Serasa identificou 2,6 milhões de pessoas ou contas bancárias com indícios de uso fraudulento do CPFSerasa/Divulgação
Publicado 30/03/2026 05:00
Um recente estudo da Serasa Experian revelou que, em 2025, 2,6 milhões de pessoas ou contas bancárias apresentavam indícios de uso fraudulento do CPF. Quadrilhas utilizam o documento de terceiros para aplicar golpes, repassar e receber valores provenientes de atividades criminosas. As vítimas se tornam “laranjas” sem saber. Na comparação com 2023, houve aumento de 62% neste tipo de ilícito.

Mas há um outro perigo para o cidadão. Além das contas bancárias, as quadrilhas abrem empresas no nome do titular do CPF, solicitam empréstimos e obtêm cartões de crédito. A pessoa só toma conhecimento quando tem o nome negativado. Como os criminosos conseguem os dados das vítimas? Na deep web, há um comércio em franca expansão. Criminosos vendem pacotes de informações pessoais de milhares de potenciais vítimas — nome, endereço, números de RG e CPF.

De posse dos dados, os golpistas “criam” uma carteira de identidade com outra fotografia. A partir daí, a vida financeira da vítima entra em colapso. O diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude da Serasa, Leandro Bartolassi, explica que o CPF “laranja” encobre o verdadeiro beneficiário do golpe:

“Essa utilização pode ocorrer sem o conhecimento do titular, a partir de dados vazados e abertura indevida de contas. Em golpes com transferências via Pix, essas contas atuam como intermediárias, dificultando a rastreabilidade do dinheiro até o destino final”, esclarece.

O estudo da Serasa indica um gargalo operacional relevante para o ecossistema financeiro: apesar do volume expressivo de perfis com indícios de uso como “laranjas” em 2025, apenas 3,2% foram efetivamente detectados. A maior parte permaneceu fora do radar em função do cenário associado principalmente à ausência de monitoramento consistente e do uso limitado de tecnologias de autenticação, além da própria complexidade do comportamento — que nem sempre aparece nos meios tradicionais de verificação de identidade.

“O uso de contas laranja é um dos mecanismos que mais ‘dá aparência de normalidade’ a uma fraude, porque cria uma camada intermediária antes do beneficiário final, o golpista. Em 2025, os dados mostraram que enfrentar esse tipo de crime exige uma combinação de inteligência analítica, validação de identidade e monitoramento comportamental durante toda a jornada, do onboarding às transações”, afirma Bartolassi. “Quando a identificação acontece cedo, as instituições conseguem reduzir perdas e também limitar a reutilização dessas contas em repasses via Pix e em outras modalidades”, alerta o executivo.

Vítimas indefesas

Os casos de “laranjas” involuntários se multiplicaram nos últimos anos. A pedido dos entrevistados, suas identidades não serão reveladas. Eles receberão nomes fictícios. Além do receio de represálias por parte dos golpistas, todos admitem ter vergonha da situação.

Em maio do ano passado, o vendedor João, de 27 anos, chegou para mais um dia de trabalho em uma loja no Centro do Rio, quando foi surpreendido por policiais civis. Ele foi detido, suspeito de integrar uma quadrilha que aplicava golpes pela internet. Uma conta aberta em nome dele era o destino do dinheiro. Levado para a delegacia, ficou preso por dois dias.

“Imagina o que é você sair do seu trabalho algemado, preso na frente dos colegas, do patrão, dos clientes. Na hora, não entendi direito o que estava acontecendo. Só na delegacia eu soube que tinham aberto uma conta em um banco desses da internet e usavam essa conta para receber o dinheiro dos golpes. Foram dois dias vivendo no inferno”, relembra.

As investigações mostraram que a conta fora aberta em São Paulo com um RG falso, mas o CPF usado era o de João. O endereço fornecido pelos golpistas era o de um galpão industrial abandonado, na periferia da capital paulista.

“Fui solto, mas o caso ainda está aberto, Volta e meia tenho que comparecer à delegacia e repetir a mesma história. A minha vida ainda não voltou ao normal. A sorte foi que meu patrão acreditou em mim e não me demitiu. Só eu sei o que estou passando”, lamenta o vendedor.

A professora Maria, de 49 anos, não teve problemas com a polícia, mas viu sua vida virar pelo avesso ao descobrir que era titular de uma empresa de distribuição de alimentos em Sergipe – estado onde jamais esteve. Ao tentar financiar um automóvel, soube que diversos títulos protestados tinham sido protestados em cartório, além da existência de processos trabalhistas em que ela era citada. Havia ainda dívidas de empréstimos não quitados e faturas de cartões de crédito em atraso que ultrapassavam R$ 100 mil.

“Eu quase enfartei na concessionária quando o vendedor me contou que o financiamento não seria concedido por causa de ‘pendências’. Nunca tive nome sujo, sempre paguei minhas contas em dia. Falei com um advogado. Ele fez o levantamento e descobriu mais de R$ 600 mil em dívidas dessa empresa registrada em meu nome. Tinha de tudo: empréstimos, pagamentos atrasados de fornecedores, ações trabalhistas, impostos… Isso tem mais de três anos. Já gastei muito dinheiro com advogado tentando resolver a situação, mas sempre aparece uma dívida nova para pagar. Não sei quando esse desespero vai acabar”, relata.

O maior temor de Maria é perder o apartamento comprado há 20 anos. O imóvel chegou a ser colocado em leilão para pagamento das dívidas, mas o advogado conseguiu sustar a decisão judicial. A professora conta que, por causa dessa fraude, desenvolveu problemas psicológicos e precisou se afastar do trabalho.

O motorista de aplicativo Antônio também virou “laranja” de golpistas. Ele é registrado como microempreendedor individual (MEI), mas descobriu que também constava como titular de uma microempresa de revenda de produtos eletrônicos em Foz do Iguaçu, no Paraná:

“Um dia, entrei no site da Receita e fiz uma pesquisa para saber como estava o meu registro de MEI. Como fiquei sem pagar a contribuição mensal por muitos meses, queria saber como estava a minha situação. Foi quando descobri que tinha essa empresa aberta em meu nome há dois meses. Aí bateu o desespero. Sabia que estavam aplicando golpe com o meu nome. Fui na delegacia, registrei boletim de ocorrência e entrei em contato com a Receita. Por sorte, ainda não tinham feito dívidas. Escapei por pouco”, conta.

Como evitar ser ‘laranja’

Para impedir o uso indevido do seu CPF na abertura de empresas, a Receita Federal disponibiliza uma ferramenta gratuita no portal RedeSim, na plataforma Gov.br. O bloqueio impede que terceiros usem no quadro societário de novos CNPJs.

O passo a passo para efetuar o bloqueio é simples:

- Vá ao site da RedeSim ou diretamente ao Gov.br.
 
- Faça login com sua conta Gov.br (é necessário ter nível Prata ou Ouro para maior segurança).

- Procure pela opção"Proteger meu CPF" ou "Impedir/Permitir participação do meu CPF no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ)".

- Selecione a opção para impedir a participação em CNPJ e confirme a ação.

Contas bancárias

Para monitorar as contas bancárias registradas em um CPF, o Banco Central disponibilizou em dezembro a ferramenta BC Protege+, serviço gratuito que permite que pessoas e empresas comuniquem ao sistema financeiro que não desejam ter novas contas.

A ferramenta estará disponível no site do Banco Central, dentro da área logada do Meu BC. Dentro do sistema, é possível ativar ou desativar a proteção a qualquer momento.

Se a proteção estiver ativada:

- a instituição financeira não pode abrir a conta nem incluir o correntista como titular ou representante numa conta;

- a instituição financeira deve avisar o cidadão que a proteção está ativada.

- o cidadão precisa desativar o serviço, se quiser seguir com a contratação.

A ferramenta também permite que a pessoa visualize quais instituições financeiras consultaram seu CPF ou CNPJ para fins de abertura de conta ou inclusão como titular/representante. Dentro do sistema, basta o cidadão acessar a área “Histórico de Consultas”.

Para ativar a proteção do CPF

- Acesse a área logada do Meu BC no site do Banco Central em: Serviços > Cidadão > Meu BC > BC Protege+
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- Entre com sua conta gov.br prata ou ouro com verificação em duas etapas.

- Clique em BC Protege+ no menu ou no card inicial.

- Na tela principal, escolha ativar a proteção.

Para desativar a proteção do CPF

- Acesse a área logada do Meu BC no site do Banco Central em: Serviços > Cidadão > Meu BC > BC Protege+.

- Entre com sua conta gov.br prata ou ouro com verificação em duas etapas.

- Clique em BC Protege+ no menu ou no card inicial.

- Na tela principal, escolha desativar a proteção.

- Escolha quanto tempo deseja manter a proteção desativada. Há a possibilidade de desativar por tempo indeterminado ou escolher uma data para a proteção ser reativada automaticamente.








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