Bets já movimentam R$ 37 bilhões e disputam diretamente o orçamento das famílias brasileirasDivulgação/Agência Brasil
Publicado 27/04/2026 06:00
O mercado de apostas online se tornou um fenômeno econômico no Brasil, com receita bruta estimada em R$ 37 bilhões em 2025. Hoje, mais de 25 milhões de brasileiros fazem apostas em pelo menos uma das 79 empresas autorizadas pelo governo federal.
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Os dados são do estudo 'Análise do Mercado de Bets no Brasil' e mostram que esse crescimento já tem impacto direto no orçamento das famílias, principalmente nas classes C, D e E. Nesses grupos, o dinheiro gasto com apostas muitas vezes reduz recursos destinados a despesas essenciais, investimentos e educação.
O levantamento também aponta que o Brasil já é o quinto maior mercado de apostas online do mundo. Por mês, o setor movimenta entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões, impulsionado pela digitalização e pelo uso do Pix, que facilita pagamentos instantâneos.
A pesquisa, realizada pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting + Technology, mostra ainda que o setor gerou mais de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos em 2025. Esse avanço é explicado pela facilidade de acesso às plataformas, pela baixa barreira de entrada e pelo crescimento fora dos grandes centros urbanos.
O DIA ouviu especialistas para entender o que esses dados revelam sobre o cenário atual e as perspectivas para o futuro e encontrou opiniões divergentes sobre o tema. O economista Aod Cunha de Moraes Júnior, conselheiro de administração e especialista em finanças, avalia que o crescimento das apostas reflete um comportamento financeiro mais voltado a recompensas rápidas. Segundo ele, isso aparece tanto na busca por crédito quanto na expectativa de ganhos imediatos, como ocorre nas bets.
"Acaba sendo uma alternativa à falta de perspectiva, de uma visão de crescimento de renda sustentada desse consumidor. Há risco de agravamento do endividamento das famílias, como já está ocorrendo, seja por um cenário em que a taxa de juros é muito alta ou porque a renda do consumidor vem caindo como ajuste a um período de taxas altas. Esse contexto reforça a busca por ganhos potencialmente diretos, mais rápidos. No entanto, sabemos que, na soma geral, isso acaba não se concretizando; pelo contrário, repercute no aumento do endividamento das famílias", analisa o economista.
Ainda segundo o especialista, o impacto é mais forte nas classes C, D e E, justamente por serem segmentos de renda mais apertada.
Já o advogado Luiz Felipe Maia apresenta uma leitura diferente sobre essa movimentação financeira nas famílias. Ele reconhece que as apostas representam, sim, um risco, mas avalia que esse impacto tende a ser superestimado quando analisado de forma agregada. "O faturamento bruto estimado das apostas gira em torno de R$ 37 bilhões, enquanto o estoque de dívidas das famílias brasileiras supera R$ 4,4 trilhões. Em termos de ordem de grandeza, isso representa algo próximo de 1%. Ou seja, o elemento central continua sendo o custo do crédito no Brasil", diz.
Ele reflete que o impacto não decorre apenas da aposta em si, mas da combinação entre menor margem financeira e maior custo do crédito quando há necessidade de recompor o orçamento.
Impactos na economia e no consumo
Segundo o estudo, o principal efeito das apostas não é substituir um gasto específico, mas disputar espaço no orçamento das pessoas, o que afeta vários setores da economia. No varejo, por exemplo, cerca de 23% dos apostadores deixaram de comprar roupas, e 19% reduziram gastos em supermercados para manter o hábito de apostar.
No setor financeiro, as apostas concorrem diretamente com a poupança e outros investimentos. Em 2024, cerca de 15% da população fez ao menos uma aposta online, número maior do que o de usuários de vários produtos financeiros tradicionais.
Já na educação superior, o crescimento das apostas pode dificultar o acesso e a permanência de estudantes, principalmente os de baixa renda, ao competir com o dinheiro destinado às mensalidades.
Mercado ilegal ainda preocupa
Apesar da regulamentação recente, o mercado ilegal continua sendo um grande desafio. A estimativa é que ele represente cerca de 85% da receita total do setor, gerando uma perda de mais de R$ 7 bilhões por ano em impostos.
Além do impacto nos cofres públicos, as apostas ilegais aumentam os riscos para os usuários, já que não oferecem proteção ao consumidor nem mecanismos de controle.
De acordo com o estudo, o crescimento das apostas online reflete mudanças mais amplas na economia digital e na forma como os brasileiros lidam com o dinheiro.
Substituição de gastos: temporário ou estrutural?
Para o economista Aod Cunha, esse tipo de substituição de gastos tende a se tornar estrutural, principalmente por causa do perfil do consumidor brasileiro, com renda limitada, pouca perspectiva de crescimento e parte do orçamento comprometida por juros altos.
"Esse consumidor enxerga uma janela de oportunidade e vai tentar aproveitá-la. Por isso, uma regulamentação mais rigorosa ajudaria. Enquanto houver acesso fácil e pouco controlado às bets, a tendência é que ele continue buscando ganhos imediatos", avalia.
Já o advogado Luiz Felipe Maia acredita que o comportamento observado em outros países aponta para uma acomodação ao longo do tempo. "Após um período inicial de crescimento acelerado, esse tipo de atividade costuma se estabilizar como mais uma categoria de gasto no orçamento das famílias. Até agora, não há evidências de que as apostas se tornem um fator dominante de pressão financeira no longo prazo", afirma.
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