Lançado pelo governo federal em 19 de junho, o programa Move Brasil – Táxi e Aplicativos, que oferece juros menores no financiamento de carros novos para motoristas de aplicativos e taxistas, teve apenas R$ 3,4 bilhões dos R$ 30 bilhões disponibilizados para a linha de crédito utilizados até o último dia 19, o que corresponde a cerca de 11,3% do total. Os números do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) revelam que, em dois meses, apenas 33,4 mil motoristas foram beneficiados pela iniciativa.
Entre os pontos inicialmente criticados pela categoria alvo da iniciativa, estavam a lista de carros elegíveis para o programa (44 modelos de 11 fabricantes) e as recusas nas análises de crédito pelas instituições financeiras – fator que chegou a gerar cobranças públicas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Caixa Econômica Federal e ao Banco do Brasil.
O número de contratações abaixo do esperado provocou uma mudança nas regras do programa. Em portaria conjunta do último dia 19, o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) ampliaram o valor máximo dos veículos que podem ser financiados de R$ 150 mil para R$ 200 mil e passaram a permitir que veículos híbridos a gasolina integrassem o Move Brasil Táxi e Aplicativos.
Citando o índice de emplacamentos da Fenabrave de 2025, os ministérios afirmaram, em nota, que a alteração nos critérios possibilitou que 88% dos carros vendidos no Brasil passassem a ser enquadrados pela iniciativa — contra 63%, de acordo com as regras anteriores.
Para o motorista de aplicativo Raphael Souza, de 34 anos, a lista de modelos disponíveis no início do programa foi pouco atrativa. Ele defende que, apesar da redução nos juros, o valor dos carros segue alto, uma vez que não há políticas de isenção de impostos como IPI e ICMS para a categoria, como ocorre para taxistas.
“Eu cheguei a ter um interesse [no programa], mas logo descartei. Se fosse um programa mais parecido com o que tem o taxista – na questão da isenção de impostos –, ficaria mais vantajoso que essa questão do Move Brasil. Porque ainda existe uma taxa juros. Sem contar que não são todos os carros que você consegue financiar pelo Move.”
Raphael acredita condições de trabalho atuais são fator que desestimula motoristas a comprar novos veículosArquivo pessoal
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Há oito anos na profissão, Souza acredita que as condições de trabalho atuais são outro fator que desestimula motoristas a comprar novos veículos. Mesmo possuindo um carro SUV, que se enquadra na categoria mais elevada do aplicativo, ele afirma que seus rendimentos são similares aos da época em que começou no ofício, quando dirigia um modelo inferior.
“Antigamente, o motorista saía para a rua sabendo que ia ganhar dinheiro. Hoje, ele sai sabendo que não vai ganhar dinheiro, e se ganha, é por teimosia”, desabafa.
“Quando eu comecei a rodar no aplicativo, eu era CLT. Saía às 18h e chegava em casa às 23h, e conseguia fazer com facilidade uns R$ 300, na categoria mais básica, a ‘X’. Hoje, na categoria ‘Black’, para fazer uns R$ 500, eu fico o dia inteiro na rua. Isso acontece por causa da baixa demanda e das taxas da plataforma”, explica.
Segundo o motorista, o custo de financiar um automóvel novo não implica em aumento nos ganhos para profissionais que já possuem um veículo próprio, o que poderia ser outra razão para a baixa adesão inicial ao programa.
“Quando eu entrei no aplicativo, o diferencial era você ter um carro limpo, bem apresentável. Hoje em dia, ‘é tanto faz como tanto fez’; as pessoas só querem ir e vir do ponto ‘A’ ao ‘B’, um ou outro [passageiro] que vai prezar mais pelo conforto”, conclui Souza.
Impacto nas condições de trabalho
A maior parte das contratações do Move Brasil ocorre no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal. Ao DIA, o BB revelou que, até o momento, fechou R$ 1,8 bilhão em financiamentos com 15,8 mil clientes. No Rio de Janeiro, foram R$ 206 milhões em propostas que envolveram mais de 1,8 mil motoristas.
A reportagem entrou em contato com a Caixa para saber o número de contratos fechados por meio do programa, mas a instituição estava em pré-balanço e não respondeu à solicitação antes do fechamento da matéria. O espaço segue aberto.
Um dos motoristas do Rio de Janeiro que trocaram de veículo por meio do Move Brasil foi Jorge Nunes dos Santos, de 39 anos. Taxista há 13 anos, ele financiou, em 48 meses, R$ 70 mil de um carro no valor de R$ 95,4 mil (já considerando a isenção de impostos para a categoria). Para o profissional, a iniciativa veio em um momento oportuno.
“Eu recebi a notícia [do lançamento do Move Brasil] com bons olhos. Sempre tive a pretensão de trocar de carro de dois em dois anos, e o meu já estava fazendo dois anos. Aí eu pensei: ‘se eu quero trocar e vou financiar, a hora é essa.’”
Para o taxista Jorge Nunes dos Santos, Move Brasil veio em um momento oportunoFernando Frazão / Agência Brasil
Santos relata que, apesar do interesse inicial no programa, não soube de imediato como faria para acessar a linha de crédito. O taxista conta que entrou em contato por telefone com sua agência da Caixa Econômica Federal por duas vezes, mas as atendentes não tinham informações sobre a linha de crédito. Por fim, ele decidiu acionar o SAC do banco, que passou as instruções para aderir ao programa.
O taxista afirma que o processo de aquisição durou pouco mais de 20 dias. Segundo ele, a transação foi, de forma geral, rápida e simples. Ele solicitou o crédito por meio do aplicativo do banco, enviou os dados solicitados (como comprovantes de endereço e de renda) e logo recebeu as propostas de financiamento.
Ele destaca, no entanto, que a operação ficou “presa” por 11 dias no setor de conformidade da Caixa, que analisa a regularidade dos documentos enviados, mesmo após o faturamento do carro.
Santos avalia que a compra de um veículo novo traz benefícios como melhores condições de trabalho e um aumento na qualidade do serviço oferecido ao passageiro.
“Com o passar do tempo, a gente vai tentando fazer o trabalho da melhor forma possível, ter uma condição digna de trabalho e também oferecer conforto ao cliente. Quando você está com carro novo, tem mais ânimo para trabalhar, sem contar que a gente roda muito. Você viaja com mais segurança e faz pouca manutenção com uma ferramenta nova”, explica.
Secretário fala em ‘aprimoramento’ do programa
Em entrevista ao DIA, o secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC, Uallace Moreira Lima, rebateu a ideia de que o Move Brasil – Táxi e Aplicativos teve baixa adesão. Ele argumentou que os R$ 4 bilhões liberados pela linha de crédito representam a venda de cerca de 40 mil carros, e citou que dados da Fenabrave apontam que os trabalhadores de aplicativos adquirem uma média de 4,4 mil carros por mês.
“Não concordo [que o Move teve baixa adesão], porque o programa não crava 30 [bilhões de reais], ele fala até 30. O nosso objetivo é atender o máximo de trabalhadores possível, e o valor está disponível. Então, quando você tem um programa que proporciona, em dois meses, um volume de vendas cinco vezes maior do que o normal, a gente está atendendo um trabalhador que dificilmente teria acesso a esse carro para ter melhores condições de trabalho”, avalia.
Uallace Moreira afirma as alterações nas regras do programa são fruto de 'aprendizado'Divulgação / MDIC
Moreira Lima justifica que as alterações nas regras do programa são fruto de um “aprendizado”, considerando que a política pública é inédita. Ele revela que a falta de garantia às instituições financeiras foi um “fator limitante” ao avanço do programa, e que o número de liberações de crédito teve um salto após o governo assumir parte do risco de inadimplência por meio do Fundo Garantidor de Investimentos (FGI-Peac) – que cobre 80% do risco nas operações da modalidade do Move Brasil, limitado a 30% da carteira.
“A gente entende que foi um fator limitante, que a gente aprendeu e não deixou acontecer com o programa de motos. O programa entra em operação no dia 19 de junho, mas o fundo garantidor só entra em operação no dia 2 de julho, ou seja, duas semanas sem um fundo garantidor. Quando ele entra em operação, a partir de julho, o volume de aprovações começa a aumentar muito. A gente viu que não pode ter a linha de crédito sem o fundo garantidor funcionando simultaneamente”, esclarece.
O secretário também observa que mudanças anunciadas pela plataforma Uber poucos dias depois do lançamento do Move Brasil tornaram a lista de veículos atendidos pelo programa rapidamente “defasada”. O aplicativo informou que uma série de modelos deixariam de estar aptos a categorias mais elevadas, como Confort e Black, a partir de janeiro de 2027.
“O programa foi pensado para um valor de até R$ 150 mil, considerando vários modelos que poderiam dar a condição para o trabalhador entrar no Black e no Confort nessas categorias que pagam um valor melhor para o trabalhador. Logo depois que o programa é anunciado, a Uber atualizou uma lista de carros que sairiam das categorias Black e Confort”, explica.
“Então, meio que fica defasado o raciocínio dos modelos a que os trabalhadores poderiam ter acesso. E esse ponto foi fundamental para que a gente pudesse revisar o limite de valor”, acrescenta.
Para Moreira Lima, o impacto do programa é “ter construído uma condição para que o trabalhador pudesse ter acesso a uma linha de crédito bem mais barata”, além de contribuir para a renovação e descarbonização da frota do país.
“[O efeito] é proporcionar ao trabalhador melhores condições de trabalho. O trabalhador que compra um carro zero tem uma condição de vida mais confortável, porque ele trabalha 12, 14 horas dentro do carro. Além disso, muitos alugam veículo [para trabalhar]. Através do programa, ele deixa de alugar por R$ 6 mil ao mês para pagar uma parcela de R$ 3,1 mil de um carro que vai ser dele”, defende.
Ampliação
De acordo com o secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços, não há previsão de adiamento do prazo para o fim do Move Brasil – Táxi e Aplicativos. A medida provisória (MP) que criou o programa tem vigência até o dia 15 de setembro.
Moreira Lima também adiantou que um dos “aprendizados” da pasta é o aumento no número máximo de parcelas no financiamento de veículos. Atualmente, os carros podem ser pagos em até 72 meses, mas o MDIC prevê a ampliação desse prazo para 84 meses:
“A gente entendeu que prorrogando o prazo facilita as condições de pagamento para o trabalhador. Isso ocorreu no programa de caminhões para autônomos. Depois que a gente ampliou o prazo, aumentou o número de aprovações e ele começou a financiar mais caminhões.”
Como financiar pelo Move Brasil?
Os interessados devem solicitar adesão no portal Move Brasil. Para estar apto ao programa, motoristas de aplicativo precisam ter cadastro ativo em qualquer plataforma (Uber, 99, InDrive) por pelo menos 12 meses e ter realizado ao menos 100 corridas. No caso dos taxistas, são exigidos licenças e registros ativos junto aos órgãos de trânsito e regularidade fiscal.
A análise no portal pode demorar até cinco dias úteis. O cadastro não garante acesso à linha de financiamento, que deverá passar por análise de crédito das instituições financeiras.
O Move Brasil – Táxi e Aplicativos oferece taxa de juros de 0,99% ao mês para homens e 0,91% para mulheres. Além de Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, o programa é operado por instituições privadas.
* Reportagem do estagiário Victor Louro, sob supervisão de Marlucio Luna
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Raphael acredita condições de trabalho atuais são fator que desestimula motoristas a comprar novos veículosArquivo pessoal
legenda abreRovena Rosa / Agência Brasil
Uallace Moreira afirma as alterações nas regras do programa são fruto de aprendizadoDivulgação / MDIC
Para o taxista Jorge Nunes dos Santos, Move Brasil veio em um momento oportunoFernando Frazão / Agência Brasil
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