Publicado 03/07/2026 08:30 | Atualizado 03/07/2026 09:24
Rio – Muito mais que futebol, a Copa do Mundo também reúne histórias em família e marca gerações. No Alzirão, ponto de encontro de torcedores na Tijuca, na Zona Norte, uma avó e o neto recriaram, 16 anos depois, uma foto tirada durante o Mundial de 2010. Em meio às lembranças, a aposentada Romilda D'Elia, 86 anos, e o estudante de direito, Rafael D'Elia, 21, revelaram manter a forte torcida pela Seleção Brasileira e a tradição de assistir aos jogos.
PublicidadeAo DIA, Romilda conta ter visto todos os títulos do Brasil, mas em contrapartida, o neto não viu nenhum e segue na expectativa pelo hexa.
Os dois são moradores do bairro e publicaram, sem nenhuma pretensão, um vídeo nas redes sociais com uma foto tirada em 2010 e outra em 2026, no mesmo local. Apesar disso, a publicação já ultrapassa 180 mil visualizações nesta sexta-feira (3).
"Foi um Reels inesperado que minha tia fez, porque a gente tem esse costume de comparar a história do passado com o presente, mas tomou uma proporção muito maior do que a gente podia imaginar. Na foto antiga, eu acho que eu tinha uns 6 anos e a gente sempre vinha aqui no Alzirão. A gente descia, trazia os cachorros para passear com roupa da Seleção e, este ano, estou vivendo um pouco mais isso aqui. Estou assistindo aos jogos com meus amigos, com a minha namorada e também conciliando com a minha avó, porque isso já virou uma tradição", explica Rafael.
Torcedora do Fluminense, Romilda revela que a paixão pelo futebol começou quando ainda era criança, através do seu pai. Ela também lembra da sua primeira Copa do Mundo, em 1950.
"Eu gosto de futebol desde menina, comecei a gostar pelo Fluminense, a gente ouvia pelo rádio, não tinha televisão naquela época. Então, quando foi 1950, na primeira Copa depois da Segunda Guerra, eu já torcia bastante, fiquei muito chateada quando perdemos, porque foi aqui no Brasil. Mas mesmo assim, de lá em diante, toda Copa eu estou torcendo", frisa.
Romilda ainda pegou o começo do Alzirão, tradicional festa de rua que surgiu em 1978 na esquina das ruas Alzira Brandão e Conde de Bonfim, na Tijuca, reunindo vizinhos para assistir aos jogos da Copa do Mundo em uma TV na calçada.
"Eu nasci na Tijuca, peguei o começo do Alzirão, ele não tinha tanta coisa como agora, era mais simples, tinha televisão, não era telão. Eles faziam bandeirinhas, essas coisas e a gente vem sempre, agora eu estou mais restrita, venho, fico um pouquinho e volto para casa porque não posso andar muito, mas sempre venho", acrescenta.
A aposentada ressalta que adora o clima de Copa e que o amor pelo futebol passa por sua família de geração em geração.
"Meu pai era fanático pelo Fluminense e ele levava a gente para o Maracanã e todo mundo lá em casa gosta de futebol por causa disso. Antes ouvíamos pelo rádio, até que começou a televisão e a gente passou a assistir sempre. Lá em casa a gente fazia bolão para ver quem ia ganhar, ou seja, desde pequena eu gosto de futebol e isso foi passando de geração, a minha filha adora também", afirma.
Relação entre avó e neto é marcada por amor e cuidado
Para o neto, passar mais um campeonato ao lado da avó é um privilégio. Além disso, ele também elogia a energia de assistir ao jogo no Alzirão.
"Minha avó é minha grande amiga. Fui criado por ela e ver os jogos da Copa sempre foi um grande evento lá em casa. Ela trouxe essa atmosfera para a gente, porque ela sempre foi uma grande fã de futebol e isso é fantástico. Infelizmente, na Copa passada, o Alzirão não funcionou por falta de patrocínio. Neste ano, a gente voltou a ter esse espaço, então está sendo muito divertido. A atmosfera, o público gritando a cada gol... é muito legal", narra.
Rafael já está mais alto que a avó, Romilda, que relembra com carinho a infância do neto. "Eu acompanhei mais o crescimento dele do que dos meus filhos, porque eu trabalhava e eles ficavam na creche e depois passavam o dia na escola. E ele não, minha nora sempre trabalhou e eu ficava com ele", conta Romilda.
De acordo com a aposentada, Rafael começou a frequentar o Alzirão ainda bebê, quando era levado no colo e, mais tarde, no carrinho.
Jogos da Copa
Na Copa deste ano, como de costume, Romilda tem assistido todos os jogos, até mesmo os de outras seleções, e vibrou quando a Alemanha foi eliminada. A Seleção venceu o Brasil por 7 a 1 no Mundial de 2014.
"Acho que minha avó vibrou mais com o gol do Paraguai sobre a Alemanha do que com o do Brasil", brinca o neto.
"O último jogo foi muito emocionante. Todos os eventos aqui são ótimos, cada vez eles põem mais coisas, agora tem show, eu gosto muito desse clima de Copa, mas mandar a Alemanha para casa foi muito bom", afirma a avó.
O estudante de Direito conta que, na partida entre Brasil e Japão, assistiu ao primeiro tempo ao lado da avó, em casa, na Rua Conde de Bonfim, de onde é possível ver o Alzirão pela janela. No segundo tempo, desceu para acompanhar o jogo com os amigos e a namorada, em meio à torcida tijucana.
"Eu vi um trecho do jogo com minha avó e depois desci aqui no segundo tempo, estava com uns amigos e a namorada. Estava todo mundo desesperançoso, xingando jogadores, o Ancelotti, e de repente o Martinelli entra e faz o gol, foi cerveja voando, criança voando, tinham estranhos se abraçando, o Alzirão é muito legal por causa disso", relata.
Considerado Patrimônio Cultural Imaterial do Rio, o Alzirão chegou a ser cancelado por falta de documentação junto aos órgãos públicos. No entanto, a três dias da estreia da Seleção Brasileira contra Marrocos, o prefeito Eduardo Cavaliere interveio e liberou a realização do evento.
"Quase ficamos sem o Alzirão de novo, e, para o tijucano, isso seria muito triste, porque é uma tradição passada de geração em geração. Ainda bem que, de última hora, ele foi montado", acrescenta Rafael.
Para o próximo jogo contra a Noruega, a avó acredita no placar de 2 a 1 para o Brasil, enquanto o neto também aponta para vitória da Seleção, de virada, por 3 a 2.
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