Presidente da Síria, Ahmed al SharaaSyrian Presidency / AFP
Publicado 17/07/2025 18:45
O presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, disse que deseja evitar uma "guerra aberta" com Israel e ordenou nesta quinta-feira (17) a retirada das tropas governamentais de Sweida, delegando aos drusos a tarefa de manter a segurança na região, após confrontos deixarem centenas de mortos.
Publicidade
Israel bombardeou a Síria depois dos confrontos entre drusos e tribos beduínas, que começaram no domingo e deixaram quase 600 mortos, e ameaçou intensificar seus ataques caso o governo sírio não retirasse suas tropas dessa província, localizada no sul do país.
Com a retirada das tropas do governo, moradores saíram às ruas e puderam observar a destruição na cidade. Um fotógrafo da AFP avistou 15 corpos no centro de Sweida, mas não conseguiu verificar se eles eram de civis ou combatentes.
"É como se a cidade tivesse acabado de passar por um desastre natural ou uma inundação", disse Hanadi Obeid, médica de 39 anos. "Vi três corpos na rua, entre eles, o de uma idosa. Há carros queimados por toda parte, outros capotados, e vi um tanque em chamas", acrescentou.
Segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha), "cerca de 2.000 famílias foram deslocadas" devido aos confrontos na província.
Segundo a ONG Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que tem uma ampla rede de fontes no território sírio, os combates deixaram 594 mortos, incluindo 83 civis vítimas de "execuções sumárias" pelas forças de segurança.
A violência ilustra os desafios enfrentados pelo governo interino de Al Sharaa, o líder islamista de uma coalizão de rebeldes que derrubou o presidente Bashar al Assad em dezembro, após quase 14 anos de guerra civil.
Os confrontos começaram no domingo entre as tribos beduínas sunitas e os combatentes drusos, depois do sequestro de um comerciante de verduras druso nesta cidade do sul do país, reduto desta minoria.
O governo sírio enviou suas forças à região na terça-feira para tentar restabelecer a ordem, mas uma ONG, testemunhas e grupos locais as acusaram de cometer execuções de civis e saques.
O líder islamista afirmou em um discurso exibido na televisão na madrugada de quinta-feira que deu "prioridade ao interesse dos sírios, em vez do caos e da destruição" e pretende evitar "uma nova guerra de grande alcance".
Membros das forças do governo informaram que completaram a retirada durante a madrugada.
O presidente sírio anunciou que "facções locais e xeques drusos" assumirão a responsabilidade de manter a segurança em Sweida.
Hostil a qualquer presença militar síria perto de sua fronteira, Israel bombardeou Damasco na quarta-feira, incluindo ataques contra o quartel-general do Exército e outras áreas do país vizinho.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse nesta quinta-feira que o cessar-fogo foi alcançado "à força" após os bombardeios.
Israel defende que atuou para proteger os drusos, uma minoria que é um braço do xiismo, mas considerada como uma corrente esotérica.
Antes da guerra civil, iniciada em 2011, a comunidade drusa na Síria era de 700.000 pessoas, a maioria delas concentradas em Sweida.
Mediação dos Estados Unidos
Em seu discurso, Al Sharaa prometeu que vai exigir uma prestação de contas pelas agressões contra o "povo druso, que está sob a proteção e responsabilidade do Estado".
"O Estado sírio interveio para acabar com os confrontos entre os grupos armados de Sweida e as regiões vizinhas", assegurou.
O presidente sírio também condenou Israel por recorrer a "um ataque em larga escala contra instalações civis e governamentais" em seu país, alegando que isso complicou a situação.
Também elogiou "a intervenção eficaz da mediação americana, árabe e turca (...) que salvou a região de um destino incerto".
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou na quarta-feira que os dois lados concordaram com "passos específicos que acabarão com esta situação preocupante e horrível". Pouco depois, o Exército sírio anunciou a retirada de Sweida.
Embora seja o principal aliado de Israel, o governo dos Estados Unidos também busca uma aproximação com as novas autoridades sírias, apesar do passado jihadista de seu líder, com quem Donald Trump se reuniu em maio.
Segundo a porta-voz da Casa Branca, Washington observa uma desescalada da violência, que parece "continuar".
O governo interino sírio prometeu proteger as minorias do país, caracterizado por sua diversidade, mas os confrontos ou incidentes como o massacre de alauitas, a comunidade à qual pertence Assad, provocam dúvidas sobre sua capacidade de controlar a situação.
Leia mais