Economistas apontam que efeitos vão além da alta dos combustíveisAgência Brasil
Publicado 23/03/2026 05:00
A guerra no Oriente Médio já começa a pesar no bolso do brasileiro, e o cenário pode piorar. Segundo o Ministério da Fazenda, um conflito prolongado, com danos à infraestrutura de petróleo e interrupções no transporte, pode elevar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,6% para 3,7%. O DIA conversou com especialistas para entender as consequências no cotidiano da população e como se preparar para a alta dos preços.

De acordo com dados divulgados em no dia pela Secretaria de Política Econômica (SPE), além do aumento do Índice de Preços ao Consmuidor Amplo (IPCA), a estimativa é de que a cotação média do petróleo por barril passe de US$ 65,97 para US$ 73,09, uma alta de cerca de 10,8%. Por outro lado, a projeção para a taxa de câmbio média do dólar em 2026 caiu de R$ 5,43 para R$ 5,32, o que ajuda a moderar o impacto inflacionário. A pasta manteve a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano em 2,3%.

O gestor financeiro Marlon Glaciano explica a importância do petróleo na economia nacional e como a variação de preço afeta outros setores.
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Gestor financeiro Marlon Glaciano - Arquivo pessoal
Gestor financeiro Marlon GlacianoArquivo pessoal


"O impacto chega pelo petróleo, que é um preço global e sensível a conflitos. Quando ele sobe, o Brasil sente primeiro no combustível e, com algum atraso, no custo de transporte e de vários produtos", aponta. "Os primeiros sinais já aparecem nas expectativas de inflação, ainda de forma moderada, mas indicando uma pressão que tende a se consolidar se o cenário persistir."

Glaciano pontua que as áreas mais impactadas são as de transporte, logística, alimentos e indústrias, "que dependem de energia ou derivados de petróleo". Mas os efeitos do conflito são ainda mais abrangentes. Na prática, diz o gestor financeiro, "qualquer setor que dependa de deslocamento ou tenha custos relevantes com combustível acaba sendo afetado com mais intensidade".

O cirurgião-dentista Felipe Velten Barbosa, de 42 anos, conta que já sente os primeiros reflexos do conflito no Oriente Médio. "A gente vê isso principalmente no aumento de insumos, equipamentos e até no custo operacional geral, porque tudo acaba sendo influenciado pelo dólar e pelo cenário global. Não é algo imediato, mas vai chegando aos poucos."
Cirurgião-dentista Felipe Velten Barbosa, de 42 anosArquivo pessoal


Segundo ele, a oscilação dos preços alterou o seu dia a dia. "Mudou a forma como apresentamos os tratamentos. Hoje, a gente precisa ser mais estratégico, oferecer opções, facilitar o pagamento e mostrar mais valor, porque o paciente também está sentindo no bolso e fica mais cauteloso para decidir."

O motorista de aplicativo e taxista Admir Boer Júnior, de 49 anos, também afirma que sentiu a oscilação dos preços nas últimas semanas, como profissional e consumidor.
Motorista de aplicativo e taxista Admir Boer Júnior, de 49 anosArquivo pessoal


"Já percebi aumentos no combustível desde a semana passada. Isso afeta diretamente o dia a dia de trabalho, pois os valores do combustível cresceram em torno de R$ 0,50 a R$ 0,80 por litro", relata. "Esse aumento na cobrança não foi repassado para os passageiros, então fica inviável aceitar algumas corridas. Senão, acabo pagando para trabalhar", acrescenta.

Já a assistente social aposentada Lucia Ribeiro, de 67 anos, diz que tem sentido diferença nos preços da carne e compartilha as estratégias para economizar.
Assistente social aposentada Lucia Ribeiro, de 67 anosArquivo pessoal


"Eu tenho percebido um aumento no preço das carnes. Normalmente, já costumo aproveitar as ofertas, fazendo um pequeno estoque de produtos duráveis. Produtos alimentícios, cujo preço considero muito elevado, compro apenas em caso de extrema necessidade. Quanto ao lazer, diminuo a frequência, mas não deixo de aproveitar totalmente."
A guerra começou em 28 de fevereiro, quando Israel e Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã, desencadeando um conflito que rapidamente se espalhou por todo o Oriente Médio.

Procurada pelo jornal O DIA, o Conselho da Infraestrutura da Confederação Nacional da Indústria (Coinfra/CNI) se manifestou por meio de nota:
"Como ocorre em qualquer guerra no Oriente Médio, poderá haver impactos sobre cadeias produtivas, como a do petróleo e seus derivados, gás natural e de transporte. As tensões na região criam volatilidade nos mercados globais com consequências diretas para a economia brasileira".

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), por sua vez, destacou que "solicitou, na terça (10), ao Ministério da Fazenda e ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) a redução imediata e temporária das alíquotas de tributos federais e estaduais incidentes sobre a importação, produção, distribuição e comercialização do óleo diesel".

"O momento é particularmente sensível para o setor agropecuário, marcado pelo plantio e pela colheita da segunda safra, período em que o custo do combustível tem efeito direto sobre as despesas de produção e sobre a atividade econômica", explicou o presidente da CNA, João Martins.

O jornal O DIA entrou em contato com a Confederação Nacional do Transporte, que informou estar avaliando o cenário para a conclusão de um posicionamento oficial. O espaço segue aberto.

Aumento nos preços

Embora os primeiros sintomas já sejam sentidos pelos consumidores, as incertezas sobre as consequências do conflito são grandes. Ronaldo Werneck, especialista em comércio internacional, enfatiza que ainda é cedo para falar em um aumento amplo dos preços.
Ronaldo Werneck, especialista em comércio internacionalEduardo Santos


"Eu acho que ainda não dá para dizer que será generalizado. Isso vai depender muito da duração da guerra. Se o conflito se prolongar, aí sim o impacto tende a se espalhar de forma mais ampla. Mas, por enquanto, ainda existe muita incerteza", observa.

Já a advogada tributarista Mary Elbe Queiroz, presidente do Centro Nacional para a Prevenção e Resolução de Conflitos Tributários (Cenapret) e sócia do Queiroz Advogados, afirma que a alta do petróleo afeta diretamente os tributos sobre o consumo.
Advogada tributarista Mary Elbe QueirozArquivo pessoal


"A elevação do petróleo e do câmbio tem reflexo direto na base de incidência de tributos sobre o consumo. Quando o preço sobe, a carga tributária acompanha, ainda que não exista aumento formal de alíquota. Isso gera um efeito arrecadatório automático e pode pressionar empresas com margens já comprimidas", explica.

Segundo ela, setores intensivos em logística e energia tendem a sentir primeiro o impacto, mas a repercussão se espalha por toda a cadeia produtiva.

O presidente do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) e do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio), Aldo Gonçalves, indica que o prolongamento do conflito pode "trazer efeitos perturbadores para a economia brasileira".

"O comerciante poderá ter perdas na medida em que os fornecedores aumentem os preços e não seja possível repassá-los ao consumidor, que já se encontra bastante endividado e, com a manutenção dos juros elevados, deverá ter dificuldades com novos gastos via crediário", frisa.

"Os reflexos do conflito militar internacional sobre a economia acarretarão o encarecimento das importações, principalmente em razão do preço do petróleo, provavelmente com o dólar subindo também. Espera-se que haja repique da inflação, tendo como corolário dificuldades para o comerciante conseguir vender mais."

Dicas para o dia a dia

Quem precisa economizar para manter as contas em dia no fim do mês sabe que qualquer aumento de preços impacta diretamente o planejamento familiar.

O especialista em finanças Marlon Glaciano destaca que, neste momento, o foco deve estar em proteger o orçamento e preservar o poder de compra.

"Isso passa por revisar gastos, reduzir desperdícios, evitar dívidas desnecessárias e manter liquidez. Em momentos de incerteza, a melhor estratégia não é buscar mais retorno, mas garantir equilíbrio financeiro e capacidade de adaptação."

Para driblar o aumento de preços das últimas semanas, a especialista em gestão de pequenas e médias empresas Beatriz Vieira, de 45 anos, conta que precisou alterar a rotina de trabalho.
Beatriz Vieira, de 45 anos, conta que precisou alterar a rotina de trabalhoArquivo pessoal


"Sem dúvida, essa realidade me fez adaptar a forma de prestação de consultoria, com foco ainda maior em gestão de caixa, redução de desperdícios, revisão de custos fixos e variáveis e tomada de decisão baseada em dados, além de propor soluções mais enxutas e acessíveis para que o empresário consiga manter a gestão estratégica mesmo em cenários adversos."

Beatriz relata que também precisou fazer mudanças em casa. "Acabo aplicando no meu dia a dia pessoal os mesmos princípios que utilizo com meus clientes, como controle rigoroso do fluxo de caixa, priorização de despesas essenciais, planejamento financeiro de curto prazo e criação de reservas para momentos de instabilidade, garantindo maior segurança e previsibilidade."

O especialista em comércio internacional Ronaldo Werneck afirma que, embora os Estados Unidos e Israel tenham iniciado a ofensiva contra o Irã no mês passado, os efeitos para o consumidor brasileiro já são conhecidos.

"Quem já viveu períodos de inflação alta sabe bem: comparar preços, substituir marcas mais caras por mais baratas e ter disciplina no consumo. É fazer o que as gerações anteriores faziam: pesquisar, negociar e não gastar por impulso. Isso continua sendo o mais eficiente."
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