Publicado 07/04/2026 21:05
A taxa básica de juros em 15% ao ano por um período prolongado tem asfixiado as empresas. Em 2025, o número de companhias que pediram recuperação judicial para renegociar dívidas pendentes, reestruturar-se e conseguir manter o negócio de pé foi recorde.
PublicidadeNo ano passado, 2.466 empresas entraram na Justiça com pedido de recuperação judicial. Foi o maior nível da série iniciada em 2012 e um número 13% maior do que no ano anterior, segundo levantamento da Serasa Experian. Para chegar a esses números, a datatech coletou os pedidos de recuperações judiciais em todas as comarcas do País.
Também no ano passado, a quantidade de processos de recuperação judicial que podem envolver várias empresas de um mesmo grupo econômico em situação difícil atingiu o maior nível em dez anos. Foram 977 processos de recuperação judicial em 2025, com crescimento de 5,5% ante 2024.
"Quando a gente olha exclusivamente para o número de CNPJs (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica), isto é, as empresas, é um volume bastante alarmante", diz a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.
No entanto, quando são cruzadas as informações sobre número de processos de recuperação judicial, que podem incluir várias empresas, com o total de CNPJs que pediram recuperação, chega-se a uma base mais real da história. Ou seja, é possível relativizar esse recorde de companhias em situação financeira difícil, que já é bastante preocupante, observa a economista.
A Serasa Experian interrompeu a divulgação dos dados de recuperações judiciais no primeiro trimestre do ano passado. A parada foi para reformular a metodologia do levantamento. Agora, o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da datatech passa a acompanhar o tema por duas métricas: o número de empresas que entraram com pedido de recuperação judicial e a quantidade de processos de recuperações judiciais.
Em 2016, quando o total de processos de recuperação judicial atingiu 1.011, o pico da série, o ambiente econômico que levou a esse recorde era bem diferente do cenário de 2025. No ano passado, foram 977 processos de recuperação judicial.
Camila lembra que, em 2016, o País enfrentava uma recessão econômica, com juros e inflação elevados. Configurava-se, assim, um problema mais macroeconômico, que afetava a solvência das empresas.
No momento atual, a conjuntura é outra. "Estamos num quadro de desaceleração da atividade econômica provocada por uma taxa de juros que é bastante elevada, o que encarece o crédito e cria dificuldade para as empresas rolarem as suas dívidas."
Na avaliação da economista, em 2016 a situação era mais grave para as empresas do que a atual. "Não estamos nem próximos do momento que vivemos lá em 2016", diz ela.
Foram dois anos de queda no Produto Interno Bruto (PIB). Agora, está sendo iniciado um ciclo de corte da taxa básica de juros, que estava em 15% e recuou para 14,75%, em ritmo mais lento por causa do risco inflacionário decorrente da guerra no Oriente Médio. Pelo Boletim Focus, do Banco Central, os juros ao final deste ciclo de corte estarão em 12,5%, mas a Serasa projeta 13%. "Ainda assim, será uma taxa bastante elevada e que traz bastante dificuldade para as empresas."
Agropecuária no topo
Levantamento da datatech mostra que empresas do setor agropecuário e de serviços responderam pelas maiores parcelas dos pedidos de recuperação judicial no ano passado.
Com 743 pedidos, a agropecuária respondeu por 30,1% do total de empresas, participação 3,8 pontos superior em relação ao ano anterior.
Na sequência estão as empresas prestadoras de serviços, com 739 pedidos de recuperação judicial em 2025, participação de 30% e avanço de 0,6 ponto porcentual em relação ao ano anterior.
Um resultado que chama atenção foi o forte avanço da participação das empresas do setor agropecuário nos pedidos de recuperações judiciais em 13 anos. Em 2012, as companhias do setor respondiam por 1,3% do total de pedidos. No ano passado, essa fatia chegou a 30,1%.
No mesmo período, a parcela da indústria caiu quase pela metade, de 34,4% para 18,2%; o comércio recuou de 31,2% para 21,7%; e os serviços, que eram 33,1% das empresas em recuperação judicial em 2012, caíram para 30%.
Camila atribuiu essas movimentações à importância que o agronegócio ganhou na economia brasileira. Estudo recente do departamento econômico do banco Itaú mostra que, quando se incluem atividades como o beneficiamento das safras, fabricação de insumos (como fertilizantes), além do comércio e do transporte, o setor responde por 21% do PIB. Em contrapartida, a fatia da indústria na geração de riqueza do País tem encolhido.
Além disso, a economista observa que o agronegócio tem riscos inerentes à atividade, como clima, preços em baixa dos grãos, pressões de custos como o de fertilizantes, que nos últimos tempos têm aumentado por conta do cenário internacional.
Esses fatores combinados acabam comprimindo margens e afetando a saúde financeira das empresas. "As empresas do setor acabam ficando expostas e se apoiando nesse instrumento para renegociar os seus passivos."
Os dados do indicador sobre recuperações judiciais no agronegócio consideram apenas os pedidos feitos por empresas. É que houve mudanças recentes na lei. Essas mudanças passaram a permitir pedidos de recuperação judicial por parte de produtores rurais como pessoa física (CPF).
Desaceleração
Apesar de o número de empresas pedindo recuperação judicial em 2025 ter sido recorde, o que se viu desde 2023 foi uma desaceleração, ano a ano, na taxa de crescimento dos pedidos.
Em 2023, o total de pedidos tinha crescido 36% em relação ao ano anterior. Em 2024, avançou 26% e no ano passado, 13%.
Camila diz que aumentou o número de empresas ativas no País. Esse foi um dos fatores que contribuíram para o crescimento dos pedidos de recuperações judiciais, além das dificuldades do cenário econômico.
De toda forma, apesar de a desaceleração dos últimos anos ter ocorrido em boa parte pelo efeito-base, isto é, pelo aumento da quantidade de empresas ativas e com restrições financeiras, a economista diz acreditar que a tendência é de as empresas continuarem enfrentando aperto. "O fato de o crescimento anual dos pedidos ter perdido fôlego em 2025 não garante que veremos o mesmo movimento em 2026", afirma.
Em janeiro deste ano, havia 8,7 milhões de CNPJs negativados, com dívida média de R$ 23.138,40 e cerca de sete restrições por CNPJ negativado.
Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, especialista em reestruturação de empresas, também vê um aumento do número de pedidos de recuperação judicial até meados do próximo ano. "Empresas que tinham algum fôlego financeiro estão perdendo esse fôlego por causa, principalmente, da taxa de juros", diz o especialista.
Além disso, o ritmo mais lento de corte da Selic do que inicialmente previsto por causa do conflito no Oriente Médio deve piorar a solvência das empresas, prevê.
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