Niterói: moradora russa de Piratininga ganhou bolsa para estudar cinemaDivulgação
Publicado 16/03/2026 17:24
Niterói - O Brasil registrou, em 2024, o maior número de pedidos de refúgio de sua história. Segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do relatório Refúgio em Números, foram 68.159 solicitações no ano, elevando para 156.612 o total de pessoas reconhecidas como refugiadas no país até o fim de 2024.
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Venezuelanos, cubanos e angolanos lideram os pedidos. Apesar de políticas públicas como a Operação Acolhida, desafios como a barreira linguística, o acesso à educação e a inserção no mercado de trabalho seguem como entraves centrais à integração, especialmente para mulheres e populações em situação de maior vulnerabilidade.
É nesse cenário que se insere a trajetória de iniciativas desenvolvidas pela Estácio e pelo Instituto Yduqs ao longo da última década, articulando educação, esporte, certificação linguística e apoio jurídico como instrumentos de acolhimento, inclusão social e reconstrução de trajetórias. Todas as ações são oferecidas de forma gratuita, estruturadas com metodologia própria, planejamento pedagógico e o engajamento voluntário de docentes e estudantes, especialmente das licenciaturas, que atuam diretamente no atendimento às populações em situação de vulnerabilidade, entre elas migrantes e refugiados. Parte dessas iniciativas conta, ainda, com o apoio metodológico da Educação Sem Fronteiras, organização de referência em políticas educacionais voltadas a migrantes e refugiados, fortalecendo a qualidade pedagógica e a efetividade das ações desenvolvidas.
Para muitos participantes, a educação representa um marco na trajetória de reconstrução de vidas no Brasil. Um dos exemplos desse impacto é a história de Liliya Mogzhanova Oliveira de Souza, de 41 anos. Refugiada russa e moradora de Piratininga, em Niterói, ela veio para o Brasil, em 2021, em busca de pertencimento, reconstrução e realização profissional. Foi nesse contexto de recomeço que a educação surgiu como ponto de virada. “A Estácio entrou na minha vida de um jeito milagroso”, afirma Liliya, ao relatar sua busca por instituições que ajudassem imigrantes e refugiados na revalidação de diplomas e na continuidade dos estudos. O contato inicial com a organização Educação Sem Fronteiras rendeu orientações valiosas e, meses depois, uma mensagem que mudaria seu caminho: a divulgação de vagas e bolsas da Estácio voltadas a imigrantes e refugiados. “Quando me perguntaram se eu queria participar, eu falei: claro que quero, porque eu queria muito entrar em uma faculdade aqui”, relembra.
O primeiro marco dessa atuação ocorreu em 2016, durante os Jogos Olímpicos do Rio. Em parceria com o Instituto Reação, a Estácio acolheu os judocas Popole Misenga e Yolande Mabika, refugiados do Congo que integraram o Time Olímpico de Refugiados. Além do suporte esportivo, ambos receberam aulas de português e apoio educacional, fundamentais para a adaptação ao país e a reconstrução de suas trajetórias.
Mais recentemente, as iniciativas ganharam novos desdobramentos em São Paulo. A unidade da Estácio em Santo Amaro passou a receber, em 2025, como bolsistas, estudantes refugiados do Afeganistão, matriculados nos cursos de Administração, Odontologia e Análise e Desenvolvimento de Sistemas.
Entre eles está Mahdi Sobhan, de 30 anos, que chegou ao Brasil em 2022 após deixar o Afeganistão em razão da instabilidade provocada pela chegada do Talibã. Formado em Engenharia de Alimentos em seu país de origem, ele iniciou a graduação em Administração na Estácio após aprender português por meio de cursos voltados a migrantes. Hoje, além de estudar, trabalha com eventos de gastronomia e sonha em abrir um restaurante de comida típica afegã no Brasil. “Quando cheguei, não falava português. Aprender a língua foi essencial para trabalhar, estudar e seguir construindo meus projetos”, relata.
Outra história é a de Shegofa, de 25 anos, estudante de Administração, que veio sozinha para o Brasil, enquanto sua família permaneceu no Afeganistão. “Antes de vir para o Brasil, eu estava estudando na universidade no Afeganistão. Mas, quando o governo caiu em 2021 com a chegada do Talibã, escolas e universidades fecharam para meninas. Só consegui estudar um semestre na Universidade de Cabul”, conta. Ela vê na educação a possibilidade de um novo futuro.
A unidade de Santo Amaro abriga ainda, desde o ano passado, um Núcleo de Atendimento Jurídico Gratuito para Imigrantes e Refugiados, criado em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo (FAMBRAS) e o CDHIC, ampliando o suporte legal a pessoas em situação de vulnerabilidade migratória.
Em paralelo, a questão da língua portuguesa passou a ser tratada de forma estruturada. Em parceria com a Educação Sem Fronteiras, a Estácio e o Instituto Yduqs promovem a certificação dos cursos de Português como Língua de Acolhimento (PLAC) e sediaram, no último ano, a aplicação da prova oficial de proficiência em língua portuguesa para cerca de 400 migrantes em algumas de suas unidades. A certificação é exigida para estudos, validação de diplomas e inserção no mercado de trabalho e representa um passo decisivo no processo de integração. Todo o processo — da formação à certificação — é gratuito e conduzido por equipes acadêmicas capacitadas, com o apoio técnico e metodológico da Educação Sem Fronteiras no desenvolvimento da metodologia e na formação docente.
Aprovada após um rigoroso processo seletivo, Liliya iniciou sua graduação em cinema e audiovisual, área na qual já atuava na Rússia, e hoje está em fase de conclusão do curso. “Como essa ação mudou a minha vida, eu nem tenho palavras para descrever”, diz, emocionada. Para ela, estudar na Estácio foi uma decisão estratégica e transformadora. “Eu entendi que, com o conhecimento que consigo obter nesse país, vou ter muito mais chances de um bom emprego, de uma boa rede de contatos”, afirma. Hoje, mãe desde o fim de 2024 e profundamente conectada ao país que escolheu para viver, Liliya projeta o futuro com ambição e sensibilidade. Seu maior sonho é a realização profissional no audiovisual, criando obras que dialoguem com diferentes públicos e culturas. Ao falar de seus planos, resume com convicção: “Oportunidades sempre vêm quando você não espera, mas você precisa trabalhar, fazer algo para conseguir”.
Para a vice-presidente do grupo Yduqs — do qual a Estácio faz parte — e presidente do Instituto Yduqs, Cláudia Romano, o compromisso com a inclusão de pessoas refugiadas se constrói por meio de parcerias e de uma atuação educacional consistente. “Mais do que acolher, assumimos a responsabilidade de garantir acesso real à educação, ampliando possibilidades de integração, autonomia e futuro. Aprendemos que as pessoas vindas de outros países são extraordinárias, com talentos, histórias e uma enorme vontade de contribuir — o que precisam é acesso e oportunidade. Iniciativas como o ensino de português, a alfabetização, a certificação e o apoio jurídico mostram que, quando há propósito, técnica e cooperação com instituições que realizam um trabalho admirável, a educação se torna uma poderosa ferramenta de transformação. Cada formação representa dignidade, pertencimento e liberdade para voar mais alto.”

Além das ações voltadas diretamente ao acolhimento de migrantes, a Estácio e o Instituto Yduqs mantêm o Programa de Alfabetização e Letramento, uma iniciativa educacional de caráter amplo, com metodologia própria, voltada à formação de jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social. O programa já atendeu mais de 2.000 pessoas, está presente em 18 unidades de ensino — 17 da Estácio —, nas regiões Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil, e contempla pessoas que ainda não dominam a leitura e a escrita em língua portuguesa. A iniciativa é integralmente gratuita e se destaca pelo modelo sustentável e escalável, baseado na atuação voluntária de docentes e estudantes das licenciaturas, que aplicam práticas pedagógicas alinhadas à educação inclusiva, à cidadania e ao desenvolvimento da autonomia.
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