Dólar reverte onda de desvalorização e volta a subir nesta quarta-feira (18)Valter Campanato/Agência Brasil
Publicado 18/03/2026 18:43
Após duas sessões consecutivas de baixa, com desvalorização acumulada de 2,19%, o dólar à vista encerrou esta quarta-feira, 18, em alta de 0,90%, a R$ 5,2468, na máxima do dia. A moeda americana ganhou força lá fora após declarações cautelosas do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, esfriarem as apostas em torno da retomada de cortes de juros nos EUA.
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Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY ultrapassou a marca dos 100,000 pontos durante a fala de Powell e registrou máxima aos 100,222, nível perto do qual girava no fim do dia. Apesar do repique, o Dollar Index ainda acumula leve desvalorização na semana, cerca de 0,30%. Os preços do petróleo voltaram a subir, com o Brent para maio perto dos US$ 110,00 o barril, em meio à continuidade do conflito on Oriente Médio.
À exceção do peso colombiano, o real mostrou perdas inferiores a de seus principais pares, considerando o grupo das divisas latino-americanas e o rand sul-africano. Analistas ponderam que a perspectiva de melhoria dos termos de troca com a escalada do petróleo e a taxa de juros real elevada mitigam os efeitos da aversão global ao risco sobre a moeda brasileira.
A expectativa majoritária é que o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie uma redução da taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano. Uma ala minoritária aposta em manutenção dos juros. Seja qual for o veredicto do comitê, tanto a taxa local quanto o diferencial entre juros interno e externo permanecerão elevados, desencorajando a manutenção de posições em moeda americana.
"Vemos um aumento da entrada de recursos por parte de exportadores para aproveitar a alta recente do dólar. A mudança de patamar do preço do petróleo pode favorecer a balança comercial. Além disso, podemos ver uma volta do carry quando a aversão ao risco lá fora diminuir, porque nossos juros ainda são muito altos", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.
Como esperado, o Fed manteve a taxa básica de juros dos EUA na faixa entre 3,50% e 3,75%. O diretor Stephen Miran, indicado ao posto pelo presidente Donald Trump, foi voz solitária a favor de um afrouxamento monetário, ao votar por redução de 25 pontos-base. Tido como outra figura "dovish" entre dirigentes do Fed, o diretor Christopher Waller desta vez optou por manutenção. O tom do comunicado foi considerado levemente duro, ao mencionar crescimento sólido, inflação um pouco elevada e incertezas provocadas pela guerra no Oriente Médio.
A mediana das projeções dos integrantes do Fed, refletidas no gráfico de pontos, ainda é de corte de juros neste ano nos EUA, apesar do aumento das expectativas de inflação. Em entrevista coletiva, Powell disse que sem progresso no processo de desinflação, não haverá redução da taxa básica e pontuou que parte dos membros do Fed já está menos inclinada a um afrouxamento monetário. O chairman foi além e revelou que surgiu nos debates a possibilidade de que o próximo passo do BC seja uma elevação dos juros.
"A mensagem de Powell foi um pouco mais dura. Ele condicionou a condução da política monetária principalmente ao progresso na inflação, ao mesmo tempo em que mostrou mais tranquilidade em relação ao mercado de trabalho", afirma a economista Isadora Junqueira, da AZ Quest, que ressalta o aumento simultâneo nas projeções de inflação e crescimento, o que surpreende, dado que a guerra "tem de alguma forma" um efeito de baixa sobre a atividade.
Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que os investidores passaram a ver como mais provável uma redução dos juros nos EUA apenas em dezembro. Contudo, as chances de manutenção dos juros neste ano avançaram, passando da faixa de 35% para 42%. As expectativas se voltam agora para a troca no comando do Fed, com substituição de Powell, cujo mandato expira em maio, por Kevin Warsh, indicado por Donald Trump, que defendeu nesta semana uma redução da taxa de juros.
"Diante do impacto dos preços do petróleo sobre a inflação e da manutenção de um ambiente de crescimento moderado para a economia americana, o Fed não deverá mais reduzir os juros ao longo desse ano", afirma o economista Marcelo Fonseca, economista do Grupo CVPAR.
Bolsa
Em tarde de deliberação sobre juros dos EUA em linha com o esperado, o Ibovespa conseguia manter o sinal positivo pelo terceiro dia, ainda que em grau inferior ao das sessões anteriores, mas perdeu força, em direção ao campo negativo no fechamento, acompanhando a piora vista em Nova York durante a entrevista coletiva do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, que levou as referências de lá às mínimas da sessão, após as 15h30.
Nesta quarta-feira, 18, oscilou entre mínima de 179.575,91 e máxima de 181.550,83 (+0,63%), tocada no minuto que precedeu a decisão do Fed, tendo iniciado a sessão aos 180.408.53 pontos. Ao fim, marcava 179.639,91 pontos, em baixa de 0,43%. Na semana, o Ibovespa avança 1,12%, com perdas no mês ainda a 4,85%. No ano, sobe 11,49%.
O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve manteve a taxa dos Fed Funds na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, segundo comunicado divulgado no período da tarde que precede a decisão, ainda nesta quarta, do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC brasileiro. A manutenção da taxa de referência americana era amplamente esperada por analistas. Contudo, a decisão não foi unânime, uma vez que o diretor Stephen Miran votou por um corte de 25 pontos-base. O Fed manteve a taxa sobre compulsórios em 3,65% e a taxa de desconto em 3,75%.
No fechamento, as principais referências de ações em Nova York mostravam perdas de 1,63% (Dow Jones), 1,36% (S&P 500) e 1,46% (Nasdaq). O Brent manteve alta de quase 4% em Londres, a US$ 107 por barril. Assim, Petrobras teve avanço de 1,77% (ON) e de 1,34% (PN) no encerramento na B3, contribuindo para mitigar perdas do índice.
Principal papel do Ibovespa, Vale ON caiu 2,32% e as perdas entre os maiores bancos, que eram contidas nesta quarta-feira, pioraram também em linha com Nova York, chegando a 1,50% (Santander Unit) no fechamento, com ações como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil mostrando perdas de ao menos 1% no encerramento, coincidindo em parte dos casos com a mínima do dia. Na ponta ganhadora, Eneva (+15,08%), Copel (+5,56%), Prio (+5,33%) e MBRF (+2,47%). No lado oposto, Hapvida (-4,76%), Yduqs (-4,62%), CSN (-4,42%) e Azzas (-3,18%).
"O ponto central da reunião do BC dos EUA esteve menos no movimento em si e mais na mensagem transmitida ao mercado. Ao preservar a taxa pela segunda vez consecutiva e reiterar um discurso cauteloso, o Fed reforçou que ainda não vê espaço para antecipar um ciclo mais intenso de cortes, mesmo diante de sinais iniciais de desaceleração da atividade e de enfraquecimento gradual do mercado de trabalho", diz Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.
"O que realmente chama atenção agora é o cenário de pressões inflacionárias que voltaram a ganhar força com a alta do petróleo, impulsionada pela guerra com o Irã", aponta Alison Correia, analista e cofundador da Dom Investimentos, enfatizando a falta de unanimidade na decisão desta tarde, que indica "divergências internas relevantes". "O próprio comunicado reforça esse cenário de incerteza ao mencionar que os desdobramentos no Oriente Médio ainda são imprevisíveis para a economia americana, e que o comitê segue atento aos riscos relacionados ao duplo mandato do Fed, referente a inflação e emprego", acrescenta o analista.
O presidente do Federal Reserve afirmou na entrevista coletiva que se a autoridade monetária não observar melhora com relação à inflação, não haverá corte na taxa de juros. A projeção dele é de que houve progresso, mas não tanto quanto o desejado em relação aos preços. Powell disse ainda que surgiu a possibilidade de que o próximo passo do banco central americano seja um aumento de juros, e sinalizou que os desdobramento em torno do Oriente Médio serão um grande fator na deliberação do Fed.
Após os comentários do período da tarde, o mercado financeiro passou a se posicionar, majoritariamente, para a retomada do ciclo de cortes de juros pelo Fed apenas em dezembro, e não mais em outubro.
Juros
Os juros futuros chegaram a ensaiar uma virada de sinal para leve queda em toda a curva na segunda etapa do pregão desta superquarta, seguindo a perda de força das cotações do petróleo, mas o movimento não perdurou, uma vez que a commodity passou a subir novamente e dólar e retornos dos Treasuries aceleraram a alta. Assim, os vencimentos intermediários e longos voltaram a avançar de 6 a 7 pontos-base ao longo da tarde.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 passou de 14,154% no ajuste de terça para 14,2%. O DI para janeiro de 2029 aumentou de 13,644%, no ajuste anterior, para 13,755%. O DI para 2031 subiu a 13,895%, de 13,796%.
A sinalização dada pelo comunicado do Fed e reforçada em coletiva de imprensa pelo presidente da instituição, Jerome Powell, foi considerada cautelosa, e adiou perspectivas do mercado para o aguardado corte de juros deste ano, de outubro para dezembro, segundo o CME Group.
Economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano disse que não viu efeito da decisão de política monetária nos EUA no mercado local de juros. Os DIs chegaram a mostrar comportamento melhor na abertura, diz Serrano, mas se consolidaram em alta, ainda em meio à incerteza sobre os próximos desdobramentos da guerra que pressiona os preços do petróleo e, no cenário doméstico, à possibilidade de uma greve dos caminhoneiros no radar.
"Os preços dos combustíveis estão subindo já antes de um reajuste da Petrobras, o diferencial em relação aos preços externos é gigantesco, já se discute uma isenção do ICMS para absorver a alta do diesel e da gasolina e, se tivermos reajustes integrais, haverá impacto de curto prazo na inflação", diz Serrano sobre o pano de fundo para o aumento nos prêmios dos DIs
É nesse contexto que os agentes continuam ajustando suas expectativas para o que o Copom vai decidir, destaca o economista. Em seus cálculos, a curva futura precificava no final desta tarde cerca de 90% de chance de redução de 25 pontos-base do juro básico, com 10% de chance de manutenção nos atuais 15%.
A maior volatilidade no cenário também está levando a uma visão mais conservadora dos agentes sobre o orçamento total de cortes previsto para 2026, acrescenta, com a taxa terminal apontada para este ano agora em 13,80%. "O mercado consolidou um cenário de cortes de 25 em 25 pontos", ressaltou o economista, quando, antes da eclosão da guerra, o debate era sobre para qual ritmo o BC poderia acelerar os ajustes depois de março.
Nesta manhã, de 10 milhões de títulos que estava disposto a recomprar, o Tesouro resgatou 3,150 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em 2030 e 2032, com volume financeiro de R$ 1,647 bilhão. Ao contrário dos dias anteriores, no entanto, não houve leilão de compra e venda de NTN-B na parte da tarde. "Se não teve, é sinalização de que o mercado está mais funcional na visão do Tesouro", disse à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren. "E o mercado evoluiu muito desde a sexta passada. Isso é indiscutível", avaliou.
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