Renê Simões promete revolucionar o Maricá F.CFoto: Bruno Maia
Publicado 24/08/2026 18:51 | Atualizado 24/08/2026 18:52
Maricá - A chegada de Renê Simões ao Maricá F.C. representa mais do que uma mudança no comando administrativo do clube. Aos 73 anos, o experiente treinador e gestor, que além de dirigir grandes clubes do futebol brasileiro tem no currículo o comando da Seleção Jamaicana na Copa de 1998 na França e a medalha de prata feminina na Olimpíada da Grécia em 2004, assume a função de CEO do clube com a missão de comandar a reconstrução do Tsunami em um inédito projeto de dez anos.

Em sua primeira entrevista desde que assumiu o cargo, Simões revelou uma visão que vai muito além do futebol profissional. Formação de atletas, educação, preparação mental, inclusão social, ciência, tecnologia, prevenção de lesões, estrutura, relacionamento com o torcedor e a construção de uma nova mentalidade estão entre os pilares do projeto. Confira na sequência os principais pontos da conversa com a assessoria de comunicação do clube.

A Chegada ao Maricá F.C

“Eu estava muito bem em casa. Não queria voltar, estava ótimo, cuidando dos meus restaurantes e fazendo as minhas mentorias, como a do Filipe Luís. E eu falo dele porque o próprio Filipe disse que eu entrei em sua mente logo no início. Então o Bismarck (ex-Vasco e Seleção Brasileira), um dos meus filhos no futebol, me procurou no Rio e disse: “Olha, o prefeito de Maricá (Washington Quaquá) me pediu uma sugestão de nome para gerir o clube e eu só tenho o plano A, que é você’. Eu disse: Bismarck, me deixa quieto aqui”. E ele falou: ‘Não vou deixar. Você tem que ir lá conversar com ele, você vai gostar dele.”
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Olhar para os invisíveis

E aí resolvi passar um sábado com o prefeito em Maricá. E aquilo que eu achei que seria quase impossível, eu mudar de ideia, aconteceu. Eu vi um visionário ali. Eu brincando disse para ele: pô, você parece o presidente da Federação Jamaicana de Futebol (Horace Burrell), que veio ao Brasil e disse:

‘Eu quero ir para a Copa do Mundo de 1998’. E não é que nós fomos. Olha como eu acredito que não existem sonhos impossíveis. Só são impossíveis aqueles que você não sonha

Conversando com ele, Quaquá me falou desse projeto de dez anos. Eu pensei: ele é um visionário, mas será que isso é sério? Mas ele foi me dizendo o que pensava e eu vi a seriedade no que dizia”

“E o que mais me tocou não foi o clube em si, pois trabalho no futebol há décadas. Mas foi ele dizer que queria trabalhar com os jovens das comunidades e assentamentos, a quem chamo de invisíveis. Porque essas crianças, esses jovens, às vezes são esquecidos, ninguém olha para eles. Mas ele olhou. E isso me tocou fundo”.
Mais que jogadores, formar pessoas

“Hoje em dia, nas escolinhas, você tem que pagar mensalidade, o equipamento, as passagens, inscrição da competição. Paga tudo. Eu acho isso um absurdo. Então vamos fazer diferente aqui. Ninguém vai pagar nada!”

“Essa é a proposta do prefeito Quaquá. Ele quer que as pessoas tenham oportunidade de entrar nas escolas sem pagar nada. Você não vai precisar ter dinheiro para jogar. Isso aí é indiscutível.”

“E o projeto não é só formar o jogador, é formar o ser humano. A formação você faz sabendo o que tem dentro dele. Em primeiro lugar, você tem que saber que ele é um ser humano diferente dos outros e tem que ser tratado desse jeito. Depois vem o atleta”

E vamos levar esse projeto não apenas para Maricá. Mas para o Brasil inteiro”.
Potencializar o indivíduo

“Nós estamos fazendo uma análise de perfil individualizado, tanto dos atletas como da nossa comissão técnica. Porque cada indivíduo é diferente do outro. O que é que faz o teu olhinho brilhar? Então, o que a gente quer fazer? É ser jogador de futebol? É ser reconhecido? É ser um estudante? A gente vai estabelecer tudo isso. E a gente começa a identificar dentro dessa busca.

A ideia é que, acima de tudo, a gente viva num mundo em que você não tenha uma escola igual para todo mundo, mas que seja uma escola diferente. Se eu estou numa zona rural, será que eu tenho que ter uma escola igualzinha à que eu tenho num centro urbano? Talvez não. Eu preciso trabalhar lá de uma forma diferente. Então, cada núcleo vai ter um projeto educacional diferente. É óbvio que você vai ter uma metodologia de trabalho igual. Mas aí, quando você entra na parte didática, vai ser de acordo com os aspectos culturais de cada local e comunidade”.
O projeto dez anos

“Tudo começa num planejamento. Nada que você faça na sua vida é possível sem o planejamento. Você tem que ter os objetivos, metas, você tem que saber que todo projeto é um processo. O grande problema do brasileiro é que ele acha que bota uma semente no chão e amanhã está colhendo.

Tem que regar, cuidar e esperar para colher no tempo certo. E qual é esse tempo certo? Vai depender de como ele faz esse plantio, essa semeadura. Eu costumo dizer que não existe colheita perfeita se você não tem uma semeadura perfeita”.

“Eu comecei a entender tudo do clube, tudo o que é o clube, qual é a mentalidade. O que a gente constatou muito nesse início foi a questão de mentalidade. É você imaginar que o Maricá F.C não é um clube pequeno. Ele pode estar numa divisão em que alguém pense que ele é um clube pequeno, mas o Maricá F.C é gigantesco.”
Onde queremos chegar

“O primeiro passo é atender a todos esses invisíveis, fazer com que eles ganhem visibilidade. Aí você começar a fazer com que o futebol brasileiro entenda que nós não paramos de fazer craques. Nós não estamos é dando oportunidades para eles surgirem Entenda que nós não paramos de fazer indivíduos corretos. Nós não estamos dando possibilidades a eles se desenvolverem e brilharem.
Então esse é o lugar da gente, de parar e no futuro dizer assim: o Maricá F.C deu possibilidade a muita gente e esse pessoal está produzindo e colocando o clube onde ele quer estar, que é na primeira divisão do futebol brasileiro. Impossível? Nada é impossível se a gente acreditar e fazer ser possível”.
O case Mirassol

“Olha o exemplo do Mirassol. Um clube do interior de São Paulo que chegou a uma Libertadores da América. Eu setembro estarei lá para conhecer o projeto. Dentro de grandes coisas que a gente quer trazer para cá, vou a São Paulo fazer uma visita na Microsoft, no Mirassol e no Novorizontino, que utiliza um software que a gente está querendo implantar aqui também. E assim vamos começar a mudar a realidade e mentalidade do clube”.
Ciência, genética e prevenção

“Nós já contratamos a Physiogene (método de análise genética), que a gente vai trabalhar para ver o gene de cada atleta, se ele é um cara rápido, se ele é um cara lento, se ele tem fibra rápida, se não tem. Nós todos somos diferentes. Temos que identificar e potencializar as diferenças”

Se eu quero trabalhar todo mundo, de repente estou forçando um jogador a trabalhar muito rápido e ele não tem essa capacidade de ser muito rápido. Com isso vou distender o jogador, que vai acabar no Departamento Médico. E não existe nada que dê mais prejuízo a um clube do que jogador lesionado”.

“Então as pessoas, os clubes, os dirigentes, às vezes não investem na prevenção. É muito barato investir na prevenção. Parece que é um dinheiro grande, mas não é. É barato. Se você pegar o número de dias, de meses que você perde pagando o salário a um jogador lesionado, a prevenção é baratíssima.”
Objetivo comum

“Como é que eu entendo um time de futebol? Um time de futebol é quando todos têm objetivos individuais, todos nós temos, mas você estabelece um objetivo comum. E dentro desse objetivo comum você trabalha no seu mastermind, com todo mundo pensando igualzinho. E aí você faz um time.
Então, se eu vou para frente, todos vamos para frente. Se eu venho para trás, todos vamos para trás. Isso chama-se compactação mental. Precisamos ter a compactação dentro do campo, mas eu quero a compactação mental também. Assim vamos ter um time coeso em que todos pensam em quê? Estar lá em cima. Eu quero estar lá em cima.”
Perfil de elenco

“Eu gosto sempre de trabalhar com alguém que consiga comandar dentro de campo. E eu já tive conversa com jogadores daqui mesmo. Alguns nós dispensamos. Outros eu disse: Não, eu gostaria que você ficasse.

Então, pelo menos para dois jogadores que eu entendo como sendo líderes eu disse: sim, eu quero que vocês fiquem. E eles ficaram mesmo entendendo que nesse momento de reestruturação seria necessário reduzir seus salários.

E mesmo assim eles ganharão quase que o mesmo rendimento de um jogador de Série A do Campeonato Carioca. E eles estão recebendo acima da média salarial da maioria dos times da A2. Então, nós fizemos escalas agora. Nós temos faixas salariais A, B, o C e a base. E aí cada faixa terá um número de jogadores que compôs no nosso elenco”.
Upgrade estrutural

“A primeira coisa que eu quero é que o jogador sinta e veja aqui um clube grande. E para isso vamos oferecer uma bela academia, campos de qualidade, centros de pesquisa neuro-cerebral, laboratório genético.

O atleta aqui vai ter psicólogo, alimentação boa, acomodação de qualidade, podóloga Eu não consigo entender um jogador de futebol que não tenha esse profissional. Você tem que ter, é ferramenta de trabalho. Então eles às vezes cuidam muito do cabelo, da barba, mas não querem cuidar dos pés. Pô, querem cuidar quê? É sua maior ferramenta.

O sono, vamos cuidar do sono dos atletas. Existem alguns clubes que têm um anel, e ali ele revela se você dormiu bem, dormiu mal, que horas você foi

dormir, que horas você acordou. Isso tudo são detalhes. As pessoas não têm noção do que o sono traz para um atleta ou traz para qualquer pessoa comum. Então isso tudo nós vamos trazer.”
“O jogador que vier para o Maricá F.C tem que saber o seguinte: vou para um lugar que eles vão me tratar preventivamente, eles vão me tratar individualmente, vão saber da minha individualidade. Teremos profissionais competentes aqui para cuidar de tudo isso”.
Relação com a torcida

“A base tem que ser a criança, para que o pai, a mãe, a família, comece a ter esse contato desde cedo com o clube. Nós vamos começar a fazer torneios locais pelos distritos de Maricá. Depois, queremos que cada distrito tenha uma seleção local. Vamos também abrir o CT para que as famílias venham aqui passar o sábado pela manhã ou à tarde, para que eles comecem a viver o clube.

Queremos também que as escolas visitem o CT e frequentem os jogos. Imagine 100 crianças aqui assistindo o último treino da semana e aí quando acaba vão aos jogadores para tirar fotos e pedir autógrafos? Elas gostam, se sentem pertencentes e o jogador gosta muito, porque ele se sente querido e cuidado. E vamos levar o nosso mascote e os jogadores para visitar as escolas também.

Em alguns clubes em que eu cheguei, as torcidas eram pequenas e foram crescendo. Em outros, a torcida estava afastada, as faixas viradas, e acabaram desvirando, porque esse link tem que existir. Eu não consigo entender um clube sem o torcedor. Torcedor é a alma de tudo.

Agora, espero em troca ações civilizadas, porque não posso deixar de passar meu repúdio à violência. Aqui isso não vai caber nunca”.
Sócio-torcedor e novas experiências

“Para o torcedor que vai para o estádio, o do presente, nós temos que oferecer a contrapartida. Se ele está dando o seu tempo para o clube, se ele está indo aos jogos, ele quer ter entretenimento e recompensa.

Então, o sócio-torcedor, acima de tudo, é um projeto que nós estamos analisando. Vamos discutir o que a gente vai oferecer, É só o jogo? Não.

Vamos oferecer entretenimento, benefícios. E isso vai ser anunciando muito em breve”.
CT e Estádio

“Além de um projeto lindíssimo assinado pelo Oscar Niemeyer, o novo estádio do Maricá F.C vai ser climatizado. Porque, se eu conheço o prefeito, desafio é a palavra que ele mais gosta. E não é um grande desafio, porque você tem energia solar abundante aqui. Então, dá para você fazer. Além de ser um estádio imenso, belíssimo, como ele mostrou, eu tenho certeza de que será confortável e aconchegante para todos.

E o futuro do Maricá FC passa também por um centro de treinamento sensacional e funcional. E nós vamos fazer”.
Renê e a cidade

“Eu ainda sei muito pouco de Maricá, mas o que eu vi de Maricá me encantou. Visitei o Hospital Che Guevara. Só vi algo parecido no Qatar.

No dia do vendaval recente acabou a luz da cidade. Aí estava difícil para achar um Uber e eu decidi voltar a pé da minha podóloga até a pousada onde eu estava. Eu andei 35 minutos no escuro sem pisar em um buraco na calçada. Que me desculpe meu amado Rio de Janeiro, mas lá isso seria impossível”

“Então são fantásticas as coisas que eu estou vendo aqui e os projetos que o prefeito me mostrou: o centro de convenções, o estádio, as obras do Niemeyer, o que se passa na cabeça dele, é incrível! Maricá é uma cidade com um potencial gigantesco. E o clube tem que estar alinhado com esse pensamento e ambição”.
O futuro do Maricá F.C

Essa é simples. Eu quero fazer do Maricá F.C um clube grande, um clube grande. Quem viver, verá!”.
 
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