Publicado 29/06/2026 05:00
Os bancos digitais e as fintechs transformaram a forma como os brasileiros lidam com o dinheiro. Segundo levantamento feito com base em dados do Banco Central (BC), o número de agências bancárias no país caiu 36% em dez anos, indo para pouco mais de 14 mil. O DIA conversou com especialistas para entender como essas mudanças afetam os clientes.
PublicidadeDe acordo com cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Soacioeconômicos (Dieese), realizado com registros do BC, 638 municípios ficaram sem agência bancária desde 2015, o que desassistiu 6,9 milhões de pessoas. Ao todo, são 2.649 cidades sem agências, o equivalente a 48% do total, ante 36% dez anos atrás.
Entre as causas da redução do número de agências, Priscila Marques, advogada especializada em Direito Bancário e do Consumidor, aponta o corte de custos.

"A diminuição drástica das agências físicas no Brasil se dá em função da necessidade de cortar custos operacionais e impulsionar a migração massiva de todos os clientes para os canais digitais, facilitando, assim, o uso das ferramentas disponibilizadas por cada banco, gerando economia de custos operacionais, como funcionários, aluguéis e outras demandas para as instituições, além de automatizar as operações que são realizadas pelos próprios clientes", explica a advogada.
A tecnologia e o surgimento de fintechs também colaboraram para o fenômeno, indica o economista e professor da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio Ricardo Macedo.
"A situação da redução do número de agências está muito associada à tecnologia, por conta dos aplicativos, do surgimento das fintechs e do uso do Pix", afirma. "A tecnologia tornou-se ainda mais evidente durante a pandemia, quando esse processo se intensificou. Os bancos acabaram aproveitando esse formato, pois houve um aumento da produtividade no setor", ressalta o professor.
O presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, José Ferreira Pinto, critica o fechamento de agências.
"Compreendemos que os bancos têm lucro que permite um melhor atendimento aos clientes e à população e que, portanto, não é necessário o fechamento desse grande número de agências", frisa. "Os bancos têm tido foco somente em melhorar, a cada ano, os resultados, e os direitos dos clientes são desprezados.Em alguns casos, há bairros e regiões que ficam sem nenhuma agência."
De acordo com ele, o município do Rio perdeu mais de mil postos de trabalho no setor.
"Houve uma redução nos postos de trabalho de 1.041 vínculos no Município do Rio de Janeiro, segundo os dados da RAIS [Relação Anual de Informações Sociais], de 16.896 para 15.855 trabalhadores nos bancos. Uma redução de -6,2%."
Procurada pela reportagem, a Febraban informou que não possui dados oficiais sobre a abertura e o fechamento de agências.
Exclusão digital
Com a diminuição do atendimento presencial, muitas pessoas podem ficar desassistidas. O professor da FGV Ulysses Reis diz que o serviço virtual não substitui completamente o contato direto com o cliente.
"O atendimento digital, na atual escala tecnológica, cultural e comportamental, não substitui completamente o presencial, porque negociações, conversas e trocas de informações, em muitos casos, precisam de contato direto entre as pessoas. E nós ainda não temos esse nível tecnológico", afirma.
"Existem grupos que não estão preparados para esse processo, como idosos, pessoas que não conhecem tecnologia, que vivem no campo, que não têm conhecimento técnico e que têm dificuldade em ler ou entender. Para esses grupos, não ter uma agência é um fator de risco, porque o cliente pode ser enganado por golpes", alerta o professor. "Quanto mais a gente evolui tecnologicamente, mais os bandidos também fazem isso. É uma luta contínua."
Problemas para os clientes
Para muitas pessoas, esse fenômeno, na prática, tornou-se um problema. "Quem já está digitalizado e é adepto dessas modernidades provavelmente ficará muito satisfeito com a rapidez e a facilidade com que os problemas são resolvidos. Mas quem tem dificuldade em lidar com a tecnologia realmente vai sofrer bastante", afirma o professor Ricardo Macedo.
Esse é o caso da gerente financeira Ana Cristina Cotrim, de 51 anos, que relata ter certa dificuldade com o suporte digital.
"Acho o atendimento on-line complicado, às vezes difícil explicar a necessidade.Prefiro resolver pessoalmente. Mas uso quando preciso tirar alguma dúvida ou preciso de alguma ajuda, principalmente quando tenho atualizações no aplicativo", conta.
Ana Cristina também comenta que não usa aplicativo para a conta de Pessoa Jurídica no celular por segurança.
"Não tenho o aplicativo das empresas no celular pessoal, por uma questão de segurança. Quando preciso resolver algum assunto urgente e principalmente para saques", diz. [ESSA FRASE FICOU TRUNCADA]
"Felizmente, minha agência fica próxima da empresa, então acabo não tendo muita dificuldade. Mas percebo muitas agências fechando e imagino que fará falta para quem precisa com maior frequência."
Direitos do consumidor
A advogada Priscila Marques aponta que houve um aumento no número de reclamações sobre crédito consignado e segurança em canais digitais.
"Segundo pesquisa realizada no primeiro trimestre de 2026 pelo Banco Central, houve aumento nas reclamações sobre crédito consignado e segurança em canais digitais", ressalta.
"Em paralelo, a Febraban registrou que 80% das transações são realizadas pelos correntistas por canais digitais e que as taxas de resolutividade das reclamações e contestações são de 97,9% nas ouvidorias. Com isso, é possível afirmar que os consumidores estão mais satisfeitos com os canais remotos", diz.
Além disso, para quem depende dessas plataformas, as frequentes falhas nos aplicativos não podem deixar o consumidor desassistido, garante a advogada.
"De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, o acesso aos serviços bancários, quando disponibilizados de forma digital, deve ser irrestrito. Caso o aplicativo fique fora do ar, o consumidor não deve ser prejudicado. Se ocorrer a perda de prazo de pagamento de um boleto por instabilidade do aplicativo, a lei garante o reembolso de juros, multas e outros encargos", esclarece.
Para o presidente do Sindicato dos Bancários, o fenômeno tem gerado constrangimentos aos clientes, que muitas vezes precisam passar horas nas filas das agências que permaneceram em funcionamento.
"Recentemente, fizemos visitas às agências nos bairros de Copacabana, Tijuca, Madureira e Campo Grande, acompanhados de equipes de defesa do consumidor e de defesa dos direitos das pessoas idosas. Vários bancos foram multados por manterem clientes em fila de até uma hora. Tivemos um caso em que uma senhora de mais de 80 anos aguardava há mais de duas horas pelo atendimento", relata.
"Recentemente, fizemos visitas às agências nos bairros de Copacabana, Tijuca, Madureira e Campo Grande, acompanhados de equipes de defesa do consumidor e de defesa dos direitos das pessoas idosas. Vários bancos foram multados por manterem clientes em fila de até uma hora. Tivemos um caso em que uma senhora de mais de 80 anos aguardava há mais de duas horas pelo atendimento", relata.
"Essas visitas acabaram por gerar notificação e multa aos bancos por descumprimento de diversos itens relacionados ao atendimento em geral e, em particular, com o descaso e maltrato com os idosos. Em diálogo com os clientes, percebemos vários casos em que as pessoas têm que se socorrer do atendimento presencial por não conseguirem manusear os aparelhos celulares e acessar os aplicativos dos bancos."
Leia mais
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.