Um dos caminhos mais comuns para facilitar a compra de um carro é o financiamento. A instituição financeira libera o valor necessário para a aquisição e o comprador devolve a quantia por meio de parcelas mensais acrescidas de juros. Essa modalidade atingiu um novo recorde em 2025.
Segundo levantamento da Trillia B3, da Bolsa de Valores de São Paulo, o número de operações incluindo motos, carros, ônibus e caminhões chegou a 7,3 milhões no último ano. Desse total, 2,6 milhões eram novos e 4,6 milhões usados.
Considerando que houve 5,1 milhões de emplacamentos em 2025, de acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), mais da metade (51%) dos veículos zero quilômetro do país foram adquiridos por meio do financiamento.
Apesar da popularidade, entrar na operação envolve o risco de não conseguir arcar com as prestações pelos anos seguintes. Estatísticas do Banco Central mostram que, em 2025, a inadimplência em financiamentos de veículos chegou a 5,6%. A falta de pagamento pode gerar, em último caso, a busca e apreensão do bem.
A personal trainer Isabelle Travassos, de 36 anos, já enfrentou o medo de perder o carro. Ela conta que deixou de pagar as parcelas do financiamento em um momento de dificuldades financeiras e que, depois de atrasar três prestações, recebeu a notificação de que seu veículo estava sob busca e apreensão.
“A gente pagou [a prestação] por mais ou menos uns dois anos, todo mês certinho. E aí, quando começou a apertar, a gente ficou três meses sem conseguir arcar com a dívida. Nesse período, a intenção era pagar, mas foi apertando cada vez mais, e o carro entrou em busca e apreensão.”
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Isabelle conseguiu suspender busca e apreensão do veículoArquivo pessoal
Após seu carro ter sido alvo da ação, a primeira atitude de Isabelle foi tirar o automóvel do endereço de onde morava. “Pelo que eu entendia, eles podiam pegar o reboque, vir na porta de casa e levar o carro”, alega.
Em seguida, a personal trainer procurou um advogado, que identificou práticas abusivas no contrato do financiamento. Com isso, o profissional entrou com uma ação contra o agente financeiro e conseguiu suspender a cobrança por um ano.
Segundo Isabelle, 40% da parcela – que totalizava cerca de R$ 1,8 mil – eram destinadom somente ao pagamento de taxas indevidas. O advogado apontou que ela já havia amortizado a maior parte do custo do veículo (o valor do carro somava R$ 50 mil) e que, dessa forma, deveria desembolsar apenas R$ 8 mil. Depois da negociação com a empresa na Justiça, a personal trainer pagou o valor restante e quitou o automóvel.
Como acontece a busca e apreensão?
Os contratos de financiamento de veículos costumam ocorrer por meio da chamada alienação fiduciária, uma “venda de confiança”: o banco – que empresta o capital para a aquisição – tem a propriedade formal do bem, enquanto o comprador permanece com a posse. Nesse caso, o próprio automóvel é a garantia de que as prestações serão pagas.
Assim que essa “confiança” é quebrada, o agente financeiro tem o direito de tomar o veículo para liquidar a dívida, independentemente de quantas parcelas já tenham sido pagas. A Gerente de Cobrança de Veículos da empresa Recovery, Camila Rodrigues, destaca que é importante entrar em contato com a financeira quando houver atrasos nas prestações.
“Quando há atraso, a instituição credora costuma iniciar tentativas de contato e oferecer possibilidades de regularização. Se a dívida não for paga, o consumidor pode receber uma notificação formal. A partir da comprovação da inadimplência, pode ser iniciado o processo de retomada do veículo, pela via judicial ou extrajudicial, desde que sejam cumpridos os requisitos legais”, explica.
O advogado do Direito do Consumidor Lucas Monteiro alerta que é um mito de que existe um número mínimo de prestações em atraso para que o agente financeiro peça a busca e apreensão.
“Comumente se fala que ‘são três parcelas em atraso’, mas não. Uma parcela em atraso já é suficiente para o banco ingressar judicialmente e pedir que aquele bem volte para o patrimônio dele”, diz.
Após a execução da busca e apreensão, o devedor tem cinco dias para efetivar o pagamento total do financiamento — não apenas o valor das parcelas atrasadas. Com a quitação da dívida integral, ele pode reaver o veículo e remover a alienação. Camila Rodrigues alerta que é mais difícil negociar a débito uma vez que a medida já foi executada.
Camila Rodrigues recomenda negociar com a financeira antes da busca e apreensãoDivulgação
“Também pode existir possibilidade de acordo, dependendo da instituição credora, da situação da dívida e da etapa do processo. No entanto, a negociação não é automática e tende a ficar mais limitada depois que a retomada já ocorreu. O ideal é buscar uma solução antes da apreensão e avaliar com cuidado se as condições propostas realmente cabem no orçamento”, recomenda a Gerente de Cobrança de Veículos.
Lucas Monteiro afirma que não se deve “esconder” o carro, levando-o para outro endereço, com a finalidade de evitar o cumprimento da busca e apreensão. “É uma medida que não é bem-vista pelo Poder Judiciário, fere a boa fé. Em vez de ajustar, complica ainda mais o problema, não só do ponto de vista do relacionamento com o titular do bem [o banco], mas você também começa a desafiar a própria autoridade do Poder Judiciário.”
Depois do prazo de cinco dias, correm mais quinze para que o comprador apresente uma contestação que explique por que não houve o pagamento. O advogado defende que esse é o momento para encontrar, com boa fé, práticas do credor que maculem o contrato, como taxas indevidas ou juros abusivos.
“Esse mecanismo [o contrato], não raras vezes, insere serviço de terceiros, multa de mora superior a 2% – o que é proibido –, aparece ali um seguro que você não se interesso. E eles cobram, não rara vez, a tarifa de cadastro, que é legal, mas não pode ser repetida. Então, são cláusulas que podem tornar aquele contrato abusivo ou até mesmo ilegal”, argumenta.
“O contrato faz lei entre as partes, mas uma parte não pode ter enriquecimento ilícito e tampouco pode fazer com que essa relação gere para um lucro acima do normal. É missão do Judiciário tentar equalizar essas forças para que não fique uma parte superforte e a outra hipervulnerável”, conclui Lucas Monteiro.
Dá para recuperar o valor investido?
Depois que o reboque passou na porta de casa e o carro já está no pátio, pode surgir a dúvida do que vai acontecer com o automóvel e para onde vai o dinheiro pago nas prestações anteriores.
Em geral, o veículo segue para a venda, para a arrecadação de valores que possam eliminar a dívida e custear as despesas do processo. Segundo Camila Rodrigues, o mais comum é que o bem vá a leilão, mas, a depender do contrato, ele também pode ser vendido diretamente a um terceiro.
O número de prestações pagas antes da apreensão não implica diretamente em uma devolução de valores. Só é possível receber alguma quantia se o montante obtido no leilão ou na venda for maior que o desembolsado pelo comprador nas parcelas.
Para advogado o Lucas Monteiro, é preciso observar se há práticas abusivas no contrato do financiamentoDivulgação
“Hoje, se o bem foi a leilão, o valor excedente do bem tem que ser devolvido para a pessoa de acordo com as parcelas que ele pagou. Então, se o bem vale R$ 60 mil e foi vendido por R$ 67 mil, eu tive parcelas que superam esse valor [da venda], e ele tem que voltar para o meu bolso”, explica Monteiro.
Se o valor arrecadado não for suficiente para pagar o valor do financiamento, o restante da dívida permanece como saldo remanescente, havendo uma nova cobrança.
Cuidados na hora de contrair um financiamento
Para o advogado Lucas Monteiro, o ponto principal na hora de entrar em um financiamento é ler atentamente os termos do contrato, para saber qual será o valor a ser pago e evitar cobranças abusivas.
“Você precisa saber qual é a incidência de juros, qual a incidência de correções e quanto tempo vai demorar, para que você saiba de fato quanto está pagando por esse bem”, afirma Monteiro.
Já o economista Thiago Fogaça faz uma série de recomendações. A primeira delas é avaliar qual é a necessidade real de adquirir um automóvel e qual será seu objetivo (trabalho ou conforto, por exemplo).
Ele também destaca a importância de dar uma boa quantia de entrada para reduzir os juros, de observar o custo total da operação (que envolve taxas adicionais) e de buscar instituições financeiras com as quais a pessoa tenha relacionamento.
O economista Thiago Fogaça diz que é preciso avaliar outros custos antes de entrar em um financiamentoDivulgação
“No momento da aquisição, provavelmente vão ser ofertados três ou quatro opções de taxas de juros em instituições diferentes, e o que tem de ser olhado é o custo efetivo total da operação. A taxa de juros está relacionada ao que vai ser cobrado do empréstimo, mas o custo efetivo total é calculado em cima de tudo que está dentro daquele empréstimo – IOF, tarifa de cadastro, registro de contrato, seguro prestamista, entre outras coisas que as instituições podem incluir que aumentam o custo da operação”, afirma o economista.
Por fim, Fogaça também lembra que um novo veículo traz diversos custos além do financiamento, como combustível, seguro e manutenção. Por isso, deve haver o planejamento quanto do salário será comprometido com os gastos durante o período. Ele estima que todas as despesas envolvendo o automóvel (incluindo as prestações) não devem ultrapassar 30% total da renda.
“O ideal é fazer um planejamento de forma abrangente, não só em relação ao veículo financiado para tentar nunca passar esses 30%, o restante da sua renda, que são 70%, são para os custos do dia a dia. Se você ultrapassar isso, vai começar a ter dificuldade na sua sobrevivência, nos custos com moradia, alimentação e outros”, conclui o economista.
* Reportagem do estagiário Victor Louro, sob supervisão de Marlucio Luna
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Número de veículos financiados chegou a 7,3 milhões em 2025Rovena Rosa / Agência Brasil
Camila Rodrigues recomenda negociar com a financeira antes da busca e apreensãoDivulgação
Isabelle conseguiu suspender busca e apreensão do veículoArquivo pessoal
Para advogado Lucas Monteiro, é preciso observar se há práticas abusivas no contrato do financiamentoDivulgação
O economista Thiago Fogaça diz que é preciso avaliar outros custos antes de entrar em um financiamentoDivulgação
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