Publicado 30/08/2020 12:02 | Atualizado 30/08/2020 12:13
NITERÓI - Quarenta e um anos depois de chegar no Rio de Janeiro para trabalhar com uma tia na "feira dos nordestinos", a jovem cearense Francisca Alda Hortência Correa Dias, de apenas 16 anos, natural do municÃpio de Crateús, revolucionou não só a própria vida e a de sua famÃlia como também a relação da capital fluminense com o Nordeste brasileiro. O negócio caiu no gosto popular, muito em função da qualidade culinária e do carisma da empresária, e hoje contabiliza três unidades no estado: IcaraÃ, Copacabana e, é claro, o local onde a trajetória de sucesso começou - o (agora rebatizado) Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão. E nem a pandemia conseguiu frear essa ascensão: depois de cinco meses de portas fechadas, respeitando a quarentena decretada pela Prefeitura de Niterói e atendendo somente aos pedidos por delivery, a unidade da Rua Mariz e Barros reabriu semana passada, com mesas mais afastadas, álcool em gel à disposição dos clientes e ainda sem a presença da banda.Â
A Barraca da Chiquita começou do lado externo do pavilhão, sob a sombra de aprazÃveis árvores, e com a reformulação do local e sua reinauguração, em 2003, Francisca e o marido Raimundo mudaram-se para a parte interna, em um amplo espaço que permitiu não só a gastronomia tÃpica como programações que passaram a incluir forró ao vivo, artesanato, xilogravura e literatura de cordel. Tiveram inÃcio oficinas sobre a cultura nordestina para crianças, comemorações de datas festivas, lançamentos de livros e a exposição de obras assinadas por conterrâneos, atraindo também os turistas da Cidade Maravilhosa. Feliz com o crescimento do negócio, Chiquita montou em 2015 um food truck e, a partir de então, uma feira nordestina móvel começou a ser levada até os mais diversos bairros do Rio. Em 2017, foi a vez de Copacabana ganhar uma Barraca da Chiquita, e em agosto de 2018 inaugurou na Cidade Sorriso - completando exatamente dois anos neste momento (mais fotos na galeria abaixo). A famÃlia planeja para o dia 5 de outubro a abertura de uma quarta unidade, no bairro carioca do Irajá.
"A cultura nordestina é muito rica. Eu tenho um orgulho danado, verdadeiro um tesão no coração, de ser nordestina e poder compartilhar isso há mais de quarenta anos", exclama a Chiquita, que credita o sucesso de seu negócio à perseverança, ao trabalho contÃnuo e à originalidade. "Nunca fugi à s minhas raÃzes. Entre a barraca antiga e os restaurantes atuais, a única diferença é o tamanho, a estrutura, porque a essência, que conquistou a população, manteve-se a mesma. O cardápio, a decoração e o amor não mudaram", garante ela, que hoje conta com a parceria de marido, irmão, irmã, cunhada e sobrinho. O casal tem uma filha, Mariana, de 15 anos. Em Niterói, a esquina com a Rua Lemos Cunha tem uma área para eventos e comemorações, forró e espaço para "arrasta-pé", iluminação cênica sobre as obras de arte vindas de vários estados do Nordeste e a Bodega da Chiquita, com venda de produtos tÃpicos e artesanatos.
Chiquita conta que não tinha mas construiu uma bela relação com a cidade. "Não sabia se daria certo em IcaraÃ, pois o perfil do cliente muda muito de um lugar para outro. Além disso, a cidade já tem uma centena de restaurantes maravilhosos. Eu acabei me surpreendendo muito positivamente, pois ao chegar fui logo abraçada pela população e pelo poder público. Isso porque meu produto é fácil de conquistar as pessoas, pois traz alegria pelo sabor, pela música, pela cultura tão brasileira", diz a empresária, que ganhou Moção de Aplauso da Câmara Municipal. "Sou extremamente grata à cidade, pois mesmo neste perÃodo difÃcil de isolamento social, quando os demais estabelecimentos também ofereceram entrega em domicÃlio, e esse não era um serviço nosso, os niteroienses nos prestigiaram e ainda prestigiam. Por isso não precisei reduzir meu quadro de funcionários", comenta. "Niterói é uma cidade organizada, de pessoas participativas e que sabem o que querem".
Ela concordou com a tomada de decisão do prefeito Rodrigo Neves de obedecer à s orientações das autoridades médicas internacionais e decretar o isolamento social rÃgido para conter o avanço do coronavÃrus na cidade. "É verdade que o comércio precisa sobreviver, mas ele não sobrevive sem pessoas. A vida vem em primeiro lugar. O que permitiu essa reabertura agora foi o controle do contágio nos últimos meses em Niterói. Se os demais lugares fizessem como aqui foi feito, não terÃamos esse cenário nacional tão horroroso", opina. O restaurante, neste tempo de Novo Normal, de sexta-feira a domingo o dia todo (para almoço e jantar), com delivery diário com exceção das segundas-feiras.
Sobre a receita de sucesso para outras mulheres empreendedoras ou que pretendem empreender, Chiquita dá a dica: "Primeiro, acabem com a palavra 'medo', depois se pergunte se é isso mesmo que você quer fazer na sua vida. Eu era uma adolescente do sertão quando cheguei no Rio e só tinha comigo a coragem. Usei essa minha vontade e consegui tudo o que tenho hoje com muito esforço e paixão. Não se deixe levar pela opinião dos outros, que muitas vezes desanimam a gente porque eles mesmos não têm nem seus próprios sonhos. Seja qual for o seu talento, se houver fé e trabalho, você persevera. Há espaço e clientela para tudo, principalmente para produtos e serviços feitos com qualidade e amor. Se você tem uma sementinha dentro de si, cultive e acredite em si. Não desista dos seus sonhos", conclui.Â
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