Publicado 12/01/2026 05:00
Os altos preços elevados de alimentos e bebidas em aeroportos e rodoviárias do Rio de Janeiro são alvo de reclamações antigas de viajantes. Muitos passageiros relatam que, para evitar gastos excessivos, preferem se alimentar em casa antes da viagem. Um lanche simples nesses terminais costuma custar bem mais do que produtos semelhantes vendidos em estabelecimentos nas redondezas, o que gera insatisfação entre os consumidores e reforça a percepção de abuso nos valores praticados.
PublicidadePara entender os critérios adotados na definição dos preços e apurar se há irregularidades na prática, O DIA ouviu órgãos de defesa do consumidor e as administrações dos principais aeroportos e rodoviárias do estado.
O Procon do Estado do Rio de Janeiro (Procon-RJ) destaca que os consumidores possuem direitos básicos que devem ser respeitados em qualquer estabelecimento comercial. Entre eles, estão a obrigação de os preços estarem claramente informados antes da compra e a proibição da venda de produtos vencidos ou em condições inadequadas de conservação. O órgão ressalta, no entanto, que não têm competência legal para interferir nos valores cobrados.
"É importante esclarecer que no Brasil não tem tabelamento oficial de preços para alimentos e bebidas. Os comerciantes têm liberdade para definir quanto cobrar, considerando seus custos e sua estratégia de negócio. Isso faz parte do sistema de livre mercado adotado pelo país", informou.
O Procon-RJ também esclarece que nem todo valor elevado configura prática abusiva. Segundo o órgão, preços mais altos podem ser justificados por custos operacionais, logística ou características específicas de aeroportos e rodoviárias. Já o aumento abusivo ocorre quando há elevação sem motivo plausível, especialmente em situações nas quais o consumidor não dispõe de alternativas de escolha.
A Secretaria Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor, por meio do Procon Carioca, destaca que pessoas que se sintam prejudicadas por valores considerados abusivos podem formalizar denúncias para que os casos sejam apurados. As reclamações permitem que o órgão atue diretamente na fiscalização dos estabelecimentos e na verificação de eventuais irregularidades.
"A partir do registro da denúncia, o Procon Carioca pode instaurar procedimentos administrativos, fiscalizar o local e, se for constatada a prática abusiva, aplicar as sanções previstas em lei", informou a secretaria.
Preços de alimentos pesam no bolso do viajante
O estudante de Ciências da Computação Juca Abreu, de 19 anos, morador de Copacabana, na Zona Sul do Rio, relata que, ao viajar para a Paraíba pelo Aeroporto Santos Dumont, em agosto do ano passado, desistiu de consumir nos estabelecimentos do local diante dos preços elevados. Segundo ele, os valores praticados eram tão altos que o fizeram optar por não comprar nenhum produto.
"Os preços são absurdos. Tudo a preço de ouro. Não faz sentido nenhum um pão de queijo custar o valor de um almoço. O contraste é muito grande quando comparamos com as lojas nas redondezas, onde, com o mesmo dinheiro, dá para comprar refeições completas", afirmou.
Abreu conta que, para escapar dos altos preços cobrados nos aeroportos, costuma se organizar para fazer a refeição ainda em casa ou levar um lanche na mochila. Na avaliação dele, os comerciantes se aproveitam da falta de opções dentro dos terminais para praticar valores elevados.
Na mesma linha, a moradora de Belém, no Pará, Nice Lobato, de 65 anos, diz que prefere se planejar antes das viagens, levando sanduíches e evitando consumir em rodoviárias. Ela viaja quase todos os anos ao Rio de Janeiro para visitar a família e destaca que os preços praticados na Rodoviária Novo Rio são "inacreditáveis".
"Eu tentei comprar um café com pão de queijo na rodoviária. O café era pequeno e custava R$ 8; o pão de queijo sairia por volta de R$ 10. No total, ficaria quase R$ 18 por um lanche bem simples. Fora do terminal, costumo pagar no máximo R$ 10 pelos dois, saindo praticamente pela metade do preço", relatou.
Nice afirma que, ao se deparar com os valores no cardápio, ficou surpresa e considerou o preço abusivo. Depois de refletir, acabou desistindo da compra, por não achar que valia a pena pagar tudo isso por um lanche simples.
Relatos semelhantes também aparecem entre pessoas que utilizam aeroportos com frequência. A médica Luiza Leal, de 34 anos, que reside em Niterói, diz que os valores cobrados por alimentos no Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) influenciam diretamente o consumo durante as viagens. Ela esteve no local em outubro do ano passado, quando embarcou para Fortaleza, e conta que os preços a surpreenderam.
"Os valores são cada vez mais exorbitantes. Eu cheguei a pagar R$ 10 em uma garrafa de água no Galeão. É o mesmo produto que fora do aeroporto custa bem menos. Mas, lá dentro, você acaba ficando sem alternativa", destaca.
Diante desse cenário, Luiza afirma que se programa para não consumir nesses espaços e só compra alimentos nos aeroportos quando não há opção, como em voos longos ou durante escalas demoradas.
Apesar das reclamações recorrentes, nem todas as experiências são negativas. O empreendedor Rennan Azevedo, de 31 anos, conta que, em dezembro de 2025, ao embarcar para Porto de Galinhas, em Pernambuco, não percebeu diferença significativa entre os valores praticados no Aeroporto do Galeão e os cobrados em estabelecimentos fora do terminal.
"Comprei 20 pães de queijo e um refrigerante por R$ 32. Era praticamente o mesmo preço de fora do aeroporto. Até me espantei quando vi, porque esperava que fosse mais caro. Não achei o valor exagerado", avalia.
Em meio a relatos que apontam preços elevados e a percepção de falta de alternativas dentro dos terminais, consumidores dizem adaptar hábitos para evitar gastos extras durante as viagens. Ainda assim, há quem não identifique diferenças relevantes nos valores cobrados. Procuradas por O DIA, as empresas responsáveis pelos estabelecimentos e pela administração dos terminais se posicionaram sobre o tema.
Posicionamentos das empresas
Em nota, a concessionária RioGaleão, que administra o aeroporto internacional do Rio de Janeiro, declarou que trabalha continuamente no desenvolvimento comercial do local, com o objetivo de oferecer um mix variado e competitivo de lojas, capaz de atender diferentes perfis de passageiros e faixas de consumo.
"A concessionária informa que os valores praticados nos estabelecimentos comerciais do aeroporto são de responsabilidade exclusiva dos lojistas. Ainda assim, acompanha e monitora os preços para que eles sejam compatíveis com os valores de mercado", esclarece.
Já a Infraero, responsável pela administração do Aeroporto Santos Dumont, informou que seus preços praticados no terminal estão "alinhados com o mercado da capital ou cidade em que o aeroporto está localizado, como os praticados em shopping centers e centro de negócios".
A concessionária encargada pela gestão da Rodoviária Novo Rio afirmou que os valores cobrados no local são definidos exclusivamente pelos próprios estabelecimentos. Segundo a empresa, a atuação da Rodoviária do Rio se limita ao gerenciamento e operação do terminal, sem ingerência sobre a política comercial dos lojistas.
"É comum que estabelecimentos localizados em terminais de transporte apresentem preços diferentes daqueles praticados fora desses ambientes. Isso se deve em função de características específicas da operação, como horários ampliados, maior fluxo de pessoas e demandas operacionais próprias desse tipo de espaço", disse.
Na mesma linha, a Companhia de Desenvolvimento Rodoviário e Terminais do Estado do Rio de Janeiro (Coderte), que administra o Terminal Rodoviário Governador Roberto Silveira, em Niterói, ressaltou que não tem ingerência do que é cobrado pelos comerciantes, que seguem a lei da oferta e da procura.
*Reportagem do estagiário João Santos, sob supervisão de Marlucio Luna
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