Publicado 05/04/2026 05:00
Rio - Os supermercados estão indo além das gôndolas e entrando no setor financeiro. De olho em novas fontes de receita e na fidelização dos clientes, redes do varejo alimentar passaram a investir em serviços como crédito, pagamentos e carteiras digitais — movimento que já impacta tanto o mercado financeiro quanto o comportamento do consumidor. O DIA ouviu especialistas que explicam como essa transformação ocorre e quais são os efeitos para empresas e clientes.
Diante de margens historicamente apertadas no varejo alimentar, redes de supermercados passaram a ver o mercado financeiro como forma de ampliar receitas e fidelizar clientes. O movimento se insere no chamado "embedded finance", modelo que integra serviços como crédito e pagamentos à experiência de compra. No Brasil, esse mercado já movimenta cerca de R$ 23 bilhões por ano, segundo dados apresentados pela fintech Zoop durante o Web Summit Rio, e deve continuar em expansão nos próximos anos.
PublicidadeDiante de margens historicamente apertadas no varejo alimentar, redes de supermercados passaram a ver o mercado financeiro como forma de ampliar receitas e fidelizar clientes. O movimento se insere no chamado "embedded finance", modelo que integra serviços como crédito e pagamentos à experiência de compra. No Brasil, esse mercado já movimenta cerca de R$ 23 bilhões por ano, segundo dados apresentados pela fintech Zoop durante o Web Summit Rio, e deve continuar em expansão nos próximos anos.
O avanço das fintechs do varejo ocorre em um setor de grande peso econômico. Segundo o Ranking Abras, elaborado em parceria com a NielsenIQ, o faturamento do varejo alimentar brasileiro alcançou R$ 1,067 trilhão — o equivalente a 9,12% do Produto Interno Bruto (PIB). O setor 424 mil lojas, responsáveis por cerca de 30 milhões de atendimentos diários e mais de 9 milhões de empregos diretos e indiretos no país.
Na prática, o modelo cria uma nova fonte de receita para as empresas, que passam a ganhar com serviços como crédito, taxas e meios de pagamento, além de aumentar a fidelização dos clientes. Para o consumidor, os principais benefícios estão na conveniência e no acesso facilitado a serviços financeiros, com ofertas integradas à compra, como descontos, cashback e parcelamento direto no ponto de venda.
Para o presidente da Associação Brasileira de Fintechs, Diego Perez, a presença do varejo no sistema financeiro é resultado de um processo que vem se consolidando ao longo do tempo, mas que ganhou velocidade recentemente.
Para o presidente da Associação Brasileira de Fintechs, Diego Perez, a presença do varejo no sistema financeiro é resultado de um processo que vem se consolidando ao longo do tempo, mas que ganhou velocidade recentemente.
"A entrada de redes de supermercados em serviços financeiros não é exatamente nova. Há mais de uma década, varejistas já operam com soluções como cartões private label [da própria rede] e antecipação de recebíveis. O que mudou recentemente foi o nível de sofisticação e a velocidade dessa expansão, com a incorporação de contas digitais, meios de pagamento e crédito ao consumo", disse.
Ele destaca que esse avanço já é relevante no país e tende a se intensificar com o amadurecimento do ecossistema.
Ele destaca que esse avanço já é relevante no país e tende a se intensificar com o amadurecimento do ecossistema.
"Hoje, no Brasil, esse movimento já é relevante e segue em crescimento, especialmente entre grandes redes. A combinação de tecnologia, infraestrutura de Banking as a Service e um ambiente regulatório mais maduro tem acelerado essa transformação", observou.
Na avaliação do especialista, os supermercados já ocupam uma posição estratégica dentro do sistema financeiro, ainda que não atuem como bancos tradicionais.
Na avaliação do especialista, os supermercados já ocupam uma posição estratégica dentro do sistema financeiro, ainda que não atuem como bancos tradicionais.
"Os supermercados já movimentam grandes volumes financeiros, possuem alta capilaridade e oferecem serviços como crédito, pagamentos, contas digitais e até saque em loja", acrescentou.
Segundo Perez, esse movimento se liga diretamente ao avanço das finanças integradas no varejo:
Segundo Perez, esse movimento se liga diretamente ao avanço das finanças integradas no varejo:
"É um exemplo direto de embedded finance. Os serviços financeiros passam a fazer parte da jornada de consumo de forma integrada, muitas vezes quase imperceptível para o cliente, seja no momento do pagamento, na oferta de crédito no caixa ou no uso de contas e carteiras digitais dentro do próprio varejo".

O avanço das fintechs também reflete uma mudança no comportamento do consumidor brasileiro. Mais da metade da população (55%) se identifica como cliente de bancos digitais, fintechs ou provedores de pagamento, segundo o estudo Consumer Pulse, da TransUnion. Entre os entrevistados, 42% utilizam esses serviços há mais de três anos, e 63% afirmam que voltariam a contratar novos produtos financeiros com essas instituições.
A pesquisa confirma a aproximação entre varejo e serviços financeiros: 40% dos consumidores já utilizaram crédito oferecido por varejistas, como cartões de lojas e supermercados, e 21% afirmam ter feito compras parceladas diretamente com esses estabelecimentos.
A pesquisa confirma a aproximação entre varejo e serviços financeiros: 40% dos consumidores já utilizaram crédito oferecido por varejistas, como cartões de lojas e supermercados, e 21% afirmam ter feito compras parceladas diretamente com esses estabelecimentos.
Supermercados do Rio ainda avançam de forma tímida no modelo
No Rio de Janeiro, no entanto, a adoção desse modelo ainda ocorre de forma gradual. Em nota ao O DIA, a Associação dos Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj) afirma que "o movimento de fintechs no varejo supermercadista é embrionário no estado do Rio de Janeiro. Hoje, entre os associados da ASSERJ, iniciativas mais estruturadas estão concentradas em grandes grupos como Pão de Açúcar e Carrefour, enquanto as demais redes acompanham, estudam e avaliam essa evolução".
Ainda assim, de acordo com a entidade, o setor já reconhece o potencial estratégico da iniciativa:
No Rio de Janeiro, no entanto, a adoção desse modelo ainda ocorre de forma gradual. Em nota ao O DIA, a Associação dos Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj) afirma que "o movimento de fintechs no varejo supermercadista é embrionário no estado do Rio de Janeiro. Hoje, entre os associados da ASSERJ, iniciativas mais estruturadas estão concentradas em grandes grupos como Pão de Açúcar e Carrefour, enquanto as demais redes acompanham, estudam e avaliam essa evolução".
Ainda assim, de acordo com a entidade, o setor já reconhece o potencial estratégico da iniciativa:
"Os supermercadistas enxergam essa estratégia principalmente como uma oportunidade de inovação e diversificação de receita, mas já há a percepção de que, no médio prazo, pode se tornar uma necessidade competitiva. Ainda assim, os desafios são relevantes, especialmente em relação a investimento, tecnologia, regulação e gestão de risco, o que acaba sendo um desafio maior para redes de menor porte."
Além de representar uma nova fonte de receita, a oferta de serviços financeiros altera a relação com o consumidor.
Além de representar uma nova fonte de receita, a oferta de serviços financeiros altera a relação com o consumidor.
"Por outro lado, quando bem implementados, os serviços financeiros têm potencial de aumentar a fidelização dos clientes e a competitividade das redes regionais. Benefícios como descontos, cashback e facilidades de pagamento são os que mais atraem o consumidor, que já demonstra interesse por esse tipo de solução", afirmou a Asserj por meio de nota.
Para o presidente da Associação de Fintechs, esse modelo também tem impacto relevante na inclusão financeira e no acesso ao crédito.
Para o presidente da Associação de Fintechs, esse modelo também tem impacto relevante na inclusão financeira e no acesso ao crédito.
"Ao utilizar dados alternativos e histórico de consumo, os varejistas conseguem oferecer crédito a perfis que antes tinham dificuldade de acesso no sistema tradicional. Além disso, o aumento da concorrência tende a reduzir custos e ampliar a oferta de crédito", indicou Perez.
Por outro lado, ele ressalta que o avanço exige atenção.
"O acesso facilitado ao crédito pode levar ao uso excessivo, especialmente em compras por impulso ou parcelamentos recorrentes. Por isso, é essencial que haja educação financeira e comunicação clara sobre o uso consciente desses produtos", advertiu.
A tendência, segundo a Asserj, é de crescimento gradual do modelo no Estado: "O supermercado do futuro deve se consolidar como um hub de serviços, incluindo soluções financeiras. Não se trata de uma mudança imediata, mas de um movimento estrutural que precisa ser acompanhado de perto pelas empresas do setor. E é nesse estágio que se encontra a maior parte dos supermercadistas do Estado do Rio de Janeiro".
Do ponto de vista do comércio, o avanço das fintechs já provoca mudanças na dinâmica do varejo. O presidente do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) e do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio), Aldo Gonçalves, destaca os efeitos da digitalização.
A tendência, segundo a Asserj, é de crescimento gradual do modelo no Estado: "O supermercado do futuro deve se consolidar como um hub de serviços, incluindo soluções financeiras. Não se trata de uma mudança imediata, mas de um movimento estrutural que precisa ser acompanhado de perto pelas empresas do setor. E é nesse estágio que se encontra a maior parte dos supermercadistas do Estado do Rio de Janeiro".
Do ponto de vista do comércio, o avanço das fintechs já provoca mudanças na dinâmica do varejo. O presidente do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) e do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio), Aldo Gonçalves, destaca os efeitos da digitalização.
"É preciso deixar claro que o varejo se beneficia dos avanços tecnológicos ao usufruir das vantagens que a tecnologia exerce sobre os negócios, com ênfase nos custos, vendas, gestão e inovação de processos. Assim sendo, com os bancos digitais a inclusão social decorrente no mercado de consumo e do crédito tende a reverter-se através da maior aproximação com os clientes, estabelecendo nova conjuntura", disse.
De acordo com ele, a transformação já impacta diretamente os lojistas. "Desde o começo. O setor necessita estar alinhado com a evolução tecnológica que está com os consumidores. Desta forma, as vendas se tornam ágeis, seguras e confiáveis, gerando experiências favoráveis para todos atores envolvidos", ressaltou Gonçalves.
De acordo com ele, a transformação já impacta diretamente os lojistas. "Desde o começo. O setor necessita estar alinhado com a evolução tecnológica que está com os consumidores. Desta forma, as vendas se tornam ágeis, seguras e confiáveis, gerando experiências favoráveis para todos atores envolvidos", ressaltou Gonçalves.
Gonçalves também aponta mudanças no comportamento do consumidor e nos desafios de fidelização. "O papel do comerciante é atender ao mercado, suprindo carências e necessidades, criando atmosfera de realização, satisfazendo consumidores. Se não houver conexão, a fidelização pode ser mais difícil", avaliou.
Apesar disso, ele ressalta que o crédito e os meios de pagamento não são os únicos fatores determinantes para manter o cliente. "Ao nosso ver, a fidelização depende de outros fatores, tais como ações do pós-venda e iniciativas para fixar na memória do cliente a importância daquela compra e suas vantagens, como preço, ambiente da loja, facilidades e atendimento do vendedor. Com o on-line, o esforço do varejo em atrair o consumidor à loja tem sido hercúleo", afirmou.
Para pequenos e médios lojistas, o cenário exige adaptação e estratégia. "A estrutura dos mercados, ou dos setores do varejo, obriga, condiciona as MPEs a buscarem soluções inteligentes, preferencialmente em ações coletivas para barateamento junto aos fornecedores, ou em inserções isoladas na internet. Já que não dá para brigar com os grandes, pensar em medidas ou participações complementares pode auxiliar as empresas menores a sobreviverem diante das pressões competitivas", concluiu Gonçalves.
A reportagem entrou em contato com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.
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