Publicado 17/04/2026 17:49
No terceiro dia de sua viagem a Camarões, o papa Leão XIV denunciou nesta sexta-feira (17) o uso da inteligência artificial (IA) para fomentar "a polarização, os conflitos, os medos e a violência".
PublicidadeEm um discurso na Universidade Católica da África Central, na capital Yaoundé, criticou "a substituição progressiva da realidade por sua simulação", que conduz a viver "dentro de bolhas impermeáveis umas às outras".
"Quando a simulação se torna regra, (...) vivemos como dentro de bolhas impermeáveis umas às outras e nos sentimos ameaçados por qualquer um que seja diferente", lamentou.
"É assim que a polarização, os conflitos, os medos e a violência se espalham. Não está em jogo um simples risco de erro, mas uma transformação da própria relação com a verdade", acrescentou.
A declaração chega em meio às críticas ao uso que Donald Trump costuma fazer de imagens geradas por IA com fins políticos.
Depois que o papa criticou a guerra no Irã, o presidente americano publicou no domingo uma imagem em que aparece como se fosse Jesus Cristo. A ilustração, excluída um dia depois, gerou indignação entre a direita religiosa americana.
Em um país governado com mão de ferro por Paul Biya desde 1982, o líder da Igreja Católica exortou os jovens a "servirem a seu país" em vez de emigrar. "A África precisa se libertar da praga da corrupção", declarou.
O pontífice também criticou "o lado obscuro das devastações ambientais e sociais provocadas pela frenética busca por matérias-primas e terras raras''.
O continente africano está pagando um alto preço pela extração de cobalto, do qual dependem os servidores de informática. O setor é em grande parte dominado por potências estrangeiras, com a China à frente.
Missa gigante
Na manhã desta sexta-feira, o papa celebrou uma missa ao ar livre, sob um sol escaldante, em Duala, às margens do Golfo da Guiné. Mais de 120.000 pessoas compareceram, uma multidão bem menor do que o previsto pelo governo, que apostava em um milhão de pessoas.
"Viva o papa!", gritava a multidão entusiasmada com a chegada do pontífice americano em um papamóvel ao Estádio de Japoma, agitando "ramos da paz" e bandeiras do Vaticano, ao som de alegres cânticos acompanhados de percussão.
Marguerite Tedga, de 72 anos, passou a noite no local com algumas amigas para não perder a missa. "É o auge de toda uma vida cristã. Quando eu era pequena, pensava que não poderíamos ver o papa com os nossos próprios olhos", declarou à Agence France-Presse (AFP).
Após a celebração, o pontífice visitou pacientes de um hospital católico em Duala e depois viajou para Yaoundé. A jornada por Camarões terminará com uma missa na manhã de sábado.
Nestes dias, Leão XIV trocou sua habitual postura reservada por um estilo mais firme, após ter sido duramente criticado por Donald Trump.
Suas intervenções têm demonstrado um intenso tom social. Na quintafeira, denunciou "o mal causado de fora por aqueles que, em nome do lucro, continuam se apropriando do continente africano para explorálo e saqueálo".
Camarões dispõe de abundantes recursos — petróleo, madeiras valiosas, cacau, café, algodão —, além de vastas jazidas minerais que há décadas atraem grupos estrangeiros e elites locais.
"O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas mantém-se unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários!", disse em Bamenda, cidade nos Camarões, epicentro de um mortal conflito separatista no noroeste anglófono.
Cerca de 37% dos aproximadamente 30 milhões de habitantes de Camarões são católicos, e a Igreja administra uma ampla rede de hospitais, escolas e obras de caridade no país.
O líder espiritual dos 1,4 bilhão de católicos chegou a Camarões após uma visita histórica à Argélia. Sua viagem continuará por Angola e Guiné Equatorial até 23 de abril.
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