Publicado 17/09/2025 22:36 | Atualizado 17/09/2025 22:37
O papa Leão XIV enviou uma mensagem de tranquilidade aos católicos ao descartar reformas na doutrina em relação às mulheres diaconisas, aos fiéis LGBTQ+ e ao casamento homossexual, após o abalo que seu predecessor, Francisco, causou no setor mais conservador da Igreja.
PublicidadeO pontífice americano de 70 anos revisou os desafios em uma entrevista no último capítulo do livro "Leão XIV: cidadão do mundo, missionário do século XXI", que será lançado nesta quinta-feira em Lima.
Na entrevista concedida à jornalista Elise Allen, a primeira publicada desde sua eleição em maio, Leão XIV fechou a porta para eventuais mudanças na agenda mais tradicional da Igreja Católica.
"Parece-me muito improvável, certamente em um futuro próximo, que a doutrina da Igreja mude em relação ao que ensina sobre sexualidade e matrimônio", afirmou.
Leão XIV também se alinhou com seu antecessor a respeito do "papel da mulher na Igreja": "Espero seguir os passos de Francisco, incluindo a designação de mulheres em alguns cargos de liderança, em diferentes níveis".
No entanto, assegurou que não tem "a intenção de mudar o ensinamento da Igreja" que exclui a ordenação de diaconisas.
Com relação ao acolhimento dos fiéis LGBTQ+, o bispo de Roma admitiu que se trata de um "tema altamente polarizador", mas que não promoverá a polêmica, mantendo assim a mesma posição já assumida pela Igreja.
"Todos estão convidados a entrar, mas não convido uma pessoa porque seja ou não de uma identidade específica".
Acrescentou que seguirá reconhecendo "a família tradicional", formada por pai, mãe e filhos, cujo papel "tem sofrido nas últimas décadas" e deve ser "fortalecido".
Acusações falsas
O então cardeal Robert Prevost foi eleito para liderar os 1,4 bilhão de católicos no mundo após o falecimento de Francisco, aos 88 anos, em abril.
O falecido papa foi alvo de severos ataques da ala conservadora por suas restrições ao rito tradicionalista em latim e por suas críticas à Cúria Romana, o governo central da Santa Sé.
Sem tocar na doutrina, Francisco teve múltiplos gestos de abertura em relação aos divorciados recasados ou aos fiéis LGBTQ+.
No fim de 2023, autorizou as bênçãos a casais do mesmo sexo, o que provocou ondas de protestos no setor mais tradicionalista da África e dos Estados Unidos.
No início deste mês, Leão XIV recebeu em audiência privada o padre norte-americano James Martin, um dos principais defensores dos fiéis homossexuais na Igreja Católica.
No entanto, não mencionou publicamente os cerca de 1.400 católicos LGBTQ+ que fizeram uma peregrinação ao Vaticano por ocasião do Jubileu, o "Ano Santo" da Igreja Católica.
Na entrevista, Leão XIV também abordou o escândalo dos abusos sexuais cometidos por religiosos.
Embora tenha dito que as vítimas devem ser tratadas com "grande respeito" e "compreensão", considerou que o "tema do abuso sexual não pode se tornar o foco central da Igreja".
Advertiu, contudo, que "houve casos comprovados de algum tipo de falsa acusação" — 90% são denúncias de "vítimas autênticas" —, razão pela qual "a pessoa acusada deve ser protegida, e seus direitos precisam ser respeitados".
Diversas organizações denunciaram o encobrimento ou a proteção por parte da Igreja em detrimento das vítimas.
Também criticaram Francisco por não ter aplicado medidas mais contundentes diante dos escândalos de abusos sexuais, como o levantamento do segredo pontifício ou a imposição da obrigação de denúncia.
Em outro trecho da entrevista, Leão XIV expressou sua preocupação com a brecha cada vez maior entre os mais ricos e a classe trabalhadora, citando o caso de Elon Musk, que está prestes a se tornar o primeiro trilionário do mundo.
"Se isso já é o único valor que importa hoje, então estamos em um grande problema", sentenciou.
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