Com essa imagem, o século XX - bem ou mal - finalmente começou (Foto: Reprodução)
Publicado 24/03/2026 14:00 | Atualizado 24/03/2026 17:36
* Quando o cinema começou, a coisa mais difícil era caçar assunto pra filmar. Os primeiros filmes, quando houve filme, eram peças de teatro (ou circo) filmadas. Antes dos filmes, o que havia eram filmagens e, para que o equipamento de cinema evoluísse o suficiente pra que houvesse filmes, foi preciso acertar e errar filmando coisas.

Entre essas coisas, as lutas de boxe foram pioneiras. Quando o cinema ainda era uma máquina em que você botava um tostão e via um trecho qualquer, já tinha gente filmando luta assalto por assalto e botando cada um deles em uma máquina diferente (de modo que, pra ver a luta inteira, sujeito tinha que botar cinco moedas em cinco máquinas diferentes).

Curioso é que, nesses primórdios, tudo dava errado, mas, ainda assim, dava certo.

No primeiro filme de boxe, só um dos lutadores era pugilista, nenhum dos dois era bom, mas o público gostou assim mesmo. No segundo, botaram o campeão mundial dos pesados, Jim Corbett, pra lutar contra um cara ruim e, mesmo assim, o público amou. No terceiro, que era o que tinha mais apelo porque foi uma disputa de título mundial entre Corbett (o norte-americano campeão) e o desafiante gringo Bob Fitzsimmons e a filmagem ficou fabulosa, mas quem venceu foi o gringo - e o público lotava todas as sessões mesmo assim. Daí, veio mais uma chance, que foi quando o novo ídolo dos EUA, o brucutu Jim Jeffries, nocauteou Fitzsimmons, mas o filme da luta ficou uma merda - e, ainda assim, o público se amontoava em filas pra ver a luta.

Jeffries virou uma lenda, mas com um porém. Como todos os seus antecessores, ele se recusou a colocar o título em jogo contra qualquer lutador negro, embora houvesse um número considerável de desafiantes nesse grupo, todos eles capazes de vencer o campeão. Considerado campeão “de cor” na categoria dos pesados, Jack Johnson vivia desafiando Jeffries, que se aposentou dizendo que “não tinha mais adversários”. Com a aposentadoria do campeão, um baixotinho cadanense chamado Tommy Burns saiu da divisão dos médios, conquistou o título e aceitou o desafio de Jack Johnson, fazendo dele o primeiro negro a disputar o título mundial dos pesados.

A filmagem dessa luta ficou soberba e, por essa ter sido uma luta tão importante, sumiram com os originais ela. O canal FightFilmsGuy lançou um documentário no YouTube contando mais sobre essa luta e sobre o como o material que sobrou (apenas o primeiro de dois rolos de filmagem) foi editado pra contar uma história ligeiramente diferente daquela que, de fato, aconteceu.

O filme inteiro, porém, foi exibido na época, com a vitória de Johnson e sem que a polícia interrompesse a filmagem, sobretudo naqueles rounds finais em que Burns já não aguentava mais em pé e Johnson bateu nele de um tanto que só vendo o filme mesmo pra gente saber. O lance é que esse filme em específico atraiu muito mais público que todos os outros, sobretudo em lugares do mundo em que ninguém esperava que fosse o sucesso que foi, porque eram lugares onde a população negra era maioria. Como a luta foi na Austrália e filmada por australianos, os Estados Unidos até que demoraram pra ter aquela sensação que a Inglaterra começava a ter, que não era só a de ver o lutador da casa grande sendo surrado, mas, sobretudo, ouvir a festa da vitória vinda da senzala ali ao lado.
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Boxe moldou parte da história - (Foto: Reprodução)
Boxe moldou parte da história(Foto: Reprodução)

Demorou, sim, mas aconteceu. O racismo dos EUA é uma parada tão louca que os caras realmente acharam que Tommy Burns tinha sido derrotado não porque Johnson era um pugilista melhor (e maior), mas porque ele era canadense (de origem alemã) e que, se a luta fosse contra Jim Jeffries, Johnson ia levar uma merecida surra. Falaram tanto disso que o próprio Jeffries acabou acreditando (se não acreditou, aceitou acreditar porque era grana demais pra negar) e marcaram a luta entre o negro e o racista justamente pro dia 4 de julho, Dia da Independência dos EUA, de 1910, e prepararam o melhor equipamento que o cinema havia inventado até ali pra mostrar o tamanho de sua evolução e do dinheiro que o setor movimentava. Sim, porque, além da bolsa que o promotor prometeu, ambos os lutadores dobraram seus lucros vendendo os direitos de filmagem.

Não era só isso que eles queriam mostrar: eles acreditavam que iam registrar em filme a prova cabal de que um negro jamais poderia vencer um branco e o que aconteceu foi justamente o contrário: Johnson deu um baile, uma surra e um esfoliamento de face grátis no campeão branco. A luta foi interrompida no 15º round para que Jeffries, que tinha sofrido o primeiro knock-down de sua carreira (e foi posto de volta pra dentro do ringue com um emblemático pé na bunda, provavelmente vindo de Corbett, que atuou em seu córner), não sofresse ali o primeiro (e último) nocaute de sua carreira. “Ah, mas foi no 15º assalto, era o último e tal…”. Não, criança: a gente precisa parar de ver o boxe de antigamente com olhos de hoje: a luta tinha previsão para durar 45 assaltos.

É importante lembrar que, quando o escritor Jack London usou a expressão “Great White Hope” (Grande Esperança Branca) para se referir (sobretudo) a Jim Jeffries, que ele enxergava como a esperança do mundo branco para derrotar o pugilista negro, ele não tirou esse nome do cu. Pouco antes, na época em que Johnson venceu Tommy Burns na Austrália, os Estados Unidos botaram todos os seus navios de guerra pra rodar o mundo e mostrar seu poder de fogo (não existia avião nem bomba atômica) e sua vocação expansionista imperialista. Essa esquadra ganhou o curioso apelido de “Great White Fleet” ("Grande Frota Branca”), supostamente, porque seus navios tinham cascos brancos, sim, claro. O país que, um século antes, tinha comprado vários territórios (tipo Louisiana, Flórida e Alasca), tinha tomado outros do México e tinha chacinado seus povos originários, agora apontava seus canhões pelo mundo através da política do “Big Stick” (“Pau Grandão”, sejamos francos) do presidente Theodore Roosevelt, que é o cara que Donald Trump gostaria de ser.

Roosevelt tinha essa pira de fazer dos Estados Unidos um “país grande” e encontrou vários jeitos de mostrar ao mundo o seu “pau grandão”. O meio mais eficiente de todos, até ali, tinha sido através da imprensa, que se alastrava em agências internacionais que distribuiam histórias dos EUA para o mundo todo, transformando, como os ingleses ensinaram, a notícia em mercadoria. Por seu passado de pugilista (Roosevelt tinha seu próprio ringue na Casa Branca), ele acreditava, como os ingleses, que a nobre arte era um modo de provar a supremacia norte-americana sobre os outros povos e confabulava sobre o assunto com Tex Rickard, seu grande amigo (igual Trump com Dana White), que era o maior promotor de boxe da época. Foi Rickard, inclusive, o responsável por botar Jeffries no ringue contra Johnson para, ao mesmo tempo, vender ao mundo duas mercadorias: o boxe e o cinema.
Boxe moldou parte da história(Foto: Reprodução)


Se Jeffries tivesse vencido, o filme dessa luta teria sido saudado como o primeiro grande filme de sucesso da história do cinema norte-americano e o boxe teria sido reconhecido como esporte nacional, mas a vitória de Johnson, se não mudou tudo, atrasou bastante os planos. Afinal, estava ali, documentada em filme, a prova real de que esse papos de supremacia branca eram lorota de branco que tinha medo de perder a mulher pra um negro. A vitória de Johnson, por outro lado, também causou uma onde de violência generalizada contra a população negra. Não teve isso de “conflito racial”, conforme a imprensa branca noticiou. Foi a população branca racista dos EUA massacrando negros para mostrar qual era “o lugar deles”, tipo aquelas frutas estranhas que a Billie Holyday tão dolorosamente canta, sabe?

Só que a Caixa de Pandora, que já estava aberta, ficou toda arreganhada quando o filme ficou pronto. Os estados do sul do país reclamaram tanto que conseguiram proibir a exibição em todo país, o que era um problema pros seus produtores, que tinha investido uma bela duma grana ali. A saída foi vender o filme para o mercado externo e, nessa brincadeira, o cinema norte-americano abriu rotas e estabeleceu relações comerciais que seriam importantes no futuro.
Boxe moldou parte da história(Foto: Reprodução)

A reputação de “filme proibido” aumentou ainda mais o interesse do público, que se juntava em exibições clandestinas e, em países de maioria negra, comparecia em peso, lotando todas as sessões. Os Estados Unidos reagiram baixando a proibição geral de exibição de qualquer filme de boxe, assim como o transporte de filmes através das fronteiras estaduais. Foi a primeira vez na história que um evento esportivo despertou tamanha atenção e foi através desse filme que o boxe se espalhou pelo mundo (inclusive para o Brasil).

A própria história , assim como é contada pelos norte-americanos, minimiza isso, mas foi essa a luta que, pela primeira vez, fez do esporte de competição um assunto em nível mundial, dando origem ao que hoje a gente chama de jornalismo esportivo. Mais ainda: deu credibilidade ao cinema enquanto produto e mostrou caminhos para que ele se tornasse a indústria que se tornaria depois. Naquela época, Hollywood era apenas a um bairro de Los Angeles e, antes de Chaplin ou de qualquer outro, é preciso aceitar: Jack Johnson foi a primeira estrela de cinema.

Foi com essa luta que nasceu o século XX.

Apesar de representar o nascimento do cinema norte-americano, o filme da luta entre Johnson e Jeffries foi criminalizado e sistematicamente destruído a ponto de, hoje em dia, não existir mais um único registro da luta inteira (no vídeo acima, onde diz “full fight”, não é o filme completo: é tudo que sobrou dele). O próprio Johnson foi perseguido a ponto de ter sido acusado por um ato que, na época que ele cometeu, ainda não era considerado crime (transportar uma mulher branca, no caso a esposa dele, entre fronteiras estaduais). Johnson também é acusado de ter provocado o suicídio de uma de suas esposas, mas é sempre interessante imaginar quem é que causou a depressão na mulher branca que casou com ele, se foi o marido negro ou se foi a sociedade branca (a família dela, inclusive) que fez da vida dela um inferno.

Se até aqui você ainda não se convenceu de que esse foi o evento esportivo mais importante da história, espera que tem mais.

O boxe ensina que, através do jeito como o adversário reage, a gente consegue ver claramente o tanto que ele sentiu o golpe - e a sociedade branca norte-americana sentiu tão profundamente que respondeu com outro filme, aquele que ensinaram pra gente que foi o primeiro da história, que se chama “The Birth Of A Nation” e que, apesar de pelo título (“Nascimento de uma nação”), pareça ser sobre a origem dos Estados Unidos, na realidade, é sobre a Ku Klux Klan - uma organização racista que parecia inativa desde 1872 e, com o lançamento do filme, em 1915, se sentiu livre para retomar suas atividades. Claro que houve revolta contra o filme por parte da população negra, mas o fato de ainda haver cópia inteira do filminho da KKK e não da luta de Johnson contra Jeffries mostra que a constituição dos EUA falha desde a primeira emenda.

A luta também foi importante no Brasil, que já tinha salas de cinema e exibiu o filme em todas elas. O sucesso foi tanto que incentivou os donos da noite carioca a promoverem a primeira luta de boxe organizada por brasileiros em território nacional e foi entre um branco (o estadunidense Jack Murray) e um negro (o jamaicano Bill Jackson). Pode ter sido por causa dessa luta, também, que nosso Almirante Negro, João Cândido, apontou todos os canhões da marinha brasileira na direção do Rio de Janeiro e, durante a chamada “Revolta da Chibata”, ameaçou meter bomba na CAPITAL DO BRASIL se as Forças Armadas não parassem de chicotear negros por qualquer motivo. A Marinha do Brasil nunca perdoou João Cândido, assim como os EUA nunca perdoaram Jack Johnson.

E essa treta se estende até os dias de hoje, porque os Estados Unidos adoram reescrever o passado (do boxe, do cinema, da imprensa e tudo mais) como um meio de controlar o futuro. Por isso, nunca se pode dar moleza como Obama deu em dois mandatos, quando não se preocupou em anular sentença, retirar todas acusações e limpar o nome de Jack Johnson. Por não ter feito isso, Trump, logo no primeiro mandato dele, fez o maior carnaval ao conceder o perdão para Johnson. Poucas vozes (sobretudo no boxe) se levantaram em protesto, e pior: teve gente comemorando como se a justiça estivesse, finalmente, sendo feita, mas foi o exato oposto. Com seu perdão racista, Trump perpetuou a sentença, fruto de acusação injusta e infundada, manchando para sempre o nome de Jack Johnson como criminoso.

Pois quem diria que, contando a história do jeito fascista, a gente acabaria funcionando (sendo ou não) igualzinho a um fascista, não é verdade?

* Artigo escrito por Fernando Tucori em parceria com o Outboxing Fight Night
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