Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária devido a questões de saúde mentalMarcelo Camargo/Agência Brasil
Publicado 20/04/2026 05:00
O mercado de trabalho no país sofre os efeitos de uma "epidemia silenciosa". De acordo com os dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), no ano passado foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária devido a questões psicológicas e comportamentais — aumento de 15,66% em relação a 2024. Desse total, 166.489 diagnósticos se referiram a trabalhadores que apresentaram quadro de ansiedade e de depressão.
Publicidade
Além de impactar diretamente a produtividade das empresas, o número elevado de benefícios concedidos por incapacidade temporária impacta diretamente os cofres da Previdência Social. De acordo com o INSS, o gasto com esse tipo de afastamento chegou a R$ 3,5 bilhões no ano passado. Só no Rio de Janeiro, foram 41.997 afastamentos em 2025.
Ainda de acordo com os dados compilados pelo INSS, as mulheres responderam por 63,46% dos benefícios concedidos. Cada afastamento custou em média de R$ 1.900 por mês e, no geral, teve duração de 90 dias. A série histórica mostra que os gastos da Previdência com afastamentos temporários por questões de saúde mental dobraram nos últimos dez anos.
De acordo com o psiquiatra Eduardo Arantangy, as mulheres sentem mais os efeitos do cotidiano na saúde mental. “As mulheres, de modo geral, ganham menos, precisam trabalhar mais para obter reconhecimento, estão mais expostas a diferentes formas de assédio e, frequentemente, acumulam uma dupla jornada entre trabalho e responsabilidades domésticas”, explica.
O médico cita ainda outros fatores que contribuem para a piora do quadro de saúde mental dos trabalhadores, tais como hiperconectividade, as exigências profissionais que extrapolam o horário de expediente e o impacto da inteligência artificial — vista por muitos como ameaça à estabilidade no emprego.
'Marcas profundas'
A professora Maria — que pediu para não ter o nome divulgado — precisou no início de 2025 se afastar temporariamente do trabalho em dois colégios particulares no Rio de Janeiro por causa de um quadro de depressão. Ele conta que levou mais de um ano para admitir que tinha um problema de saúde mental, o que agravou a doença. A docente lembra que atribuía apenas "ao cansaço" a sua condição.
"Eu tentava me enganar. No fundo sabia que tinha um problema sério, mas dizia para mim mesma que tudo se resolveria com as férias do fim do ano. As férias passaram e só piorei. Quando voltei a trabalhar, simplesmente não conseguia dar aula. Ao chegar em casa, tinha crises de choro e ficava o tempo todo na cama. Quando busquei atendimento médico, veio o diagnóstico de depressão. Tive medo do julgamento dos colegas, dos amigos. Não queria parecer fraca, alguém desequilibrada", diz.
Maria ficou longe das atividades profissionais por 90 dias. Ela se surporeendeu com a rapidez do INSS em conceder o afastamento temporário. "Por tudo que a gente ouve do INSS, pensei que ficaria muito tempo aguardando a concessão do benefício, mas foi até rápido. Em menos de 30 dias foi liberado", lembra. 
A professora passou a tomar medicação, fazer terapia e iniciou atividade física — sempre com acompanhamento médico. Após o período de afastamento, retornou ao trabalho nos dois colégios. Mas o tratamento não evitou um novo sofrimento.
"Quando voltei a trabalhar em um dos colégios, praticamente todo mundo sabia que eu tinha depressão, inclusive os alunos. Não descobri quem foi o responsável pelo vazamento de uma informação tão sensível. Isso me fez muito mal e quase colocou por terra todo o esforço que já tinha feito. No fim do ano, não tive renovado o meu contrato de trabalho nessa escola. Não posso garantir que foi por causa da depressão, mas tenho muitas desconfianças. Restaram as marcas profundas deixadas não só pela doença em si, mas pelo desrespeito profissional", lamenta.
O analista de mercado Ronaldo, que também pediu para não ter a identidade revelada, ficou afastado por 60 dias do trabalho devido ao quadro depressivo. Ao receber o diagnóstico e a informação de que precisaria fazer uma pausa, sua principal preocupação era com as conseuquências da licença na carreira profissional. 
"Tive que lidar com a redução da minha renda, pois o benefício ficou longe da remuneração que recebia. Mas o meu maior medo era a reação das pessoas no meu retorno ao trabalho. Não queria ser visto como alguém incapaz de voltar produzir os resultados que atingia antes do afastamento. Felizmente a empresa e os meus colegas me acolheram da melhor forma possível", lembra.
Ronaldo reconhece que é "um privilegiado". Nas consultas com o psiquiatra e nas sessões de terapia encontrou pacientes que não receberam o tratamento adequado por parte dos empregadores.
"Nas sessões de terapia em grupo, ouvi muitos relatos de pessoas que se sentiram abandonadas pelas empresas. Conheci uma moça que tinha se afastado duas vezes do trabalho em um período de dois anos. Ela sofria com crises graves de ansiedade, mas estabilizou o quadro com o tratamento. O problema é que, passado um tempo, foi demitida e não consegui retornar ao mercado de trabalho. Ela ficou com a fama de alguém que 'deixa a empresa na mão'. O empregador olha para o funcionário e enxerga apenas um problema, não uma pessoa que necessita de apoio. Isso ajuda a manter o preconceito — até mesmo entre os doentes — que ainda cerca os problemas de saúde mental no Brasil", ressalta.
 
 
Leia mais