro geral, os especialistas divergiram quanto às previsões. Para a professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Fernanda Feil, o cenário econômico brasileiro para 2026 é positivo.
Professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Fernanda Feil - Arquivo pessoal
Professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Fernanda FeilArquivo pessoal
"De forma geral, minha previsão para o cenário econômico brasileiro em 2026 é positiva, com crescimento, mas ainda abaixo do potencial do País", diz. Segundo ela, o Brasil entra no próximo ano "com fundamentos melhores do que em ciclos anteriores". 
"A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil aumenta a renda líquida de milhões de trabalhadores e ajuda a sustentar o consumo, especialmente nos serviços e no comércio", analisa.
O economista e professor da Estácio Jeferson Carvalho projeta que o cenário será de crescimento moderado, após a recuperação econômica de 2025: "De acordo com o boletim recente do Boletim Focus, temos uma previsão de crescimento do PIB em 2025 de 2,25%. Para 2026, a previsão é de um crescimento de 1,8%."
Jeferson Carvalho, economista e professor da EstácioArquivo pessoal
"Essa moderação pode ser explicada pela elevada taxa básica de juros que temos atualmente (15% ao ano). Nesse caso, mesmo se ela for reduzida em 2026, não dará impacto à produção de 2026, dada a defasagem do impacto de políticas monetárias na economia real", explica o professor da Estácio.
Já para o economista e líder de Mercado de Capitais da Crowe Macro Brasil Ricardo Rodil, a situação econômica, de forma geral, tende a ser mais difícil.
Economista e líder de Mercado de Capitais da Crowe Macro Brasil Ricardo RodilArquivo pessoal
"Pela primeira vez na vida, não estou muito otimista. A inflação não vem cedendo o que poderia se esperar do remédio amargo dos juros altos, ainda mantidos nas alturas pelo Banco Central", afirma. O especialista pontua que, apesar de o cenário econômico não ser limitado pela taxa Selic, há outros fatores que contribuem para a sua previsão.
Maiores desafios econômicos para 2026
Entre os maiores desafios econômicos para 2026 citados pelos especialistas, estão a taxa Selic, a dívida pública, o cenário externo e as incertezas políticas.
O professor de Ciências Econômicas Miguel Bruno, da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, assegura que a redução da taxa de juros e a expansão industrial devem ser prioridades na agenda do País para o próximo ano.
Professor de Ciências Econômicas Miguel Bruno, da Faculdade Presbiteriana Mackenzie RioArquivo pessoal
"Se o governo estiver realmente preocupado com o desenvolvimento brasileiro, os maiores desafios estão na busca de taxa reais de juros menores e estimulantes do investimento produtivo", observa.
"Mas o maior de todos os desafios é a implementação de uma estratégia nacional e soberana de desenvolvimento com o Estado brasileiro retomando o seu papel de indutor da expansão industrial, base para a geração de postos de trabalho de maior qualidade e, futuramente, para uma participação maior dos produtos industrializados na pauta de exportações brasileiras", acrescenta.
Alexandre Despontin, fundador e CEO da Mérito Investimentos, cita a redução da dívida pública como sendo um dos maiores desafios para o País. "Considerando o cenário de eleições em 2026, a tendência é de que o governo aumente os gastos públicos e, devido à arrecadação não aumentar na mesma proporção, devemos ter um maior déficit fiscal", frisa.
Alexandre Despontin, fundador e CEO da Mérito InvestimentosArquivo pessoal
Já Fernanda Feil prevê que, no próximo ano "os desafios econômicos do Brasil estarão menos ligados a uma crise interna imediata e mais à gestão de riscos, à coordenação de políticas e à capacidade de sustentar o crescimento em um ambiente global adverso".
"Os principais pontos são: manter os juros em trajetória de queda. Este é o desafio central. A economia segue convivendo com taxa de juros elevada, que encarece o crédito, desestimula o investimento produtivo e limita a geração de empregos de maior qualidade. O desafio será reduzir os juros de forma sustentável", afirma.
A especialista também cita outros pontos de atenção, como: administrar os riscos do cenário externo, sustentar o mercado de trabalho e a renda, estimular investimento e produtividade e gerir incertezas políticas. "Sendo um ano eleitoral, 2026 tende a elevar a volatilidade política, o que pode afetar expectativas de investidores e decisões de investimento. O desafio será preservar a estabilidade institucional e a continuidade das políticas econômicas, evitando rupturas ou discursos que aumentem a percepção de risco", alerta.
Ampliação da faixa de isenção do IR
A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para R$ 5 mil é avaliada de forma positiva pelos especialistas. Segundo eles, em um primeiro momento, a medida deve impulsionar o consumo sem necessariamente comprometer a arrecadação.
Sérvulo Mendonça, chairmain da Holding SM, explica que a isenção pode reforçar a renda disponível das faixas mais baixas e estimular o consumo imediato:
"Isso ocorre ao mesmo tempo em que deve acender o alerta sobre a necessidade de compensações fiscais que preservem o equilíbrio das contas públicas."
Sérvulo Mendonça, chairmain da Holding SMArquivo pessoal
"Soma-se a isso a reformulação da tributação voltada aos chamados super-ricos, que tende a envolver ajustes sobre patrimônio, renda passiva e estruturas societárias, tornando indispensável maior rigor técnico no planejamento financeiro e tributário", afirma.
O aumento do consumo causado pela isenção do IR pode acabar beneficiando estados e municípios, menciona o professor da Mackenzie, Miguel Bruno.
"Reduções nas receitas fiscais de IR provocadas pela ampliação da faixa de isenção, tendem a ser compensadas pelo aumento das receitas de impostos indiretos, beneficiando inclusive estados e municípios que dependem desses tributos sobre consumo. Em suma, os valores antes arrecadados de IR serão em parte transferidos a Estados e municípios via aumento da arrecadação de impostos sobre consumo", avalia.
Fernanda Feil lembra que a medida também causa um efeito estrutural relevante. "O Brasil segue sendo um dos países mais desiguais do mundo, com forte concentração de renda no topo. A reforma do IR não resolve esse problema sozinha, mas é um primeiro passo concreto, com impacto mensurável na redução da desigualdade", aponta.
Inflação e Selic 2026 
De forma geral, os especialistas acreditam que taxa básica de juros do Brasil deve chegar aos 12%, mas que a redução depende de alguns fatores. No dia 10, o Banco Central decidiu, de forma unânime, manter a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 15% ao ano. 
"Existe a expectativa de manter a Selic em 12% até o final de 2026. O que poderia forçar o BC a elevar ainda mais essa taxa seria um ambiente econômico volátil e imprevisível, principalmente considerando as decisões tomadas pelo governo do Brasil ao longo da corrida eleitoral", esclarece o professor Jeferson Carvalho. "Basicamente, se o risco Brasil aumentar, infelizmente veremos a taxa em patamares ainda mais elevados", alerta.
Por outro lado, Miguel Bruno afirma que as eleições podem influenciar positivamente a redução da taxa Selic. "O que pode pressionar o BC a mudar de direção é precisamente o fato de tratar-se de um ano de eleição e que o governo ainda exerce, se quiser, alguma influência sobre a definição da política monetária, pois o BC obteve autonomia legal e não independência em relação ao governo eleito", explica.
"Isso significa que a definição da meta de inflação também pode ser definida com a participação do Ministério da Fazenda, o que não ocorre em um banco central independente. A Selic poderá ser moderadamente reduzida, se o BC não buscar compensar os possíveis aumentos de gastos do governo devido ao ano eleitoral", detalha o professor de economia da Mackenzie.
Mercado de trabalho
O Brasil criou 1,5 milhão de empregos formais entre janeiro e agosto de 2025, alcançando um recorde de 48,69 milhões de vínculos com carteira assinada. Para 2026, especialistas apontam um cenário de estagnação.
"Em relação ao mercado de trabalho brasileiro, que apresentou um desempenho surpreendentemente em 2024 e 2025, com mérito das políticas econômicas do governo atual, deve entrar em um período de desaceleração modesta, resultado do crescimento reduzido que se espera do PIB em 2026", observa o docente da Estácio Jeferson Carvalho.
Ricardo Rodil enfatiza que não acredita em mudanças significativas. "Não esperaria grandes mudanças no mercado de trabalho verdadeiro e não naquele retratado pelo índice de desemprego na sua forma atual, onde quem vive de programas sociais e não procura emprego não é considerado desempregado."
Por outro lado, Ricardo aponta que o cenário não é todo negativo.

"Prevejo sim algum efeito marginal de não muita relevância, originado pelo aumento na demanda agregada, que poderá levar os atores econômicos, especificamente aqueles que estão na produção e comercialização de bens de consumo não duráveis, a aumentar suas atividades para aumentar a oferta, o que poderá levar a aumento do emprego. Mas não creio que esse efeito seja significativo nos níveis reais de empregos e salários nem da atividade econômica (PIB)."
Câmbio 
Jeferson Carvalho avalia que, embora o Boletim Focus projete o câmbio ao fim de 2026, é muito difícil prever com exatidão uma variável tão influenciada por fatores globais. 
"O Boletim Focus estima que o câmbio, ao final de 2026, esteja em R$ 5,50. Essa variável é ainda mais difícil de estimar. Se imaginar cenários para o Brasil em 2026 já é complicado, imagine para o mundo inteiro", menciona.
Já Miguel Bruno afirma que existe a possibilidade da valorização do real frente ao dólar. "Exceto se houver algum choque externo, a tendência será de apreciação do real frente ao dólar e isso é bem-vindo tanto para o setor financeiro quanto para as empresas estrangeiras que operam em território brasileiro, pois precisam remeter lucros às suas matrizes e o dólar mais barato facilita essas transações", destaca.
Metas fiscais
De forma geral, a perspectiva é de que as metas ficais não serão cumpridas em 2026. Para o professor de economia da Estácio o cenário é pessimista. "Já em 2025 observamos dificuldades para o governo fechar as contas, mesmo ampliando a carga tributária. E é fácil sermos pessimistas quando imaginamos o que o governo pode fazer quando se busca uma reeleição", explica.
"E aqui não se faz juízo de valor, de 1995 para cá, todos os presidentes expandiram as políticas fiscais (gastos públicos) no último ano de mandato, visando a entregar mais à população ao preço de conquistar votos, a exemplo de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Bolsonaro", esclarece.
Já o professor de Ciências Econômicas Miguel Bruno frisa que "o cumprimento de metas fiscais não depende apenas do governo, os resultados fiscais são endógenos, dependem do crescimento econômico e por isso são resultado dos níveis de atividade". "Menos crescimento implica menos arrecadação fiscal", frisa.
"A própria lógica do arcabouço fiscal repõe continuamente o risco fiscal. Contenção de gastos, leva a menor demanda, que conduz a menos crescimento econômico e, também e simultaneamente, a menor receita fiscal e depois mais cortes de gastos para compensar ou aumentos de impostos, num círculo vicioso interminável que só trava o desenvolvimento social e econômico do Brasil", destaca.
Ricardo Rodil afirma não acreditar que o governo federal terá como lidar com o compromisso fiscal. "Não creio que o governo, que teve três anos para lidar com a disciplina fiscal e falhou miseravelmente, venha a endurecer nessa área em ano eleitoral", pontua.
"As metas fiscais, se cumpridas, o serão por via de contabilidade criativa e criando mais exceções do que regras, movimento que já está a pleno vapor, com a complacência do Congresso. O risco fiscal ou, melhor dizendo, o risco de indisciplina fiscal, nas circunstâncias resumidas acima, deverá subir", diz. "O que mais preocupa hoje é exatamente essa atitude do governo central, onde a máxima de ‘gasto é vida’ continua como principal bússola da execução orçamentária."
Previsões para 2025 falharam
O docente Jeferson Carvalho explica que as previsões do mercado para 2025 foram pessimistas e não se concretizaram.
"Houve um pessimismo exacerbado, provavelmente promovido por motivações ideológicas pró-mercado. Como exemplo, no fim do ano passado, propagou-se a 'falência' do Brasil, com o câmbio atingindo R$ 6,28 no dia 18 de dezembro de 2024. Em 10 de dezembro de 2025, dólar estava cotado em R$ 5,48. Não julgo se esse patamar é o ideal, mas está longe do que emanavam os profetas da desgraça", frisa.
Ele também destaca as razões que levaram ao erro. "Essa previsão se desencontrou com a realidade principalmente por causa de alguns fatores. O primeiro: um pessimismo muito elevado ao observar o comportamento da dívida pública. Sim, ela cresceu, mas foi para viabilizar investimentos, aumento da produção. Não se imaginou os resultados dos investimentos realizados. Aqui temos outro fator: o impulso fiscal", pontua.
"Caso o governo aumente drasticamente seus gastos, ele gastará no ambiente econômico. Gerará aumento de renda, empregos, e promoverá maior consumo das famílias. E chegamos ao último fator: o mercado de trabalho respondeu muito bem aos incentivos, mantendo-se aquecido e aumentando a renda da massa salarial", explica.
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