Cafu levantou a Copa do Mundo de 2002Lucas Figueredo/CBF
Publicado 19/03/2026 09:00
Rio - Faltam menos de três meses para a estreia do Brasil na Copa do Mundo. A competição, que é a principal do planeta no futebol, mexe bastante com os torcedores, e nossa Seleção vive um jejum de 24 anos sem conquistar a taça. Em relação ao torneio, poucos têm mais intimidade que Cafu. O ex-lateral-direito é o único a disputar três finais da competição de forma consecutiva, sendo bicampeão mundial. Em conversa exclusiva com o Jornal O DIA, o capitão do Penta afirmou que entende que há semelhanças entre a equipe atual de Carlo Ancelotti e às que ele defendeu tanto em 1994 quanto em 2002.
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"Em 1994 e 2002, nós passamos situações idênticas a essa agora, e isso serviu para que nós pudéssemos nos unir e mostrar a nossa força. As Eliminatórias não são fáceis, e o Brasil sempre teve dificuldades em anos em que foi campeão. Tanto em 94 como em 2002, classificamos no último, praticamente no último jogo. Chegamos desacreditados para uma Copa do Mundo e fomos campeões. Espero que possa repetir novamente isso agora. Muitas pessoas não acreditam na seleção brasileira, mas eu acredito no potencial que ela tem até ao ponto de ganhar essa Copa do Mundo em 2026", analisa o Mister Copa do Mundo.
Em relação ao título de 1994, além da desconfiança por conta das Eliminatórias, o cenário atual também tem outras semelhanças. A competição será disputada nos Estados Unidos e o Brasil vem de um jejum de 24 anos sem conquistar o título.
"O clima é semelhante, sim, são 24 anos sem a conquista do título, é praticamente aquilo que nós vivemos em 1994. Estamos vivendo agora com a seleção em 2026 e nos Estados Unidos novamente, é impactante sim. Chega a colocar um pouco de pressão para que os meninos realmente possam correr bastante e ter a certeza de que eles vão dar o melhor de cada um para que esse tabu possa ser quebrado. Mas são coincidências, a gente espera que o Brasil possa conseguir depois de 24 anos mais uma conquista nos Estados Unidos", afirma.
Confiança em Ancelotti e ida ou não de Neymar para a Copa
Em relação ao grupo convocado por Ancelotti, há uma grande dúvida sobre a ida ou não de Neymar para a competição. Apesar de Cafu acreditar que o camisa 10 do Santos tem condições de desequilibrar em favor da Seleção, o ex-lateral-direito reforça sua confiança no trabalho do treinador italiano.
O capitão do Penta acredita que é necessário uma união coletiva de todo o grupo da Seleção e que todos os jogadores precisarão se ajudar pelo objetivo principal que é o Hexa.
"Todo grande jogador é sempre reconhecido, todo grande jogador é importante em qualquer clube, principalmente em uma seleção. Nós tivemos sim uma situação parecida em 2002 com o Ronaldo, com o Rivaldo, mas nós assumimos a responsabilidade de ajudar esses jogadores, porque nós sabíamos o quanto esses jogadores eram importantes para nós, mas esses jogadores também assumiram uma responsabilidade com o grupo em relação a tudo aquilo que eles poderiam render. É comparada com a situação do Neymar hoje? Um pouco diferente. O Ancelotti é um mister inteligente, muito inteligente, é um cara muito honesto, muito sincero. Trabalhei com ele durante cinco anos e a decisão que ele tomar é a decisão que o povo vai ter que acatar, de levar ou não levar o Neymar", avalia.
Ao analisar os principais talentos da Seleção, como Vini Jr, Raphinha e Estêvão, Cafu diz acreditar que diferente das últimas Copas do Mundo, em que Neymar foi o protagonista absoluto, na edição de 2026 a responsabilidade estará dividida.
"Depois de várias Copas em que o Neymar foi protagonista - e pode ser um protagonista também nessa Copa de 2026, porque ele não está descartado -, eu acho que agora a responsabilidade é dividida. Nós não vamos ter a responsabilidade de um único jogador ter essa pressão de que ele tem que resolver tudo sozinho dentro de uma seleção brasileira. Hoje nós temos peças suficientes que possa dividir essa responsabilidade com ele dentro de campo e, sim, levar a seleção brasileira a uma conquista de título", pondera.
Novos protagonistas
Nas duas Copas em que foi campeão, Cafu fez parte de um grupo que teve jogadores que "chamaram a responsabilidade". Em 1994, Romário e Bebeto, já em 2002, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Na opinião do lateral-direito, apesar da atual equipe ter muitos talentos, é necessário que Ancelotti tenha em sua mente um time fechado para pensar em valores individuais mais decisivos. 
"Primeiro nós precisamos saber quem são os convocados para a Copa do Mundo. Romário e Bebeto foram uma dupla fantástica em 1994, que levou o Brasil junto com toda a equipe a ser campeã do mundo, como Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo, em 2002. Primeiro é definir quem são os convocados, segundo definir quem vão ser os titulares, e aí sim nós vamos saber e ter certeza de que dupla possa ou que trio possa ser tão fundamental como foram esses que vocês citaram anteriormente", afirma o capitão do Penta.
Cafu trabalhou com Ancelotti no Milan. Juntos, foram vitoriosos na Liga dos Campeões de 2007. O lateral-direito elogiou bastante a metodologia do italiano e afirmou que ela se encaixa bastante com o modelo do futebol brasileiro.
"Olha, eu trabalhei com o Ancelotti muitos anos, tivemos oportunidade de conquistar uma Liga dos Campeões. Mesmo sendo estrangeiro, ele é o treinador da Seleção, da única pentacampeã do mundo. Ele tem essa característica de transformar o grupo em uma família e vai trazer esse sentimento para a Seleção. Ele é um treinador, que gosta do dia-a-dia, de trabalhar com os jogadores, conversar, explicar, repetir, ele é muito repetitivo em relação ao treinamento para que os jogadores assimilem e ele fará o mesmo com esses meninos. Mas isso requer um pouco de tempo. No clube, ele teria esse tempo, na Seleção, infelizmente ele não", relembra Cafu.
Honraria e vida fora dos gramados
A trajetória de Cafu no futebol foi reconhecida recentemente pela revista "France Football", que o colocou como membro do "dream team", o 11 ideal da história do futebol. Ele, Pelé e Ronaldo foram os brasileiros que tiveram a honra de fazer parte da equipe.
"A sensação de entrar na lista dos 11 melhores do mundo é uma sensação maravilhosa. Você superar nomes como Carlos Alberto Torres, de Djalma Santos, Leandro e outros, é muito gratificante. Trabalho, comprometimento, estar entre os maiores da história da lateral, não só do futebol brasileiro, mas do mundo, me sinto muito orgulhoso com isso."
Sem atuar desde 2008, Cafu, que tem 55 anos, afirma que continua fazendo exercícios e continua com um hábito que era marcante em seu estilo de jogo: a velocidade.
"A vida fora das quatro linhas está muito corrida, viu? Estou correndo mais agora de quando eu jogava, graças a Deus. Estamos colhendo aí os méritos de tudo aquele que nós plantamos lá no começo da nossa carreira. Hoje eu sou palestrante, estou focado em dar palestra, contar um pouco para as pessoas a história de vida que eu tive até chegar a ser capitão da seleção brasileira", revela.
Capitão do hexa e com muitas honrarias, Cafu teve a oportunidade de receber o príncipe do Reino Unido, William, no Maracanã, em novembro do ano passado. O ex-lateral-direito cita o momento como inesquecível em sua vida.
"Receber o príncipe William no Maracanã foi fantástico. Eu acho que ele ficou bem entusiasmado, abismado, chocado quando viu o Maracanã daquele tamanho, o povo brasileiro gritando, as crianças chamando o nome dele. Eu tive a oportunidade de entregar uma camisa e ele ficou maravilhado. Eu disse: "Príncipe, o palco histórico do futebol mundial está aqui. Isso aqui é um templo, o nosso glorioso Maracanã". É uma sensação de orgulho, sabe, representar o nosso país, estar representando aquele momento, não só a seleção brasileira, mas estar representando o povo brasileiro para um príncipe. Acho que poucas pessoas tiveram esse privilégio, de receber um príncipe e no Maracanã ainda. E eu, o Cafu, morador lá do Jadim Irene [SP], estava tendo essa oportunidade", finaliza.
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