Publicado 11/01/2026 05:00
O mercado de aparelhos ilegais de IPTV, conhecidos como "TV Box" e "Gatonet" — usados para acessar serviços de streamings de vídeo e TV por assinatura — já atinge 8 milhões de usuários e movimenta R$ 2 bilhões por ano no Brasil, segundo dados Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Apenas em 2025, foram removidos cerca de R$ 166 milhões em produtos piratas do mercado digital.
PublicidadeNo País, "gatonet" é um termo que se refere à recepção não autorizada do sinal de TV por assinatura. Os equipamentos recebem o sinal de canais pirateados como se fossem serviço de streaming. Muitas dessas plataformas são acessadas em TV boxes, também conhecidas como aparelhos de IPTV e caixinhas de TV, que permitem assistir a conteúdos exclusivos pela televisão.
Os aparelhos podem ser usados no Brasil, mas precisam de homologação da Anatel. A lista de dispositivos autorizados pela agência pode ser encontrada no site da agência, aplicando o filtro "Tipo de produto" e selecionando "Smart TV Box".
"O processo de homologação é realizado para garantir que o equipamento atenda aos requisitos técnicos definidos pela Anatel em relação à emissão de radiofrequências, à segurança cibernética e ao uso regular das redes de telecomunicações", afirmou a agência.
"O processo de homologação é realizado para garantir que o equipamento atenda aos requisitos técnicos definidos pela Anatel em relação à emissão de radiofrequências, à segurança cibernética e ao uso regular das redes de telecomunicações", afirmou a agência.
De acordo com um levantamento efetuado pela Anatel a pedido do O DIA, cerca de 4 milhões a 6 milhões de usuários utilizam IPTV pirata de forma recorrente no país, podendo chegar a 8 milhões se considerados usuários ocasionais ou compartilhamento de acessos.
A agência ressalta que o número de usuários do serviço pirata não é direta, porque é uma atividade clandestina. Por isso, a estimativa é feita de forma técnica a partir da combinação de métodos indiretos.
"Com base na combinação de dados de infraestrutura técnica, análise econômica, pesquisas amostrais e comparação com o mercado legal", explicou a Anatel.
Quando o consumidor utiliza serviços piratas, o mercado legal deixa de faturar valores expressivos, estimados atualmente entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões por ano.
Segundo a agência de telecomunicações, o número de usuários de dispositivos piratas possui maior concentração nas regiões Sudeste e Sul. O Rio de Janeiro ocupa o terceiro lugar, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.
A estimativa é que no Estado cerca de 500 mil usuários façam utilizem o serviço ilegal de IPTV, considerando os assinantes de operadoras legalizadas. Para a agência, "esse número pode ultrapassar 1 milhão de usuários se considerarmos as empresas clandestinas que não possuem outorga na Anatel e atuam no Estado".
Optando pelo o que o bolso consegue pagar
Atualmente, para assistir a um filme, série ou evento ao vivo, duas coisas quase sempre são necessárias: saber onde está disponível a atração e assinar um serviço de streaming e/ou TV por Assinatura (TV Box).
Cada serviço de streaming oferece uma seleção única de conteúdo, com pacotes e recursos que atendem a diferentes preferências e orçamentos. Enquanto alguns se destacam pela variedade de títulos exclusivos, outros apostam em preços mais acessíveis ou em eventos ao vivo, como esportes e shows.
Uma TV Box com assinatura combina o aparelho físico com serviços de TV por assinatura, como os da Claro tv+ (antiga Sky/Claro TV), que oferece mais de 120 canais, integração com streamings (Netflix, Disney+, HBO Max etc) e instalação técnica, com mensalidades que variam. Há opções que custam R$ 59,90 nos três primeiros meses de contrato, passando depois para R$ 99,90 por mês.
Também há opções de aluguel de box — Way por R$ 19,90/mês — ou compra de aparelhos avulsos —Amazon Fire TV, Chromecast —, que variam de R$ 200 a R$ 500, dependendo do modelo. Eles usam seus próprios apps de streaming, sendo a assinatura vinculada a esses serviços, e não ao aparelho em si.
Individualmente, também é possível contratar serviços de streaming, assinando vários ao mesmo tempo. Considerando apenas os planos iniciais/básicos, muitos dos quais podem incluir anúncios, o serviço mais barato é o Youtube Premium, que sai por R$ 16,90 ano mês.
O plano mensal da Netflix custa R$ 20,90, enquanto o Prime Video, da Amazon, sai por R$ 19,90. Já a assinatura básica do Disney+ custa R$ 27,99 mensais e inclui alguns canais ESPN para os fãs de esportes. Apple TV+ e HBO Max são ligeiramente mais caros, com mensalidades de R$ 29,90 cada.
Principal empresa brasileira, a Globo oferece uma alternativa intermediária com o Globoplay, cujo plano inicial custa R$ 22,90 ao mês. Por mais R$ 42, é possível adquirir também o Premiere, que transmite os jogos do Brasileirão. Se contratado separadamente, ele custa R$ 59,90, R$ 5 a menos do que a assinatura conjunta.
Outros serviços disponíveis no Brasil incluem o MGM+, que pode ser assinado via Prime Video por R$ 19,90, o Universal+ e o Paramount+, ambos por R$ 18,90 cada. Há ainda o plano mensal do Mubi por R$ 34,90.
Caso um usuário assinasse os serviços de streaming citados, que ainda não representam a totalidade das opções disponíveis no Brasil, o gasto mensal seria de mais de R$ 300.
Um auxiliar administrativo, de 37 anos, de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, afirma que custear todos os serviços de streamings que gostaria pesa no bolso. Ele revela que paga apenas R$ 35 mensais em um aplicativo para TV, que engloba todos os conteúdos dos streamings, além dos canais ao vivo.
"Tenho dois filhos, gastos essenciais como água, luz internet, aluguel, comida, as demandas com as crianças. Infelizmente tive que optar pelo 'gatonet'. As crianças gostam de assistir desenhos, filmes. Às vezes eu e a minha mulher queremos assistir a uma série ou jogo. Se a gente assinar todos os serviços que precisamos para ter o mínimo de conteúdo de lazer na TV, vai prejudicar outras contas", disse.
Uma moradora de Maricá, na Região Metropolitana do Rio, conta que também usa um aplicativo de televisão que reúne conteúdos que deveriam ser exclusivos de plataformas por assinatura. A atendente de loja, de 40 anos, paga R$ 21 mensais para ter acesso ao serviço.
"Juntei o útil ao agradável. É um bom valor e ainda não preciso ficar me preocupando em pagar várias contas diferentes. Também não preciso ficar indo de plataforma em plataforma para decidir o que vou assistir", explicou.
"Nem todo mundo tem condições de ficar pagando caro nessas coisas e a gente batalha tanto no dia a dia, que só quer chegar em casa e ter o prazer de ver um bom filme ou série", desabafa.
Como pirataria é crime, a reportagem não identifica os entrevistados, respeitando o direito ao anonimato.
Riscos de usar produtos piratas
A Anatel explica que o uso de IPTV pirata expõe o usuário a uma série de riscos que vão muito além da simples perda de qualidade do serviço. Apesar de parecer atrativo acessar uma infinidade de streamings de graça ou a preços mais baixos, a agência e associações do setor alertam que os "gatonets" podem ser muito perigosos, deixando o usuário vulnerável a acessos maliciosos aos seus dados, a outros aparelhos da casa e até mesmo os fazendo virar robôs de ataque em iniciativas criminosas pelo mundo (botnets).
"Esses serviços costumam operar por meio de aplicativos e dispositivos não homologados, frequentemente associados à presença de malwares, capazes de capturar dados pessoais, senhas e até informações financeiras, comprometendo a segurança digital e a privacidade do usuário", ressalta a agência.
O órgão ainda destaca que os consumidores que usam serviços de IPTV piratas estão sujeitos a operações de bloqueio e desligamento desses produtos. Eles podem ser interrompidos a qualquer momento, sem aviso prévio ou qualquer garantia de continuidade.
Além disso, a agência cita a ausência de suporte técnico, a baixa confiabilidade e a possível vinculação desse ecossistema a outras atividades ilícitas, como fraudes e crimes cibernéticos, "tornando o IPTV pirata uma escolha de alto risco sob os aspectos legal, tecnológico e financeiro".
"Há vários casos, desde de caixas piratas que mineram bitcoin quando estão em modo standby. Há o roubo de dados de outros aparelhos, como celulares, que estejam na mesma rede wifi da caixa pirata", aponta Mauricio Almeida, líder do Conselho Antipirataria da Associação Brasileira de OTT (Abotts) e Streaming e Presidente da Watch Brasil.
A Anatel destaca que atua para desestimular a pirataria por meio de um conjunto integrado de ações de conscientização, fiscalização e cooperação institucional.
"A Agência informa a sociedade sobre os riscos e a ilegalidade do uso de IPTV pirata e de TV Boxes não homologadas, destacando problemas de segurança, privacidade e instabilidade do serviço, ao mesmo tempo em que intensifica a fiscalização e a retirada desses equipamentos do mercado", afirma.
O órgão também possui um "Laboratório Antipirataria" em parceria com a Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA), incluindo ferramentas para automatização de bloqueios. A estrutura permite análise simultânea de dezenas de modelos, identificando fontes de tráfego pirata.
Operações contra pirataria
A Anatel opera no combate a pirataria. Nos últimos anos, o órgão intensificou a apreensão de aparelhos irregulares e bloqueou milhões de dispositivos que acessavam conteúdo ilegal.
Segundos os dados divulgados pela agência ao O DIA, em 2025, a área de fiscalização da Anatel inspecionou 1.135.659 produtos para telecomunicações. Sendo que 78% foram considerados piratas, com remoção de 886.064 do mercado, em um valor estimado de R$ 166 milhões.
Ainda de acordo com a Anatel, durante o ano de 2025 foram realizadas mais de 90 operações conjuntas de bloqueio de acesso a conteúdo protegido por direitos e interrupção do uso de dispositivo de TV Box não homologado. Pelo menos 44 dessas ações ocorreram durante eventos esportivos de transmissão ao vivo.
As ações são realizadas em parceria com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), Receita Federal, Polícia Federal (PF) e órgãos de defesa do consumidor.
Desde 2023 até dezembro de 2025, a Anatel já atuou no bloqueio de 40.165 IPs e 6.996 sites usados por TV boxes piratas.
Desde 2023 até dezembro de 2025, a Anatel já atuou no bloqueio de 40.165 IPs e 6.996 sites usados por TV boxes piratas.
Outras operações foram realizadas recentemente contra a pirataria. Em novembro de 2025, na Argentina, foram derrubados 22 aplicativos, como o BTV e o Red Play. Essa foi a segunda fase da investigação que, no início de novembro, já tinha tirado do ar outros 14 apps, incluindo o My Family Cinema e o TV Express.
Os aplicativos tinham mais de 6,2 milhões de assinantes ativos, sendo 4,6 milhões no Brasil, segundo a a Alianza, associação de empresas contra pirataria audiovisual na América Latina. A denúncia partiu da entidade, que vê a Argentina como base para integrantes do esquema buscarem clientes de países como Brasil, México, Equador e África do Sul.
Os aplicativos tinham mais de 6,2 milhões de assinantes ativos, sendo 4,6 milhões no Brasil, segundo a a Alianza, associação de empresas contra pirataria audiovisual na América Latina. A denúncia partiu da entidade, que vê a Argentina como base para integrantes do esquema buscarem clientes de países como Brasil, México, Equador e África do Sul.
Cada um dos usuários dos serviços pagava até US$ 5 por mês (R$ 27), o que equivale a um faturamento anual estimado em mais de US$ 150 milhões (R$ 800 milhões) na época das ações.
Três dias antes, no Brasil, uma força-tarefa bloqueou 535 sites e um aplicativo de streaming na oitava fase da Operação 404. Ela é liderada pelo Ministério da Justiça e, desde 2019, atua contra serviços na internet que violam direitos autorais.
Nessa fase da ação, foram cumpridos 44 mandados de busca e apreensão, quatro ordens de prisão preventiva e três prisões em flagrante.
Na época das operações, com serviços indisponíveis, várias pessoas que pagaram por assinaturas recorreram a canais como o ReclameAqui. Mas, como as plataformas são usadas para transmitir conteúdo pirateado, os clientes perdem seus direitos.
Segundo a Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA), a Operação 404 já cumpriu um total de 182 mandados de busca e apreensão e mais de 40 prisões.
"Esta operação é uma resposta do Estado brasileiro à criminalidade digital. Na fase atual, não apenas remove o conteúdo ilegal, mas ataca diretamente a infraestrutura e a cadeia de financiamento da pirataria, mostrando que a internet não é um território sem lei", afirmou Rodney da Silva, diretor de Operações e de Inteligência (Diopi), da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), do Ministério da Justiça.
Os investigados são suspeitos de distribuir conteúdo pirata em sites e plataformas digitais, prática que causa prejuízos significativos à economia e à indústria criativa, além de ferir os direitos de autores e artistas.
No Brasil, a pena para quem pratica esse tipo de crime é de reclusão de dois a quatro anos e multa. Os investigados podem ser indiciados ainda por associação criminosa e lavagem de capitais.
No Brasil, a pena para quem pratica esse tipo de crime é de reclusão de dois a quatro anos e multa. Os investigados podem ser indiciados ainda por associação criminosa e lavagem de capitais.
A reportagem entrou em contato com a Receita Federal e Polícia Federal (PF), mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.
Leia mais

Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.